Muito tempo afastado dos amigos, do ambiente escolar e a convivência intensa dentro de casa, provocaram o que se chama de fobia social em muitas crianças e adolescentes

O povo brasileiro é mundialmente conhecido pela hospitalidade, pelo sorriso fácil, espontaneidade e calor humano. Quase como um clichêzão, passamos a imagem de “gente fina”. Damos beijos ao cumprimentar, abraçamos ao mínimo sinal de emoção aparente e por aí vai. Este era nosso estereótipo até ontem, quando começou a pandemia.

Abraços estão suspensos até segunda ordem, manter distância de 2mts é aconselhável pela OMS e ter o prazer de observar sorrisos – ou caretas – só mesmo se a outra pessoa estiver usando máscara transparente. Expressões labiais estão banidas. Quando a gente encontra alguém da bolha, antes mesmo de falar “oi”, já avisa: “abraçar não, hein!”. E o mesmo repetimos às crianças e aos adolescentes. “Não dá abraço!”.

Se relacionar com aquela proximidade corporal que estamos – ou estávamos – tão acostumados foi excluída pelos protocolos de segurança. Mais que uma mudança de hábito ou costume, provavelmente teremos uma mudança cultural. O que era algo singular e único do povo brasileiro vai precisar passar por revisão. Talvez os estereótipos mudem, talvez os clichês mudem. Provavelmente não continuaremos a beijar e abraçar na intensidade que fazíamos.

E uma parcela de crianças e adolescentes já dá sinais deste novo cenário. Infelizmente, não de maneira saudável. Muito tempo em isolamento social, longe dos amigos e dos ambientes onde se encontravam e se relacionavam, como escola, praças e clubes, e a maçante informação sobre contágio e morte diárias, tem provocado um medo intenso neles de reencontrar pessoas e rever os ambientes.

“Vicenzo tem 4 anos e é um carinha despojado, tocador de guitarras e que falava com todos por onde passava. O processo de ressocialização por aqui vai a passos estreitos afinal somente os bisavós estão vacinados. Ele não cumprimenta as pessoas e não gosta que o abracem. Foi ensinado do perigo que seria. Aos poucos, vamos incentivar um maior contato, mas temos em nosso íntimo que algumas mudanças ele carregará pra vida”, relata Polly Fernandes.

Nos Estados Unidos já existe um termo sendo usado para este comportamento: Generation Agoraphobia. A expressão dá nome a um transtorno de ansiedade caracterizado pelo medo de estar em um ambiente ou atividade fora de casa do qual sair ou escapar é percebido como difícil.

Pessoas com Agorafobia também podem sentir sintomas de pânico , existe um medo extremo e severo de deixar a segurança de casa, o que temos visto muito frequentemente em crianças e adolescente que resistem retornar ao presencial da escola, brincar no parquinho ou simplesmente sair de casa pra tomar um ar.

É o que relata Gabriela Gonçalvez, mãe de uma menina de 11 anos e profissional da área de saúde. “Ela desenvolveu tique motores, síndrome do pânico e crises de ansiedade. Hoje faz tratamento com psicóloga, psiquiatra, toma medicação (não pense que não tentei de tudo neste mundo, choro quase sempre por dar medicação a ela). Voltar presencial só conseguimos por uma semana, depois fechou tudo, voltamos ao zero. Moro em um condomínio, consigo às vezes que vá brincar na rua com as outras crianças, mas tem sido muito difícil”.

Gabriela não está sozinha. Vivian Dias, mãe de uma menina de 6 anos, diz que no final do ano passado ela começou a demonstrar medo de pessoas estranhas à família. “Tinha leves crises de pânico em locais públicos, mãos frias e suando, coração acelerado, e dizia que as pessoas estavam olhando com cara feia pra ela e poderiam raptá-la. Começamos a sair mais para andar na rua e os sintomas melhoraram, mas ela ainda demonstra medo de pessoas principalmente adultas”, conta.

