7 milhões de mulheres foram obrigadas a abandonar a vida profissional para atender as demandas domésticas e as necessidades dos filhos exigidos pela pandemia. Além do retrocesso, a saúde mental dessas mães foi altamente comprometida gerando estresse e depressão

A semana do Dia das Mães está cheia de histórias bonitas e potentes. São mulheres que batalham, diariamente, para que ninguém ao redor delas desista. Para que filhos cresçam e tenham oportunidades que, muitas vezes, elas mesmas não tiveram. Mas estas mesmas mães, fortes e cheias de potência, estão dando alertas de que não aguentam mais tanta carga, pressão e demanda emocional. Elas têm dado sinais do alto nível de estresse a que estão submetidas e muitas já apresentam depressão. Estas mulheres, que também são mães, precisam de apoio.

“Isso que chamam de amor é trabalho não pago”. A frase é da filósofa contemporânea, Silvia Federici, italiana, professora e ativista feminista, hoje radicada nos Estados Unidos e que teve a frase, recentemente, circulando em contas do Instagram. Entre alguns pontos que Federici discute está este amor que é igualmente atribuído ao nível de dedicação à casa e aos filhos. Culturalmente, espera-se essa convergência de ações. Quanto maior a cuidado, maior o amor. Será?

A balança nunca foi equilibrada e ainda que tenhamos avanços sociais e culturais consideráveis, fica com a mulher uma das cargas mais pesadas ao criar e educar filhos: a demanda emocional. Mães se preocupam não apenas com o que os filhos vão comer, mas como estão se sentindo. São elas, em sua maioria, que se sentam ao pé da cama pra saber se está tudo bem. São elas que se angustiam pelo sofrimento dos filhos e que, muitas vezes, choram junto. Choram até mais. Existe uma carga emocional acentuada nas mulheres e com a pandemia, muitas têm sofrido de estresse severo e vivido a experiência da depressão. Está difícil ser mãe na pandemia.

A jornada tripla das mulheres é uma das causas documento de estresse e da depressão

A jornada tripla das mulheres é uma das causa do estresse e da depressão

“17 março de 2020 a escola da minha filha avisa que vai ter que parar as atividades. Meu presidente me liga dizendo para pegar minhas coisas no escritório e trabalhar de casa. Ainda não estava acreditando que ia durar muito, então peguei coisas suficientes para 15 dias de trabalho e dai começou”, relembra Bruna Barcelos, mãe de duas crianças.

“O dia todo dentro de um apartamento, lutando para fazer meu trabalho, cuidar da minha casa, fazer almoço, e não deixar minha filha na tela. Bastou uma semana e surtei! Surtei porque minha área (eventos) parou, e por coincidência meu marido está no mesmo segmento. Porque eu perdi o controle das coisas, surtei por não saber até que dia tudo isso ia durar. Chorei muito por vários dias, até que não aguentei mais e pedi ajuda para minha irmã, marido e mãe. Passei longos 3 meses de altos e baixos pensando em mil coisas e ainda me julgando por ser uma péssima mãe e não conseguir nem brincar com a minha filha”.

“Escutei pessoas dizendo pra ter fé e acreditar que ia passar, mas no fundo perdi a fé, perdi a conexão comigo mesma e a bagunça da minha vida me fez ficar reclusa. Só com o tempo é que comecei a pensar ‘um dia de cada vez’ e assim fui. Acalmei meu coração, paguei as contas que dava, deixei minha filha me cobrar atenção e deixei muitas vezes ela assistir tv e ficar no celular por horas porque era aquilo que tinha para o dia…. voltei a ter fé e comecei a cuidar de mim. Isso me fortaleceu”, conta Bruna.

Durante o processo de depressão, Bruna entendeu que não daria conta de tudo e isso a libertou da pressão e da culpa que sentia - aqui, junto da filha Pietra

Durante o processo de depressão, Bruna entendeu que não daria conta de tudo e isso a libertou da pressão e da culpa que sentia – aqui, junto da filha Pietra

A história da Bruna é um retrato do cenário da mulher brasileira que é mãe e passa pela pandemia com casa, filhos e contas a pagar. Um pacote pesado e árduo de se carregar no dia a dia. O resultado de tanto esforço, tanta demanda, só poderia cair no abismo das doenças mentais. Não tem como estar saudável com tantos itens a cumprir – e bem.

