Mais do que errar é humano, errar é vital neste mundo. Errar pode. Principalmente quando se é criança

Ando frequentando, se assim posso dizer, as salas de aula. Por diferentes razões. E uma das razões me tem sido forte por esses dias. Em uma das salas, estava conduzindo uma assembleia com alunos de 9 anos. Sugeri que fossemos ao ar livre para conversar. Num determinado momento, algumas crianças começaram a reclamar das pedras portuguesas no bumbum. A reclamação roubou o foco e virou alvoroço. Tudo com tempo. E não adiantou a conversa. Ainda que alguns colegas pedissem silêncio também.

Cansei e falei: “Vamos então voltar pra sala. Não faz sentido ficar aqui, com o privilégio do céu, reclamando do chão. Vocês se sentam confortáveis em suas cadeiras”. Subimos em silêncio. Alguns diziam pelo caminho que “não era justo”. Não, realmente não era. Uma minoria reclamava das pedras e uma maioria contemplava o céu. Mas não me fazia sentido esse barulho numa roda de assembleia. Subimos.

Sentaram-se em suas confortáveis cadeiras e ficaram em silêncio. Perguntei se os que estavam incomodados queriam dizer algo aos incomodantes. Sim, queriam. “Não é justo vocês atrapalharem o grupo. A gente é um coletivo”, uma diz. “Me senti injustiçada”, outra. “Minha perna estava doendo uma hora, mas eu mudei de posição”. “A gente quase nunca faz aula fora da sala. Estava tão gostoso que as pedras nem incomodavam”.

Seguimos por longos minutos até que os que contemplavam o céu aliviaram seus descontentamentos e os que reclamaram das pedras puderam entender que existem escolhas que devemos abrir mão quando deixamos a cadeira de lado.

Uma aluna pede a palavra e me pede uma nova chance. “Carol, todo mundo erra e aqui na escola a gente pode errar. Erramos, mas seria muito legal se você desse uma nova chance pra gente tentar de novo”. Meus olhos encheram d’água. Precisei respirar fundo, em fração de segundos, pra abafar o coração que tinha se alargado.

A gente deveria ser mais gentil com nossos erros. Gentil com a gente mesmo. Porque errar é fortificante nesse mundo. Errar pode. Errar deve. Não pode é a gente acertar tudo e sempre achar que aí está o valor das coisas. Porque temos o costume de validar o acerto e castigar o erro. Mas enquanto estivermos errados, estamos também errantes. Quase como sinônimos, ainda que sejam opostos. Um como verbo, outro substantivo.

Aluno fazendo anotação durante assembléia

Aluno fazendo anotação durante assembléia

O errante como aquele que tem na estrada sua possibilidade de caminho. Daquele que busca caminho, ainda que sem a certeza de sabe-lo. Porque não tem casa. E o errar como quem se permite a busca desse caminho e as escolhas por onde seguir. Ainda que isso exija da gente ser vulnerável. Ser instável – ou estar em instabilidade diante de tanta gente.

Gente que espera da gente o acerto. Porque errar, ainda que digam que é humano, não é aceitável. A gente crucifica. Antes se jogava na fogueira. Hoje, se joga das redes sociais. Quando pequeno, se joga no grupo e, muitas vezes, vira bullying e um tanto de outras coisas desagradáveis. Quando foi que nos ensinaram que erro deve ser castigado?

Quando, na verdade, seria lindo poder ter uma nova chance. “Porque a gente pode errar. Todo mundo pode”, disse a aluna de seus altos 9 anos. E por onde é que a gente perde esse saber tão ativo? Tão necessário e vivo. A gente precisa ressignificar o caminho. O tal do errante. Pra ser errante. E poder dar sentido de não culpa, de não frustração a algo que é aprendizado. Que é percurso.

Esqueci o percurso programado do dia e achei que deveríamos continuar a conversa. Era o que fazia sentido ali pra eles. Daqueles que a gente sente por dentro. Era o que fazia sentido quando se erra. Descemos já sendo outros. Pra ficar mais próximos do céu e poder continuar nossa conversa. Porque aquilo, por si só, já era acerto. Feito quem tem no erro a sabedoria de tentar de novo.

Alunos durante atividade em grupo

Alunos durante atividade em grupo

Era mais que uma nova chance. Era a possibilidade de validar o erro como algo grandioso e valioso no processo. Era a possibilidade de legitimar. Porque erro a gente precisa por pra fora. Senão sufoca. Feito palavra não dita – ou não escrita. Feito coisa que a gente guarda e esquece de repensar. Erro a gente vive, revive e significa. Porque só tem aprendizado quando tem sentido.

“Carol, posso falar uma coisa?”, me pergunta. “Claro!”, eu digo. “Hoje foi um dia muito importante! Porque aconteceu uma coisa chata, mas a gente pôde conversar sobre ela e eu fiquei muito feliz com isso”. Meus olhos encheram d’água de novo e, dessa vez, escolhi não respirar fundo pro coração serenar. Achei que valia transpirar por mim a alegria de ver um ressignificar grandioso de sentido. Feito quem carrega gentileza dentro de si – e pra si. Feito um ser errante.