Querer que os filhos sejam aquilo que você sonhou ou o que julga ser melhor para o futuro deles, nem sempre é o que os filhos são. Se distanciar dessa realidade é como perder o acesso a comunicação

É mais do que comum os pais idealizarem um futuro para os filhos. E não existe nada de errado nisso, mas é notório que, a longo prazo, as idealizações causam dificuldades na relação. O acesso, principalmente ao adolescente, vai ficando cada vez mais complexo. E vai se criando uma distância entre o mundo real e o virtual. Como se o real fosse o olho no olho e o virtual a idealização. Como fazemos nas redes sociais. As imagens contam o que não somos, mas gostaríamos de ser. As pessoas nos veem como elas gostariam de ser, mas não são. Ao mesmo tempo que gera uma frustração, gera também desejo e o melhor, parece ser um mar de likes.

Como conta o filme Buscando, exibido semana passada, em mais um encontro do Pausa Para Prosa. Numa boa metáfora sobre filhos, anseios, idealizações e realidade, o filme faz a construção da família perfeita, aquela da propaganda de margarina que costumávamos ver. Mas após a morte da mãe, pai e filha precisam se relacionar e parece que as conversas, olho no olho, ficam mais difíceis de acontecer. De um lado, o filme faz a construção de uma imagem virtual e da expectativa que ela gera, do outro, mostra uma realidade completamente oposta. De poucos likes, isolamento e desconhecimento de algo, aparentemente, tão próximo.

Encontro de mãe do Pausa Para Prosa

Aos poucos, o pai começa a fazer descobertas sobre a filha. Numa delas, descobre que as aulas de piano, pagas mensalmente, já não eram frequentadas há tempos. E quem nunca? Quem nunca se descobriu pagando uma aula para o filho que ele não frequentava? Porque queremos que eles façam piano, inglês, tecnologia, xadrez e uma lista infinita de sonhos de futuro. Mas qual futuro? Ou futuro de quem? Na busca pelo mundo real, vamos idealizando as relações e as pessoas. Inclusive os filhos. Mas sabemos bem o quanto o mundo virtual não é concreto e as relações precisam ser concretas para existir. Porque precisam de toque. Elas despertam sensações e nos propiciam sentimentos. Isso precisa de corpo e alma para acontecer. Precisa de, no mínimo, duas pessoas. E o que fazer?

Proporcionar vivências reais para – e entre – pais e filhos. Procurar menos nas telas e mais no olho no olho. Se relacionar dá trabalho. Educar dá trabalho. Mas estamos atolados, literalmente, em fast things. Tem fast food, fast fashion, fast track, fast shopping e, sabemos bem, que é possível encaixar os relacionamentos neste bloco. Relacionamentos rápidos ou superficiais não exigem compromissos. Nem seu com você mesmo, nem com quem você está se relacionando. Seja um filho, seja quem for. É o que o psicanalista e professor titular da USP, Christian Dunker chama de “déficit de intimidade” (vale um Google aqui). O que podemos, também, transpor as relações virtuais. O problema é que o mundo virtual não é o real, mas o representa.

“Assim como quando colocamos os filhos na escola pela primeira vez”, exemplifica Rosely Sayão que conduz as conversas do Pausa Para Prosa. “A escola tem essa representatividade de mundo, mas ainda não é o mundo”. E passamos a nos relacionar intimamente com um mundo que não é mundo. É uma vala sem fundo que precisa da nossa interação para existir e ganhar cor. Vamos postando intimidades aos montes e deixamos a porta aberta para os likes. Mas o que aconteceria se você deixasse a porta da sua casa aberta? Será que poderia entrar quem quisesse? Quem poderia ir ao teu quarto e ver todas suas intimidades?

Certamente não abriríamos as portas da casa real como abrimos da virtual. E lá estão os filhos e as idealizações de filhos, também. Lá estão as relações com os filhos. Conversamos pelo direct, mandamos mensagens de whatapp e esquecemos de olhar olho no olho. De ir lá no quarto e bater na porta pra chamar. É mais prático mandar uma mensagem. E será que as relações precisam ser práticas? Quando os filhos se apresentam na escola, nos preocupamos mais em documentar do que ver, sentir e guardar. As memórias vão para a nuvem quando deveriam ser reveladas. Deixadas sobre a mesa ou espalhadas pela casa. Para a gente poder se aproximar do que faz sentido. Para a gente se preencher de sentidos reais.

Na relação entre pai e filha do filme, existe um constrangimento. O pai não quer descobrir a filha que tem. Ele se protege na falsa imagem criada pelas redes. Como defesa de um sentimento que pode causar ferida. São os temas tabus que muitas vezes não sabemos como lidar e fingimos não saber. Com medo, o pai não checa absolutamente nada sobre a filha. Nem onde ela está, com quem está e fazendo o quê. Tudo que ela fala, ele “confia” e, ao longo do filme, ele vai somando imagens idealizadas na constituição de uma filha perfeita. “Mas é preciso colocar as peças de volta na mesa”, simboliza Rosely.

No filme, é preciso a filha desaparecer na vida real para o pai buscar, na vida virtual, quem é a filha de verdade. É neste momento de procura, de busca, que ele se faz pai na real. E Rosely provoca: “quantos de nós temos filhos perdidos, desaparecidos, e não nos damos conta disso?”. “É preciso estar presente no cotidiano dos filhos para desfazer a imagem idealizada e poder encontra-los de verdade”.Como uma grande metáfora.

Sem medo da desconstrução, sem medo das descobertas, sem medo das intimidades e das realidades. É preciso se fazer presente o tempo todo. Com coragem de olhar os filhos como eles são e não como gostaríamos que fossem. Para que eles, filhos, possam confiar nos pais. Com.fiar de fiar juntos, de tecer juntos. Na raiz etimológica da palavra. Para que a gente possa aproximar as relações e torná-las concretas. De toque, de calor e amor. Porque essas deveriam ser as idealizações entre pais e filhos. Elas seriam perfeitas.