Incrível como a vida vai colocando em nosso caminho respostas, ou, pelo menos, possibilidades delas. Há uma semana voltamos de viagem, Paris, e continuo a pensar – e me intrigar – com a frase do Felipe, meu filho, sobre não querer mais ser artista. A constatação de que crianças não gostam de museus rendeu muita conversa na semana, com diferentes pessoas.

Não por acaso, fui a uma reunião pedagógica em que o assunto inicial era o “tempo de chegada”. “De expandir o olhar para o entorno, para o outro. E, ao mesmo tempo, olhar para si e descobrir-se como parte atuante”, dizia parte do texto. Falava da possibilidade de um olhar estrangeiro, “daquele que não é do lugar e que, em razão dessa condição, pode ver aquilo que a familiaridade costuma cegar”, dizia outro texto intitulado Olhar, Andrea Vieira Zanella.

Me fez lembrar sobre o termo “o sensível olhar pensante”, da educadora Mirian Celeste. Ela fala que o educador ensina a pensar, pensando. Ensina a olhar, olhando. A gente só pode ensinar as crianças a olhar arte, olhando. O Felipe só vai aprender sobre museus, indo a museus. Para construir a possibilidade de contar várias histórias, ou muitas histórias. Tem um TED da Chimamanda em que ela fala justamente sobre isso. Sobre a single storie. Do quanto uma história única e singular nos enche de pré-conceito e nos impossibilita de olhar e construir tantas outras possibilidades de histórias. E histórias constroem mundo. Por isso a importância de expandir, de alargar o olhar.

Dai eu penso como o olhar sobre uma única obra pode se transformar. Com o tempo, com a maturidade com que se olha e com o olhar de outros olhares. E me cai outro texto sobre o mesmo tema, no colo. “A Ronda Noturna”, quadro do pintor Rembrandt é tema de estudo. Maurice Merleau-Ponty foi um filósofo francês que tinha como ponto de partida em seus estudos a percepção. Ele analisa o quadro sobre sua perspectiva. “Para vê-la, a ela, não era preciso vê-lo, a ele”. A educadora Mirian Celeste analisa o texto e a obra e indaga, em seu texto, sobre o que ele havia visto que ela não tinha percebido.

O que eu vi na exposição do Van Gogh que me fez ficar 2h ali sentada olhando que Felipe não viu? Ou o que ele foi capaz de ver na exposição do fotografo africano Guy Tillim que eu não fui? Será que tem a ver com como a gente fala de arte para criança ou como a gente fala sobre olhares?

Habitar o mesmo espaço, sob diferentes pontos de vista, com perguntas atualizadas pelo tempo e pela experiência. Um olhar que pensa, que reflete, interpreta, avalia, re-avalia e dai constrói. De como é preciso buscar formas de olhar para construir aprendizado e poder fazer relações.

Susanne Langer foi uma educadora e filosofa americana que se tornou conhecida por suas teorias sobre a influência da arte na mente. Ela falava do olhar e de como o olhar era construtor deste processo. “Ver é em si um processo de formulação; nosso entendimento do mundo visível começa pelos olhos”. Visível e sensível. Daquelas que guardamos dentro da gente para significar. Algo se soma ao olhar. E para a gente ampliar é preciso ampliar o repertório, os olhares. Os ângulos, as diversidades, as versões e as histórias. Porque é preciso viver da própria transformação.

“Olhar do individuo sobre o mundo, olhar que não envolve só a visão, mas cada partícula de sua individualidade” – Mirian Celeste. Isso tem a ver com arte, com a viagem a Paris, com o Felipe e com o tempo a olhar uma obra, a estar num museu. Tem a ver com ampliar repertório não para criar uma única história, um único ponto de vista, mas vários. Isso constitui sujeito, sem se despir daquilo que a gente é, mas abarcando-se a ele. Pra mim é quase como vínculo. Entre olhar e construção. Entre mudança.