Além de amor, mães também sentem ódio, raiva e outras emoções que nem sempre conseguimos associar à figura materna, mas elas são humanas e humanos são controversos

“Eu tenho sentido raiva do meu filho. Às vezes, tenho ódio, quero distância. Estou chegando ao ponto de querer entregar a guarda para o pai que é um sem noção. Mas ele acaba com a minha paciência, não ajuda em nada, fica só no game e celular e está negligenciando os estudos. Eu falo, converso, brigo, tento e ele diz ‘Que se fX@#’. Estou inconformada de ter um filho assim. Sinto culpa, mas adoro quando ele não está em casa. Mais alguém com esse sentimento?”.

Sim, muitas outras mães com o mesmo sentimento relatado por essa mulher numa rede de apoio materna. Outras 53 mães fizeram relatos parecidos como o dela. Outras 53 mães disseram que também já tiveram raiva do próprio filho, que já tiveram vontade de colocá-lo para fora de casa, que se sentem muito sozinhas no dia a dia e estão cansadas.

Mães estão cansadas. Mães estão exaustas. E isto é o suficiente para lhes dar o direito de ter raiva do filho, ter ódio, querer que “ele suma da minha frente”. Mães são humanas e humanos têm sentimentos controversos. O ódio certamente é um deles.

E para além da crueldade da própria dor, de ter que carregar a raiva do filho dentro do peito, mesmo que momentânea, mulheres que são mães ainda têm que lidar com a “tal” da culpa social. Elas mal relatam a raiva e já vão logo se desculpando pelo sentimento – supostamente – impróprio à maternidade.

Carregam a culpa como mais uma sobrecarga, mais um peso. Culpa, aquela que te aponta o dedo e diz: “você não está educando direito” ou “você tá fazendo tudo errado”. Mas a gente não diz por aí que “errar é humano”?

Mas parece que mães sempre fazem “algo de errado” para além do humano – ou será que o que falta é justamente humanizar essa figura quase que canonizada socialmente?. Essas mulheres vivem uma batalha interna contra aquilo que se sente somado ao julgamento social. E eu provavelmente não tô dizendo nada novo aqui, mas repetir – ou exaurir – os rótulos da maternidade pode ser uma forma de rompê-los.

Mães não são seres de fábrica que saem com rótulo – ou selo de qualidade. Assim como filhos não saem da maternidade com manual de instrução debaixo dos braços. Ainda que essas sejam as imagens que se vende, a gente deveria refletir sobre elas com mais afeto.

Mães estão cansadas. Mães estão exaustas. Não à toa, 53 mulheres se solidarizaram com o relato acima e é disso que elas precisam: empatia e suporte. Com a pandemia, 7 milhões de mulheres foram obrigadas a abandonar seu trabalho ou estudo para voltar a cuidar dos filhos em casa.

A balança nunca foi equilibrada e ainda que tenhamos avanços sociais e culturais consideráveis, fica com a mulher uma das cargas mais pesadas ao criar e educar filhos: a demanda emocional. E a ideia de ter um lugar em que mães possam pedir ajuda, trocar experiências e até de abrandar a solidão passa a ser um alento em meio a tanto julgamento.

Grupos de apoio como este que existem na internet, redes sociais e até as antigas pracinhas, são espaços que ganharam uma importância social grande no cotidiano de maneira geral.

Um lugar onde seja possível não apenas se reconhecer como alguém que sente amor, mas também raiva e ódio. Porque amor de mãe pode ser instintivo ou incondicional, mas não é involuntário. Mães precisam de mais apoio e menos julgamento. De olhares mais acolhedores para todos os supostos erros ou acertos.