A constatação destes fatores já não é apenas percepção. Com o objetivo de medir indicadores de saúde mental e também avaliar a adaptação de mães e crianças de 1 a 6 anos durante o período do isolamento social, um estudo foi realizado por pesquisadores da faculdade de Medicina de Ribeirão Preto. Chamado de O impacto da pandemia do coronavirus e do isolamento social: Examinando indicadores de comportamento da criança e da parentalidade, observadores puderam analisar as dinâmicas familiares e perceberam um aumento de sintomas depressivos nas mães, além de mudança de comportamento nas crianças.

Segundo os dados, 63% das mães tiveram sintomas depressivos durante a pandemia, 78% delas relataram sentimentos de desconforto com o coronavírus e 34% tiveram sentimentos negativos (medo, angústia, ansiedade e insegurança) durante o período. Em uma análise segmentada, detectou-se que 89% das mães que já apresentavam indícios depressivos antes da pandemia continuaram com os sintomas e 47% das mães que não tinham sinais passaram a apresentá-los.

Emília Simão é uma delas. Advogada e prestadora de consultoria em compliance, relata que passou por um longo e silencioso período de estresse com a pandemia. “Acho que para a maioria das mulheres ela foi perversa. Impossível trabalhar, cuidar de filhos e da casa sem qualquer rede de apoio”, conta. “Eu larguei tudo para ficar com as crianças e estamos indo para o segundo ano assim. Quanto mais o tempo passa, mais difícil fica”.

As demandas do trabalho da Emília praticamente desapareceram com a pandemia e os pedidos de ajuda dos filhos de 5 e 7 anos com as aulas online cresceram. A dobradinha foi determinante para voltar-se às “obrigações” da casa. E, de novo, a história de Emília não é única. A crise econômica, sanitária e a supressão da rede de apoio empurraram muitas mulheres de volta para casa. “Tenho várias amigas na mesma situação”, desabafa.

E não é apenas do trabalho que muitas tiveram que desistir, a educação é outro campo de abandono. Meninas jovens e adolescentes, majoritariamente negras e periféricas, precisaram deixar as escolas para ajudar em casa. O trabalho doméstico ainda é um dos principais obstáculos para a mulher. E passados 365 dias, a pandemia contabilizou 7 milhões de mulheres fora do mercado de trabalho, segundo dados Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua). São 7 milhões de mulheres que voltaram ao trabalho doméstico – ao qual não existe remuneração. Um retrocesso brutal de décadas de avanço.

Um outro estudo, Vivências Das Mães Com Seus Filhos Pré-Escolares Durante A Pandemia De Covid-19: Contribuições Da Intervenção Precoce Para A Promoção Do Desenvolvimento Infantil, realizado com o apoio da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, aponta que 41% das mães tiveram dificuldade em lidar com os filhos durante a pandemia, sendo que as mães com sintomas depressivos e as que recebiam Bolsa-Família relataram mais dificuldade que as demais.

Impedimentos atribuídos principalmente aos comportamentos externos (29%) e internos (26%) das crianças, à ociosidade (22%) e à desadaptação com as mudanças na rotina (20%). Só uma pequena parcela das mães leu (27%) ou praticou exercícios físicos junto com os filhos (22%).

“Observamos que a prevalência de mães com dificuldade em lidar com seus filhos durante a pandemia foi alta e mais frequente naquelas com sintomas depressivos e mais pobres. Também notamos que as atividades lúdicas que poderiam melhorar o comportamento das crianças foram menos praticadas do que exposição a programas de TV”, explica Maria Beatriz Linhares, responsável pelo estudo.

“Os achados confirmaram o impacto negativo do isolamento social em indicadores de saúde mental materna e comportamentos das crianças durante o contexto da pandemia mesmo quando não havia problemas pré-existentes de saúde mental materna ou infantil”, analisa.

A jornada triplacasa, filhos e trabalho – massacrou as mulheres na pandemia e não tem previsão para acabar. A balança que já era desequilibrada, pendeu novamente e o resultado são mulheres exaustas, estressadas e deprimidas. Imagine a disposição de uma pessoa neste contexto tendo que cuidar de crianças, em grande maioria, sem as condições favoráveis. E mesmo as que têm, se veem pressionadas a dar conta porque “não há nada que as falte”.

Falta muita coisa. Falta apoio, falta uma rede de ajuda, falta troca. Equilíbrio e dupla responsabilidade entre os genitores. Falta comprometimento social. Falta a “tal” da equidade. A balança nunca esteve tão desequilibrada.