Muitos desenvolveram medo de outra pessoa. Sim, existe um medo de se aproximar das pessoas, sejam colegas ou amigos, um pavor do convívio. Desaprendeu-se a conviver. O modo como era conhecido e sabido até ontem, não tem mais validade. E agora, como fazer para chegar perto do amigo? Pra conversar, chamar pra uma brincadeira e os maiores, como namorar ou ficar?

“Por meses enviamos a mensagem a essas crianças de que o lugar mais seguro era dentro de casa”, alerta a psicóloga americana Nina Kaiser, especialista em transtornos de ansiedade, em entrevista recente ao New York Times. “Portanto, não é nem um pouco chocante vermos uma resistência significativa das crianças quanto a deixar a zona protegida”.

Na mesma matéria, Golda S. Ginsburg, professora de psiquiatria da Universidade de Connecticut diz que “para crianças mais novas, é difícil fazer uma análise de risco”. “Elas simplesmente não são cognitivamente maduras o suficiente. E as crianças que lutam contra a ansiedade podem superestimar o risco e subestimar suas próprias habilidades de enfrentamento. Eles estão apavorados por não haver nada que possam fazer para se proteger ou reduzir a ansiedade, então ficam em casa”.

E pais somam aqui mais uma preocupação à vida. Para além das cotidianas, da educação remota e do excesso de tela que se instalou, temos agora a fobia do presente e das pessoas, conhecidas ou não, que simbolizam esse lugar de convívio e relação.

Amanda Iyomasa conta que o filho de 3 anos adorava brincar com crianças maiores no parquinho do prédio e que agora ele foge e se esconde atrás dela. “Quando a criança é menor, fica com ciúmes. Se é maior, tem medo. É difícil fazê-lo descer para brincar, difícil tirá-lo de casa. Quando consigo, gosta e brinca bastante. Mas ficou tudo mais trabalhoso”, conta.

O mesmo relata Anna Carolina Jorge que diz que o filho de 4 anos teve muito dificuldade em se relacionar com os colegas da escola. “Primeiro ele nem queria voltar e depois foi um impasse”. A filha de 4 anos da Fabiana Ferreira Goulart ficou ainda mais tímida. “Quando voltamos a ver meus irmãos foi um desafio. Tinha muito medo e só quando retornou ao presencial da escola é que começou a melhorar”, conta Fabiana.

E até a própria máscara pode ser um lembrete social de perigo à espreita. Segundo Cristiane Pontes, mãe de Rafael, 13 anos, o menino vive em alerta com o uso e não apenas dele, mas o da família. As poucas vezes em que saem de casa, ele não tira nem se estiver com sede e precisar beber água. “Já tivemos que entrar dentro do carro para que tomasse um gole”, conta a mãe. “Ele entra em pânico com a possibilidade de abaixar a proteção para qualquer coisa ainda que seja por segundos”.

Este é um cenário bem específico e a fobia do qual falamos aqui não pode ser generalizada a toda e qualquer criança ou adolescente que não quer sair de casa. Muitos acabaram se acomodando a situação e claro que é mais fácil se comunicar como mundo através de mensagens e chats. O esforço físico e sócio-emocional é muito menor.

Precisa ter atenção, olhar cuidadoso pra tentar perceber as nuances por trás do comportamento. É preguiça? É medo? Medo intenso. Importante entender o padrão e daí a causa. Às vezes – muitas aliás – o melhor é procurar ajuda. Uma conversa com a orientadora da escola ou a própria professora de classe pode ser um bom começo.

Além do respeito ao sentimento do outro. Se conseguirmos entender, de verdade, o que o outro sente, a chance de sucesso a um convite para dar uma volta no parque ou descer um pouquinho no prédio começam a melhorar. Respeitar o outro parece algo simples e inato – deveria ser – mas o exercício diário do conceito da palavra exige mais do que nossas capacidades cotidianas. O mundo está precisando desta gentileza e, tenho certeza, que às crianças e adolescentes também é muito bem-vinda.