Casos de saúde mental são tão alarmantes que o Departamento de Psiquiatria da USP já monitora mais de 8mil jovens com problemas de depressão, estresse e até anorexia

Não fosse o contexto escolar, crianças e adolescentes não estariam nas pautas cotidianas quando o assunto é a pandemia. Ainda que eles possam ser igualmente infectados, a preocupação maior está se a escola volta ou não e como fazer sem ela. Mas, indiretamente, os jovens têm sustentado uma carga emocional excessiva e estão dando sinais de que a corda vai estourar. Casos de depressão aumentaram, queixas de angústia e ansiedade chegam com maior frequência aos consultórios e até os Departamentos de Psiquiatria têm percebido um aumento das síndromes.

Na marca dos 130mil mortos por COVID-19 no Brasil falar da saúde mental de adolescentes parece não ser prioridade. Mas os transtornos que surgem nessa fase da vida são altamente relevantes para a sociedade. Principalmente porque estamos falando de uma parcela de indivíduos saudáveis e numa fase extremamente produtiva e plena de desenvolvimento. Já pensou nisso?

O reflexo da pandemia nos adolescentes já extrapolou as paredes do quarto. Existe um confinamento dentro do confinamento e não é aquele saudável e típico esperado da idade. O isolamento agora está permeado do que os psiquiatras chamam de doenças mentais. Maria Eduarda relata o caso da filha que, com todas as questões da idade, recém-chegada numa escola nova, acabou por desenvolver anorexia. “Ela nunca apresentou nenhuma questão com a comida e nem com comportamentos ligados ao corpo e a relação de ambos. Fomos todos pegos de surpresa, se é que posso usar essa palavra”.

Sabemos que neste cenário de pandemia não é possível manter hábitos de uma vida, até então, considerada saudável e normal a um adolescente. Aquelas referências todas que eles tinham tiveram acesso bloqueado e sobrou, objetivamente, a convivência excessiva com a família. Mas adolescentes precisam das referências nos pares. Precisam localizar os tais ídolos ou adultos espelhos. Precisam desvendar a sexualidade. Se distanciar dos pais para se aproximar de si mesmo. Mas como?

A escola é o ambiente ideal pra que muitas dessas coisas possam acontecer, só que elas estão fechadas. As ruas, bares, casas de amigos, festas, também são as outras tantas opções que eles têm para exercer a livre adolescência. Mas os espaços também estão cercados por faixas amarelas de segurança. A adolescência foi barrada e não é única e exclusivamente por conta das escolas fechadas. Existe um rompimento no desenvolvimento complexo deste organismo.

Depois de seis meses de isolamento social, Camila teve que começar a tomar antidepressivos. “Minha filha não aguentou”, desabafa Carolina inconsolável.“Ela sempre foi super sociável tanto na escola quanto nos círculos de amigos que frequentava. Estava engajada nos coletivos da escola, fazia esportes e de repente a vida brecou violentamente. Como faz com o corpo de uma adolescente que está totalmente em movimento quando ele não pode mais se mover? Ela entrou em depressão”.

A angústia da Carolina não é só dela. Assim como a depressão da Camila e nem a anorexia da filha da Maria Eduarda. Todas elas carregam histórias que são reflexos reais da pandemia. A quantidade de adolescentes deprimidos dentro do quarto ainda não é quantificada pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, mas já é objeto de estudo.

Conversamos com o Dr Guilherme Polanczyk, professor de Psiquiatria da Infância e Adolescência do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, que está frente ao Estudo Jovens na Pandemia, um estudo feito através da internet que está monitorando a saúde mental de crianças e adolescentes em todo o país e que já conta com mais de 8400 participantes.

Dr Guilherme Polanczyk que está liderando o Estudo Jovens Pandemia

Dr Guilherme Polanczyk que está liderando o Estudo Jovens Pandemia

A adolescência é marcada pela busca da própria identidade e pra que isso aconteça de forma saudável é preciso se distanciar dos pais. Como fazer dentro de casa?
Com a pandemia, muitos adolescentes se viram em uma situação que era o maior dos seus pesadelos: não poder estar com seus amigos e permanecer em casa trancafiados com os pais. O processo de buscar distância emocional dos pais e estabelecer a sua própria identidade continua neste momento, o que ocorre é que a tensão aumenta em função da convivência constante. Em espaços pequenos, conflitos sobre o volume da música, o uso da televisão, do videogame, da mesa para estudar, sem a possibilidade de encontrar outras pessoas, com pais ansiosos, muitas vezes usando álcool, tem gerado brigas intensas e muitas situações de violência nas famílias. É um caldo de cultura para conflitos familiares e problemas emocionais. A questão principal não é apenas a convivência constante nesse momento, mas é também como a relação do adolescente e dos familiares vinha se construindo, como o processo de busca da própria identidade vinha ocorrendo. É importante dizer que adolescência não significa negar e desvalorizar os pais, ser desrespeitoso ou não tolerar fazer atividades em família. Em situações em que a relação já era conflituosa, a convivência deve potencializar esses conflitos. Se os processos da adolescência vinham ocorrendo de forma saudável, com pais dando espaço ao filho, valorizando o adolescente, e este por sua vez conseguindo ver o valor da família, apesar de não concordar ou não ser igual a eles, com todos os conflitos emocionais inerentes, não deve haver mudanças radicais. Haverá mais conflitos, mas a família terá as condições para resolvê-los.

