Preocupados com os avós, com saudades da escola e dos amigos, crianças de uma escola particular, em São Paulo, contam o que sentem sobre o enfrentamento ao coronavírus

Ficar em casa sem poder sair pra brincar, descer no prédio e encontrar os amigos. Ir para a casa dos avós almoçar. Passar o dia com eles enquanto os pais trabalham. Sair da escola e ir pra casa do amigo. Ir à escola. Ir ao clube. Fazer judô, natação, dança, inglês. O isolamento social tirou não apenas os adultos, mas as crianças de suas rotinas e convivências.

Foi preciso, rapidamente, inventar uma nova dinâmica pra vida. Porque de repente estava todo mundo em casa. Juntos. Pais trabalhando na sala ou no quarto (tentando ao menos), filhos buscando um espaço para brincar e gastar energia. Famílias em busca de uma rotina de revezamento nos afazeres diários. Um dia um limpa, outro cozinha, lava a louça e por aí vai. As tabelas de organização e divisão estão por toda parte no Instagram.

As rotinas todas foram interrompidas. Existe uma vida antes do coronavírus e uma agora. Vai existir outra depois, também. E que sejamos outros, de alguma forma. De algum lugar. Por enquanto, a gente sabe que, no meio de tanto adulto tentando lidar com o caos que se estabeleceu na vida, tem também uma criança procurando entender e lidar com esse caos interno.

Lidar com os sentimentos, identificar o que a gente sente não é tarefa fácil. Nunca foi a ninguém. Mas é preciso tentar formas de expressão. A gente precisa de válvulas de escape. Às vezes, de um papel e uma caneta. Às vezes, de tintas. Às vezes de alguém que chegue perto e pergunte se está tudo bem. É preciso perguntar o que as crianças estão sentindo. É preciso dar voz e vez ao que as crianças carregam no peito.

Conversamos com algumas delas pra saber como estão. O que estão pensando e elaborando durante a #quarentena. Muitas expressam a preocupação que sentem pelos avós. Falam da saudade de não os ter mais na convivência diária. Sentem muita falta da rotina escolar. Estranham não ter que ir pra escola e ter que usar as telas como lugar de aprendizado. Falam do medo e da preocupação com a morte. Falam da angústia de não saberem até quando tudo vai.

Crianças falam do que sentem.

Eu sinto muita saudade de ir para a escola encontrar meus amigos e professores, mas eu também acho bom nós ficarmos em casa para ter menos chances de ter contato com pessoas com COVID-19. Antes, a minha bisavó vinha todo domingo almoçar na minha casa e agora não está podendo vir porque ela é do grupo de risco para essa doença. Estou muito triste por causa disso! Também faz tempo que eu não encontro meus avós pessoalmente. Por isso, eu e minha família estamos fazendo reuniões pela Internet. Não é a mesma coisa de estar junto, mas pelo menos a gente se vê. Nós aumentamos nossa higiene: lavamos as mãos muitas vezes por dia com água e sabão. Outras vezes, passamos álcool gel e sempre colocamos o antebraço na frente para tossir ou espirrar. É muito estranho não poder sair de casa! Tomara que isso passe logo! Tomara que acabe antes do meu aniversário chegar!
Beatriz Penteriche Paz, 8 anos

Bia na rede de casa enquanto lê um livro, na quarentena

Bia na rede de casa enquanto lê um livro, na quarentena

“É confuso estar em quarentena, aqui tudo está MUITO diferente. Meus pais trabalham no quarto, temos de ficar aqui na sala por isso. As regras mudaram muito! Tento passar o tempo desenhando, lendo, brincando com meus bichinhos, mas às vezes fica muito entediante porque eu não estou acostumada com isso. É muito estranho a escola ser online. Não é a mesma coisa de todos os dias ficar ao lado dos meus amigos, abraçar quem eu amo. Tenho que ficar dentro da minha casa e eu queria muito poder abraçar bem forte meus avós e sentir o aperto deles em mim. Sinto muita saudade de todos! Meus amigos, meus avos, meus primos, todos. Conversar por vídeo não é a mesma coisa, mas tem gente que acha, acha que ver uma pessoa por vídeo, alguém que você pode ver pessoalmente, mas agora não pode, é 100% normal. Ver o rosto de uma pessoa que ama, mesmo que seja em um quadradinho pequeno ajuda a matar a saudade, mas não é como poder abraçar, beijar e compartilhar todo o amor, como eu fazia. Mas além de tudo isso, eu pude ver melhor o por do sol, eu nunca havia reparado tanto nele aqui de casa. Também estou brincando muito mais com meu irmão e o mais importante, estou muito mais com minha família, o que fortalece muito o nosso laço de amor. Estou torcendo MUITO para isso acabar porque eu tenho medo de muitas pessoas morrerem, mas sem dúvida vou sentir muita falta de ver o por do sol todos os dias, brincar com meu irmão e ficar com a minha família tanto tempo!”
Maria Luiza de Carvalho Antunes, 9 anos

