Ou o que é vivo? Investigar a vida dá margem a muita conversa. Numa sala de aula então…sob diferentes pontos de vista, crianças também elaboram suas hipóteses

Toda pesquisa parte de uma boa pergunta. E ainda que a do título pareça demasiadamente ampla, ela é intrigante. Adultos passam uma vida (vale a ironia aqui) em buscas de respostas sobre a tal. Crianças têm o privilégio de poder explorá-la, primeiro, na escola. Sim, privilégio. Poder olhar a vida com a clareza de uma lupa na mão deve amparar, em algo, a própria vida quando corre no tempo.

A pergunta do título é disparadora de um tema a ser estudado. As crianças, primeiro, são convidadas a trazer o que elas entendem por vida numa exploração de espaço proposto. Nada de conhecimento científico aqui. Vale o saber popular, ou o senso comum. Aquele de que fala Rubem Alves em seus textos no livro Filosofia da Ciência. É como o exemplo da dona de casa que vai a feira e precisa acessar todos seus conhecimentos para fazer dinheiro + lista de compras caberem num mesmo carrinho. Crianças precisam acessar conhecimentos prévios para pensar sobre a vida. Elas pensam nas plantas, na fotossíntese, no alimento, no sol, na água e nos espaços que habitam vida. Até mesmo nas bactérias. Ah, as bactérias… como podem ser tão perturbadoras.

Crianças pensam. Pensam muito. Levantam inúmeras hipóteses e procuram sentidos e intersecções entre elas. “Eu coloquei abelha e mosquito na mesma linha porque imaginei que, como são insetos, eles têm alguma relação”, uma diz. “Eu fiz a mesma coisa com fruto e fruta porque acho que são quase a mesma coisa, mas não são”. E pela procura de respostas, elas começam a classificar grupos e identificar relações – ainda que não tenham conceitos já ensinados pela professora. De novo, como o exemplo de Rubem Alves em que a mesma dona de casa preenche um formulário e escreve sua profissão como “dona do lar” sem que isso precise de uma formação. Uma pessoa comum como milhares de outras que carrega saberes.

Painel construído pelas crianças com classificação sobre seres vivos

Painel construído pelas crianças com classificação sobre seres vivos

Saberes que precisam de escuta. Porque existe um saber que o aluno traz. Um conhecimento que precisa ser validado para poder seguir. É de onde se parte. Porque para aprender sobre a vida não é preciso ser uma daquelas figuras esteriotipadas de cientistas malucos. É preciso ser curioso pela vida – ou com a vida. Feito quem carrega boas perguntas pelo percurso.

E da vida vão surgindo várias delas. Algumas com respostas, outras como hipóteses. Veja essa que linda (sim, linda): “Ela se transforma tantas vezes que é uma suposição de vida”. Ela, era uma semente, de fruta. Encontrada no pé de uma árvore de jambo, no pátio da escola. “Como essas coisas nos fazem estar vivas, talvez seja porque elas também tenham vida”, interpreta outra aluna. “Essas coisas” são as frutas. Se a gente as come, se elas nos alimentam, elas carregam vida.

São todas evidências experimentais. Não são frutos de experiências dirigidas. São pura observação de contexto. Das que os olhos nos trazem. Inegável que a prática desenvolva funções de conhecimento. E o que tem vida? Ou, o que é vivo? Numa outra sala, um grupo de crianças respondeu que a biblioteca da escola tinha vida – ou era viva. E não porque tinham pessoas ali ou bactérias nas cadeiras e livros manuseados, mas porque existia vida naquele contexto. Naquele espaço. Uma concepção de “estar vivo” que não é científica, nem biológica. É simplesmente viva.

Como a grandeza da palavra, ainda que tão pequena por suas letras. Como a grandeza da pergunta disparadora aos alunos. Como o título deste texto. A vida dá margem e nos margeia por diferentes momentos, espaços e conhecimentos. E que bom que ela mesma nos dá a oportunidade de revisitá-la ao longo do crescer. É “O Pesquisar na Diferença”, de que fala as três autoras do título entre aspas.

Porque ainda que a vida tenha um começar e um terminar, existe um vão de oxigênio que tá longe de ser ao acaso. Às vezes, até é ciências, mas é senso comum também. Porque antes de existir fora, por conceito, existe dentro, por vida. Feito Gilberto Gil que é capaz de melodiar a vida pela própria vida. Feito criança que tem o privilégio de investigar a vida com lupa na mão.

“Para reparar
As coisas
São invisíveis
Como o ar
Se você não
Para
Para reparar” – Arnaldo Antunes