Entendo que nas famílias que havia conflitos eles se intensificaram. Há saída se não há refúgio fora de casa?
Este é um momento que exige maior compreensão e paciência de todos. Pais e filhos estão ansiosos, estressados, cansados. É importante que as emoções sejam reconhecidas e nomeadas, que os pais contem sobre a suas próprias emoções e que seja possível falar sobre elas em família, assim como a família conversa sobre a rotina de cada um e planeja a próxima viagem. As crianças precisam ser educadas a respeito das emoções, da natureza delas, do que fazer com que surgem. O espaço de uma precisa ser garantido, e não falo apenas do espaço físico, mas do direito que cada um tem de sentir raiva, tristeza, e assim por diante. É claro que isso não significa que tenham direito de agredir os irmãos, de não falar com os pais; isso pode acontecer, mas com o desenvolvimento e o aprendizado se espera que se tornem pessoas com capacidade para reconhecer e lidar com as emoções de formas saudáveis.

Adolescentes lidam com objetivos previsíveis e concretos como o próprio ano escolar e as demandas que o envolvem. Lidar com a imprevisibilidade do tempo é algo bem complexo. Isso pode ter algum reflexo?
Lidar com incerteza e imprevisibilidade é algo complexo para todos, mas um aprendizado valioso para a vida. Se um adolescente sair desse momento com uma noção mais clara do quão incerta é a vida, da importância de aceitar esse fato e incorporá-lo ao seu mundo interno, será uma vitória e justificará as perdas e privações da pandemia. Os pais podem ajudar e muito os filhos nesse processo, claro, se eles próprios não pensam que “para tudo há um jeitinho”. Esse processo na adolescência é mais dolorido porque os adolescentes estão em um momento em que se sentem como “super-heróis”, que podem tudo. Mas obviamente é mais saudável que percebam logo as suas limitações do que cheguem na idade adulta com a fantasia de que controlam o tempo e frágeis para lidar com as frustrações e limitações que a vida impõe.

O corpo também impõe limitações na pandemia. Por ele o adolescente se expressa, se comunica e descobre a sexualidade e seus prazeres. Ainda que tenham acesso a internet, o que fazer com este corpo físico dentro de casa?
O período da pandemia será um hiato na vida de muitos adolescentes. As novas experiências com o corpo em desenvolvimento são integradas às mudanças emocionais e uma nova visão de si mesmo vai sendo construída, uma nova identidade é formada. O confinamento em espaços pequenos e a falta de possibilidade de experimentar a força e as novas habilidades físicas, bem como não vivenciar o impacto social que as mudanças corporais provocam, vai em direção contrária a todo esse processo. Nesse período teriam ocorrido muitas experiências importantes para o desenvolvimento emocional, psicossexual, social deles. Há um possível atraso. No entanto, o que nós vemos é que os adolescentes já tiveram o primeiro beijo no final da infância, o primeiro cigarro ou bebida aos 14 anos e a primeira relação aos 15 anos. Portanto, no andar acelerado com que vinham tendo muitas experiências, esse possível atraso não deve ser negativo. Mais importante do que isso é que essa situação possa ajudá-los a lidar com as frustrações, aprender a esperar, a adiar a gratificação ou a satisfação do desejo. Uma vez a vida de volta aos trilhos, a experimentação física, as relações emocionais se restabelecerão e, com um hiato, imaginamos que o desenvolvimento seguirá o seu curso. Da mesma forma que haverá um hiato no desenvolvimento cognitivo e aprendizado de crianças menores, e que terá de ser recuperado ao longo do tempo.

Já dá para medir os efeitos do isolamento prolongado?
Da mesma forma que estamos aprendendo sobre o vírus e os seus efeitos no corpo também estamos aprendendo sobre os seus efeitos no cérebro e as consequências emocionais por tanto tempo de confinamento. Estudos mostraram que o isolamento social e o sentimento de solidão aumentam a chance de depressão e de ansiedade no momento em que o isolamento está ocorrendo e até 9 anos após. Sobre o tempo de isolamento, os estudos mostram que quanto maior ele é, maior é a chance de problemas emocionais. Os dados vão ao encontro com o que temos observado na clínica: as crianças e adolescentes têm sofrido cada vez mais à medida que a pandemia e o isolamento se estendem.

O New York Times publicou recentemente uma matéria em que sugere encontros de “pods”, pequenas bolhas de amigos pra que se garanta segurança. Isso pode trazer uma melhora na saúde mental dos adolescentes?
Sim, este é um retorno ao convívio social e às trocas afetivas que são muito importantes para todos nós e fundamental para os adolescentes. No contexto do grupo, os adolescentes formam a sua identidade, experimentam, se desenvolvem. Este retorno pode sim aliviar as sensações de solidão, a ansiedade por se sentir excluído ou por ver a vida parada para muitos adolescentes. Outros, ainda carregarão as marcas do que sofreram nos últimos meses.

Que marcas são essas? E como os pais podem ajudar?
Sinais de estresse leve são muito frequentes nesse momento e devem ser abordados pelos próprios pais. De forma geral, eles devem reconhecer os sinais de estresse dos filhos, validar o sofrimento e transmitir acolhimento e segurança. Pensar em estratégias que podem levar a novas experiências, ressignificar os estressores olhando para aspectos positivos envolvidos podem ser estratégias úteis. Importante sempre permitir que os filhos exponham o que estão sentindo e que sejam apoiados. Quando esses sinais persistem ou quando sinais de maior gravidade surgem é sinal de que uma ajuda de profissionais especializados precisa ser buscada. Daí, a partir de uma avaliação especializada, pode-se planejar estratégias mais eficazes para ajudar cada adolescente e sua família.