Com a permanência das aulas remotas, famílias percebem queda no aprendizado e se preocupam com o baixo rendimento dos filhos

Um mês de escolas abertas e configurou-se o ensino híbrido como alternativa possível a esta fase da pandemia. Mas, depois de mais de um ano de aulas online e o fechamento do trimestre com a entrega de boletins, famílias sentem queda no aprendizado e se preocupam com o baixo rendimento escolar dos filhos. E o que fazer neste cenário que deve perdurar?

Este é um modelo que deve se manter por muito mais tempo que o esperado e, mesmo quando as escolas estiverem funcionando em sua normalidade, aulas remotas passarão a fazer parte do cotidiano de crianças e adolescentes. Uma mudança que deve se concretizar dentro da educação mundial. Mas como engajar alunos neste contexto? O que deve ser conteúdo do ambiente remoto e o que fica para o presencial? E eles aprendem?

As instituições escolares ainda não tiveram tempo de repensar o projeto pedagógico para os dois ambientes, mas a necessidade faz-se urgente frente aos resultados não só dos boletins dos alunos, como de números e dados de pesquisas mais recentes. Segundo estudo feito pela Associação Brasileira de Educação a Distância (ABED), 67% dos alunos dizem não conseguir se organizar com as atividades remotas. 72,6% dos 5.580 mil estudantes entrevistados, disseram que o ensino está pior se comparado ao modelo presencial. O dado vai de encontro aos 51,5% dos pais que sentem o mesmo.

Famílias relatam que os filhos perderam o entusiasmo, estão exaustos da tela e não querem mais fazer as atividades propostas. O resultado de tantas queixas já aparece nos boletins. “As notas do meu filho foram de 9 para 6”, conta Juliana Alvez, mãe de um menino. “É um tal de copiar e colar do Google”.

“Sou mãe de três e a do meio era super curiosa e atenta. Sempre foi aquela aluna que tirava notas boas sem muito esforço. Agora está irreconhecível. Acha tudo um saco, não presta atenção em quase nada e algumas notas despencaram de 10 para 2. Foi a primeira vez que fomos chamados na escola”, relata Cristina Albuquerque.

Camila Souza diz que em casa um dos filhos caiu um pouquinho. “Ele tirava 9 e 10 e passou a tirar alguns 7, mas entendi que ficou desmotivado com um ritmo aquém do habitual”. Já na casa da Janine Soares não foi o rendimento que caiu, mas o interesse e concentração.

Crianças e adolescentes estão exaustos de tanta tela e aulas remotas

Crianças e adolescentes estão exaustos de tanta tela e aulas remotas

Os relatos contam sobre notas mais baixas, mas o que mais eles podem nos dizer? Boletim é uma maneira concreta, e mais palpável, que as escolas têm de apresentar aos pais o desempenho escolar do aluno. Mas o que compõe esta nota? O que ela representa? Notas mais baixas, como as que muitas famílias receberam no encerramento de trimestre, mostram não só uma ausência da relação do aluno com os conteúdos, como expõe as fragilidades das escolas ao lidar com as novas ferramentas digitais durante a pandemia.

A nota de um aluno, aparentemente, é apenas dele. A nota de um conjunto de alunos é, também, o espelho da atuação da escola. Quando se avalia um grupo de estudantes, se avalia, também a instituição em que estão. Haja visto a importância de termos no país o IDEB, Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, com a Prova Brasil e a Provinha, por exemplo. São políticas públicas que foram implementadas para medir e gerar dados sobre a qualidade do aprendizado nacional e, a partir dai, poder estabelecer metas para a melhoria do ensino.

O diagnóstico que acontece em larga escala no país, acontece em pequena e micro quando se observa a performance dos alunos de uma mesma escola. Ao aplicar provas e estabelecer métodos de avaliação, a escola também gera dados para se auto avaliar e auto medir.

É uma matemática simples. O aluno que está estimulado e engajado, responde bem aos conteúdos que lhe são apresentados. Isso vale tanto para o ambiente escolar físico quanto o remoto. Não é exclusivo de um, nem de outro. A diferença é que, desde 1827 existem professores em salas de aula brasileiras e faz apenas um ano que passou a existir professor atrás de um quadradinho de tela tentando interagir com outros vários.

A pandemia impôs novos cenários à educação e isso não é exclusivo do Brasil. É mundial. O que temos aqui é um país extremamente desigual tento que dar conta de tudo e todos ao mesmo tempo. Há famílias mais compreensivas ao contexto e que, apesar das queixas e das percepções, continuam de braços dados com a escola. Ninguém solta a mão de ninguém, lembram? Com 420 mil mortes por COVID-19 é preciso de mais cautela para avaliar o momento e, principalmente, o que se entende por aprendizado e desempenho escolar.

Rosana Lima brinca com a situação e diz que se para algumas famílias caiu para ela “despencou e se esborrachou”. Outra mãe, Isabela Garcia, também brinca dizendo que na casa dela o que mais caiu foi o sinal da internet. “É um tal de sair da aula porque o sinal caiu que eu nunca vi igual. Eu só fico pensando o quanto eles colam”.

Realmente os alunos têm desenvolvido estratégias inimagináveis para garantir notas boas nas provas. Mas ainda assim, não é garantia de aprendizado ou reflexo de um bom desempenho. Alunos, crianças e adolescentes, estão exaustos de tanta tela. Algum dia você já imaginou que isto aconteceria com a Geração Y?

“Aqui em casa eu até desisti. Preciso trabalhar, fico numa sala, ele no quarto e seja o que Deus quiser”, conta Verônica Jorge. “O que menos deu certo foi ele estudar neste período. Vai ficar de recuperação e eu só espero que não perca o ano. Ele sempre tirou as melhores notas, mas agora mudou”.

Claudia Todeshinni optou por diminuir a pressão no filho e na escola. “Sei que é difícil para ele e para a escola, então vamos na parceria tentando superar as adversidades dessa revolução mundial”, conta. “É certo que algumas perdas são observadas, mas estamos todos com saúde aqui e torcendo para que o máximo possível se salve”. É isso vamos torcer para que o máximo possível se salve.

Importante ter a compreensão dessas notas como reflexo de um contexto pandêmico de educação e não como uma possível barreira futura. Neste momento, notas de boletim dizem muito mais sobre crianças e adolescentes cansados e desestimulados, do que crianças e adolescentes que não sabem. Eles deixaram de aprender algumas coisas, mas por um período. Longo? Pode ser que sim, mas totalmente reparável. É preciso querer. É preciso estruturar um plano de país para reverter – com urgência – todos esses déficits na educação.

E é compreensível que num país como Brasil, com tamanha desigualdade social, famílias se preocupem com o baixo rendimento escolar dos filhos. Nota boa ainda é sinônimo de um futuro mais prospero no país do abismo social. E enquanto o cenário for este, nota boa vai continuar valendo. Não como garantia, mas como chance. E quem é que não quer uma chance?