É na adolescência que a gente mais encontra aquela fúria e coragem de viver, mas o dia a dia marcado por tantas mortes tem minado a vida desses jovens

Como você fica com a informação diária de que mais “tantas” pessoas morreram?

São 460 mil mortes por COVID-19 no Brasil
Essa semana morreu um amigo, minha idade
O pai dela continua entubado
Tá vindo uma terceira onda e vai fechar tudo de novo
Não tem vacina ainda, não dá pra planejar nada
É uma semana por vez
Era COVID? Era

A vida anda permeada por este assunto chamado pandemia. Por este tempo histórico que já deixou tantas marcas em tantas famílias. Ainda que a gente limite a quantidade de informações diárias vindas pelas diferentes mídias, elas chegam até a gente de uma forma ou outra. E como a gente fica com os números de mortes que não param de crescer? Com uma pandemia que já dura mais de um ano e, pelo menos por aqui, não tem perspectiva de dar trégua. Se adultos estão machucados, o que dizer dos adolescentes que não têm os mesmos recursos, mas já têm a consciência?

A vida deles nunca foi tão atravessada pela morte. Adolescentes, aqueles que a gente chama de “futuro”, estão experimentando viver a não perspectiva de futuro. O não vislumbre do amanhã. A interrupção dos planos e dos sonhos. Parece que jogamos um míssil e aniquilamos qualquer possibilidade de amanhã. De repente, aqueles clichês todos que compõe a fotografia dos jovens, se dissiparam. Esse pedacinho de vida que é tão curto, que passa tão rápido, ficou pra outro dia. Que dia? Não sabemos. E vou te dizer uma coisa, está sofrido demais observar tão de perto esse “pedaço” da vida se esvair.

Não sei vocês, não sei como anda a casa de cada um, mas a minha sustenta um silêncio dolorido. Outro dia entrei no quarto do meu filho do meio e ele estava agachado no chão, com a cabeça enterrada no colchão, assistindo aula on-line – supostamente assistindo. A exaustão, o desânimo e a tristeza eram visíveis, e eu nem precisava ver o rosto dele pra ter certeza dos sentimentos todos.

O mais velho, por dias e por vezes, não sai do quarto. Se recusa a interagir com quem ele anda obrigado a conviver 24hs por dia. Me diga, que adolescente quer ficar tanto tempo com os pais? Que adolescente quer dividir a vida tão intimamente com pai e mãe? Eu não queria quando tinha 15, 16 anos. Eu queria sair da escola e ficar na porta batendo papo com meus amigos. Queria poder sair a tarde do inglês e desviar o caminho pra casa de alguma amiga. Queria ficar horas no telefone combinando a balada do final de semana. Eles não têm balada. Não tem mais festa aos 15,16,17 anos. Dá pra imaginar?

O mais novo escreveu na autoavaliação da escola que a sorte dele é ter gatas e cachorras em casa. “Todo mundo deveria ter um animal de estimação nessa pandemia. Eles fazem companhia pra gente”. Ele tem 13 anos e terminou assim: “estamos em uma crise mundial”.

Minha sobrinha, de 14 anos, desistiu de quase tudo. Se recusa ir à escola e perdeu o brilho nos olhos. Sabe o que ela diz à mãe? “Eu não vou, eu não quero morrer”. Ela tem 14 anos. Quando, aos 14 anos, você pensou que era possível morrer? Nunca. Nunca um adolescente teve a possibilidade da morte tão colada à vida.

Eles vivem – ou querem viver – com a sensação constante de estar à beira de um abismo. Manter o coração na boca é quase missão de vida. Inconsequentes, espontâneos, destemidos, estão preparados pra fazer tudo que, supostamente, não pode. Mas se não fizerem exatamente na fase em que a consciência não impera a vida, farão quando? Adultos?

É urgente não cancelarmos todos os planos. É urgente o sonho. É vital.

Todos os dias quando acordo
Não tenho mais
O tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Temos todo o tempo do mundo […]

E o que foi prometido
Ninguém prometeu
Nem foi tempo perdido
Somos tão jovens
Tão jovens! Tão jovens!

Duas filhas de amigas bem próximas desenvolveram distúrbios alimentares, outra doença que a pandemia desengatilhou de maneira brusca. A relação dos adolescentes com o espelho e com o corpo nunca foi fácil. Tá aí uma convivência complicada. Muitos se acham gordos, com os corpos desajeitados ou desproporcionais. Ficam horas tentando resolver a espinha que brotou feito cratera ou o fio de cabelo que saiu do lugar. São capazes de entrar no chuveiro às 6hs da manhã para colocar o cabelo no lugar ou transformar o rosto numa aberração enquanto apertam todas as espinhas achando que estão eliminando o problema.

