Em tempos de pandemia e escola na frente das telas, existe um repensar sobre o valor da educação. Entenda e saiba por que a escola existe

A gente cresce escutando que precisamos estudar para entrar numa faculdade, poder trabalhar e ser alguém na vida. Não é isso? É, mas não é. Porque não deveria ser. Crescemos pensando no pra quê e por quê existe escola. Os alunos que um dia já fomos e os de hoje, continuam a se perguntar pra quê “serve” estar ali. Tem que existir um “servir”? E servir a quem? Por que se vai a escola?

A pergunta volta neste momento de pandemia, quarentena, em que a escola adentrou a casa de crianças e adolescentes. Repensar sobre os princípios da educação e os formatos que a rodeia passa por refletir o porquê da existência da escola. E escola não deveria existir para ser finalidade. Escola deveria existir para ser sentido. Porque só vai ser aprendizado se fizer sentido. E para ter sentido tem que ser maior do que uma faculdade ou um trabalho. Porque a vida é maior que isso. Muito maior.

Ano passado, circulou um texto pelas mídias sociais do paleoantropólogo Juan Luis Arsuaga, em que ele diz uma frase estrondosa: “A vida não pode ser trabalhar a semana inteira e ir ao supermercado no sábado”. E a gente concorda. Não pode. Porque a vida não se resume a isso. A frase faz parte de uma entrevista em que ele deu sobre o lançamento de seu novo livro, onde tenta desvendar o sentido da vida.

Sentido esse que nos permeia em todos os fazeres. Seja ele aos 2 anos ou aos 80, 90. Não importa a idade. A vida passa a ter sentido de existir do momento em que a gente nasce. Vida não existe apenas quando a gente a projeta para o futuro. Assim como a criança. Criança não passa a ser sujeito, a ser alguém, só quando chegar no futuro. Na vida adulta. Criança é ser atuante no mundo desde o dia em que ela nasce. E é essa criança que a escola deve considerar para ganhar sentido.

E sentido a gente constrói respondendo os porquês. Dando suportes às crianças como pensavam a pedagoga argentina Emília Ferrero e o psicólogo suíço Piaget. A criança que age para conhecer. Que não espera para ir à escola e buscar conhecimento. Da criança que cria hipóteses antes de a dizerem como se faz.

Escola ganha sentido quando considera todas essas hipóteses e dá espaço pra que elas possam reverberar. Pra que possam ser ouvidas, consideradas e investigadas. É simplicista, em 2020, a escola – e o campo da educação – dizer que estudar serve apenas para crescer e ser alguém na vida. Já se é. E aí que está a grande reviravolta da educação.

Escolas não são comerciais de margarina com final feliz. Escola não é finalidade. Escola é sentido. Ela existe porque responde a questões das crianças naquele momento em que estão. Sim, trazendo conhecimentos e saberes que a humanidade já adquiriu, mas, também, considerando o hoje. Insere a criança no mundo. Mundo para além da família e dos arredores da casa.

Escolas são mais do que o passado dos livros de História e mais do que a lonjura representada na palavra futuro. Como a vida que é mais do que o pagar de contas e ir ao supermercado. “Deve haver algo mais…E essa outra coisa se chama cultura. É a música, a poesia, a natureza, a beleza…”, diz o paleantropólogo.

Deve haver algo mais na escola, também. E certamente ele existe. Precisa ter coragem de mudar, de provocar a mudança e sustentá-la frente a um sistema tão arcaico quanto o da educação. As escolas perdem a oportunidade de dialogar com os alunos, porque não dialogam com o mundo. Estamos em pandemia, em isolamento social, crianças dentro de casa na frente das telas. Tá na hora de repensar. Tá na hora de refazer os contratos entre famílias, alunos e escola.

Trazer uma lousa digital para a sala de aula não é trazer o mundo para a sala de aula. Mas trazer os assuntos que acontecem entre eles, escutá-los, considerá-los e partir deles para construir conhecimento sim. Dar voz e dar vez. Dai é trazer o mundo pra dentro da escola. E a gente carece de mundo. Carece desse olhar sensível ao outro. Seja no processo da educação dentro das escolas, seja fora delas.

Porque só vai fazer sentido quando for mais humano. Quando para além das normas, listas de chamadas e páginas de livros didáticos, a gente considerar o outro. Quando o que for uma questão às crianças, ou aos adolescentes, puder entrar num planejamento de pesquisa e estudo. Quando a criança que queremos formar para o mundo for mundo hoje. No presente. Porque a gente só constrói futuro com o hoje.

A razão de ir à escola tem que ser a de hoje. Do presente. A criança e o adolescente só vão encontrar respostas de o porquê ir à escola se, lá dentro, eles conseguirem dar conta dessa criança e desse adolescente. De hoje. Do mundo contemporâneo em que vivemos e das questões que ele traz como urgência. Como pauta de investigação, pesquisa e conhecimento.

Tem que ter sentido pra existir. Na vida, na escola, no trabalho. Onde for. Só é significativo se vier de dentro. Do peito. Do que a gente carrega dentro da gente e não do que dão pra gente carregar. Feito quem é capaz de ser curioso com o sentir. Da vida. Na vida e na escola. Porque é preciso se refazer os contratos, com trato.