Malu na sala de casa brincando com o irmão mais novo, durante a quarentena

Malu na sala de casa brincando com o irmão mais novo, durante a quarentena

“Está tudo muito diferente. A rotina de casa, da minha vida, a vibe das coisas e as pessoas. Eu tenho medo porque não sei até onde isso pode chegar e ainda não existe uma cura para a doença. A fala do Presidente de que “é só uma gripezinha” deveria mudar. Existem pessoas morrendo na rua, sem teto, que não tem nem como se proteger. Fico pensando que se eu fosse o Presidente, destinaria parte do dinheiro arrecadado com impostos em busca de cuidado para as pessoas que têm menos condições, no Brasil”
Felipe Secches Brandão, 12 anos

Felipe enquanto faz pão em casa, durante a quarentena

Felipe enquanto faz pão em casa, durante a quarentena

“Minhas avós moram na Bahia, então elas só ficam comigo quando veem aqui ou quando eu vou lá, que geralmente é nas férias, no carnaval e nos aniversários (da família). Há pouco tempo uma das minhas avós veio. Depois que ela foi embora as escolas começaram a fechar e as pessoas ficaram em isolamento por tempo indeterminado, principalmente os idosos. Então provavelmente não vamos ver nossos parentes mais velhos pessoalmente por um tempo. Também não podemos ver os nossos amigos pessoalmente mais podemos vê-los pelo computador ou falar com eles pelo telefone. Eu estou sentindo muita falta da escola, das minhas avós e dos meus amigos. Acho que a maioria das pessoas também! Esse não é um momento fácil e nem muito legal, estamos sem avós, sem escola sem amigo… mas acho que isso pode ser divertido! E depois: vão inventar a cura e vamos voltar a ir à escola e ver os nossos parentes (que não moram em casa). E ver nossos amigos!”
Alice Aragon Coelho, 9 anos

Alice tomando sol na varanda de casa, durante quarentena

Alice tomando sol na varanda de casa, durante quarentena

“Com o Covid-19, minha vida mudou. Não vou mais a escola e nem visitar meus avós. O máximo que faço é andar de bicicleta na rua vazia (só que estou começando a parar). Os meus costumes mudaram e as regras de casa também. O único jeito de eu me comunicar é pela internet. Às vezes, meus avós vêm na porta da minha casa para entregar comida (ou coisa do tipo). Nós ficamos longe deles. Quando meu pai vai ao mercado, nós passamos álcool gel nas compras para se prevenir. Eu estou bem preocupada com a doença, porque ainda não inventaram a vacina para não pegar a doença. Também não inventaram o remédio e isso me deixa mais preocupada porque se alguém pegar tem grande risco de morte. Espero que descubram a vacina e o remédio logo. Quero que a quarentena acabe logo e eu possa voltar para a escola e fazer tudo o que fazia antes e até mais.”
Luana Campello Junqueira, 9 anos

Luana enquanto faz atividade da escola em casa, durante quarentena

Luana enquanto faz atividade da escola em casa, durante quarentena

“A quarentena tem um lado bom e um ruim. O ruim é que ela me tirou de perto das minhas amigas eu sinto falta delas. Falta de sair na rua e até de ir para a escola. Aqui em casa, meus pais trabalham o dia todo, então acabo passando a maior parte do meu tempo no celular, mas além disso às vezes gosto de desenhar. Um lado bom é que aproximou nossa família porque meus pais não só trabalham, mas ficam comigo e com meu irmão. No café da manhã temos bastante tempo para conversar. E agora que temos que ficar em casa, tenho muito tempo para fazer tudo o que eu queria como: limpar meu quarto, doar algumas coisas etc. Aqui estamos preocupados, mas seguindo com a vida. Dividimos tarefas como: lavar a louça, tirar o lixo, passar a vassoura e todos são responsáveis por seus quartos. Fazemos isso porque precisamos deixar a casa limpa e funcionou. Estão todos fazendo as tarefas direitinho e colaborando. Fico preocupada com o coronavírus porque está matando muitas pessoas e tenho medo que meus parentes que estão em grupo de risco fiquem doentes. Tenho medo de ficar doente, mas não de morrer, nem de nada desse tipo. O que eu tenho medo é passar para outras pessoas e as que estão no grupo de risco. Quero que isso acabe logo para eu poder sair de casa”.
Ana Beatriz Granziera de Abreu, 9 anos

Bia ajudando com a casa, durante a quarentena

Bia ajudando com a casa, durante a quarentena