Um domingo de fogos. Estranhos fogos. Deu um grande nó na garganta. Deu mesmo. Mas deu coragem também. Coragem de vivermos juntos, de não soltarmos as mãos. Ninguém solta a mão de ninguém. Não é assim?

Crescemos numa democracia tida como dada. Não fomos nós que brigamos por ela. Foram nossos pais. E também não sabíamos pelo que nossos filhos iriam lutar. Agora sabemos. “Por isso, cuidado meu bem. Há perigo na esquina. Eles venceram e o sinal está fechado pra nós. Que somos jovens”. Tem dia que as coisas dão erradas mesmo. É isso, meu filho, hoje não deu.

Nossa geração voltou às ruas. Ocupamos um espaço que estava a tanto esquecido. Lindo. E que se preenche agora por uma nova geração. Forte como são os jovens. Vocês viveram história hoje. Daquelas que serão contatas em livros e salas de aula. Daquelas que, muitas vezes, vocês assistem e não sabem ao certo “para quê serve”. Vai estar lá, a lindeza do movimento “Vira voto”. A gente tem que cuidar da nossa história e talvez esse seja o melhor momento para se apossar dessa linha do tempo.

Há duas semanas, estava a ler um texto chamado “Enfoque Globalizador e Pensamento complexo, uma proposta para o currículo escolar”, Antoni Zabala, como parte de uma atividade do meu curso de pedagogia. E ele não me saiu da cabeça desde então. Me senti privilegiada por fazer essa leitura num momento tão singular da política brasileira. Ou da nossa história. Zabala defende, percorrendo sua escrita, a importância de que “no ensino, qualquer decisão é resultado do papel que se atribui ao sistema educativo”. Fala também, em diversos momentos, que “essa função social corresponde à concepção que se tem sobre o tipo de pessoa que se quer formar e, como consequência, o modelo de sociedade que se deseja”.

E lá estamos nós, votando por quem queremos ser. Por quem queremos construir. Se a experiência educativa for democrática, a gente faz uma importante aproximação com a vida. E isso forma pessoas. “Hoje, o futuro não nos parece um lugar assim tão distante”, diz parte da carta dos alunos do colégio Vera Cruz. Não está. O futuro somos todos nós hoje e ele, vira e mexe, insiste em revisitar a história. De vez em quando, até a literatura.

“As pessoas viviam felizes no seu país. Cantavam, trabalhavam, conversavam e tinham ideias. Até que apareceu um certo tirano, que resolveu mudar tudo e atrapalhar a felicidade dessas pessoas. Reclamou das cores e até das estrelas. Se não fossem aquelas crianças…”. Crianças que resolveram enfrentar e pintar tudo de cores. Cores. Do latim Cor – os antigos falavam de colorir para disfarçar. A palavra cor (em latim, color) é consanguínea da palavra ocultar (em latim, occulo). Ambas provêm de uma raiz que significa esconder, encobrir. Colorir é também esconder com cores. Também tem a ver com Coragem, a palavrinha lá do começo do texto. Cor – agem = agir com o coração. Porque só assim o mundo não ficará pequeno.

Às crianças? Não deixem que elas cuspam o ódio dos adultos. Porque “sabe o que eu acho bom, mãe?”, me indagou Pedro, meu filho mais velho. “As pessoas ainda têm esperança, não importa o que seja. Isso é importante”. Você tem toda razão, meu querido. Gilberto Gil canta que a “fé não costuma falhar”. A gente há de crer que a festa seja construtiva. O que nos une? A responsabilidade compartilhada de construção social. “Um tratado geral de grandeza”, poetizou Manoel de Barros. Pela pequena sentença de poesia ao mundo. Porque “eu penso, renovar o homem, usando borboletas”. “Elas podem pousar nas flores e nas pedras sem magoar as próprias asas”. Porque a gente tem que cuidar da nossa história.