Se não bastassem as horas trancados no banheiro, de frente ao espelho, eles precisam agora enfrentar o espelho na sala de aula, a tela do computador ou celular. Manter a câmera aberta é o mesmo que manter-se de frente ao espelho por 4/5hs ininterruptas. Ninguém, nem nós adultos, temos estrutura psicológica suficiente pra ficarmos nos olhando sem achar defeitos.

Repare nos movimentos que acontecem nas reuniões em que você participa no ambiente remoto. A primeira coisa que as pessoas fazem ao abrir a câmera é arrumar o cabelo, depois ajeitam a postura na cadeira ou mexem na tela para melhorar o ângulo e por aí vai. Sem falar nos que compraram a tal ring light para valorizar a imagem na tela.

Fico pensando: qual recurso dispõem os adolescentes para lidar com tanta exposição – e visão – da própria imagem? Numa fase em que uma das maiores buscas gira, justamente, em torno do encontro desta imagem e da aceitação da mesma. A adolescência carrega a busca do “quem sou”. Quem sou longe dos meus pais, quem sou no grupo de amigos e quem sou no mundo. Eles lutam bravamente para encontrar estas respostas nos espaços internos, quase sempre usando o mundo externo como recurso.

Buscam na cabeça e no corpo a compreensão das inquietações que carregam. Por isso a necessidade de ganhar um estilo ou pertencer a um grupo que tenha identidade. Por isso a necessidade de mudar o cabelo, colocar um piercing, fazer furos. Eles querem deixar marcas no mundo da própria existência. Mas a existência agora limita-se às paredes de casa. O que antes era sinônimo de amparo e aconchego ganhou aspecto sufocante e angustiante.

E já que não dá para mudar o mundo lá fora, eles passaram a mudar o mundo que são capazes de ver e interagir. O psicólogo Marcelo Viana alerta para a quantidade de pacientes que tem recebido com alterações no corpo e na fisionomia. “Eles precisam mudar algo. É uma forma de romper esse tempo estático”.

Pintar o cabelo e colocar brincos são intervenções comuns. Alguns, em depressão e ansiedade, têm se mutilado. Sim, adolescentes se cortam no limite da existência em um mundo que se mantém de portas fechadas. Eles precisam abrir caminhos, ainda que doa, ainda que não sejam os ideais.

Não existem números até o momento para quantificar todos esses relatos e observações e transformá-los em estatísticas. Mas temos nomes. Nomes de adolescentes que estão sofrendo – sim, sofrendo e isto não é pequeno. Adolescentes não sofrem apenas por cabelo, roupa, balada e futilidades. São capazes, também, de sofrer por coisas que os adultos consideram substancial. E como a gente tem cuidado deles? Temos cuidado? Alguém em casa já deu atenção? Eles precisam de atenção. Não está tudo bem!

Eles precisam de amparo, de colo, de cuidado. De diálogo e de escuta. Privilegiados ou não, todos têm o direito de sentir – e sentem. Ainda carregamos um órgão dentro do peito cheio de sentimentos. Não está tudo bem e não temos perspectivas de estar bem. Está sofrido e é sofrido ver uma geração tão de perto perdendo o brilho, trocando euforia por desânimo, trocando impulso por um quase abate, por depressão. Não se entrega os pontos em plena adolescência.

O que será da utopia sem os jovens? Nada. Uma palavra vazia. Morre a palavra também. Não temos ideia do reflexo de todas essas sequelas daqui 5, 10 anos. Mas já dá pra ter certeza de que eles vão carregar muitas marcas, muitas dores, muitas lacunas naquela linha que a gente chama de biografia.

Nunca a vida de um adolescente foi tão marcada pela morte e, por algum lugar, temos que dar conta de pegá-los pela mão e restabelecer os laços com este tempo que tem sido tão áspero. Ajudá-los a reencontrar as perspectivas, a refazer os planos. Mesmo que os espaços de tempo tenham que ser maiores, mesmo que ainda não dê para estabelecer datas.

A morte não pode viver em primeiro plano. Não nesta fase da vida. Sem alienações, mas sendo capazes de compreender todos os sentimentos e lugares que cada um ocupa dentro desta ruptura no tempo. É urgente não cancelarmos todos os planos. É urgente o sonho. É vital.

Somos tão jovens
Tão jovens! Tão jovens!