Na tentativa de uma retomada econômica algumas empresas ignoram o fato das escolas permanecerem fechadas e não consideraram oportunidade de mudança cultural

“Eu voltaria hoje a trabalhar, depois da minha licença maternidade + férias. Entrei em contato com a minha gerente pedindo a suspensão de contrato e consegui isso junto a empresa. Fiquei sem saída já que não tem escola e contratar alguém de babá nesse tempo de pandemia seria problemático”, conta Gabriela Albuquerque, mãe de uma menina de 5 meses.

Gabriela não está sozinha na decisão. Infelizmente. Segundo dados do IBGE, as mulheres ocupam 64,7% do mercado de trabalho formal no Brasil e em sua maioria são mães. Não contempladas no plano de Governo do Estado para a flexibilização e a retomada de mercado, como fazem essas mulheres que, em plena pandemia, precisam voltar ao trabalho presencial?

“Eu fiz um acordo com a minha funcionária que a gente paga o Uber pra ela duas vezes na semana pra poder ajudar com as coisas da casa e as crianças porque está muito cansativo já”, conta Marisa da Silva, mãe de três crianças. “O trabalho já rende super pouco. É muito complicado trabalhar em casa e dar conta de todas as coisas que a gente precisa. A gente precisa de ajuda, mas não dá para ter uma funcionária usando o transporte público todo dia. Dai faço como?”.

Na medida em que empresas planejam a retomada do trabalho presencial, teremos oportunidade para uma mudança cultural. A pandemia e o isolamento social trouxeram inúmeros aprendizados para as relações de trabalho. Para quem gerencia ou colabora com mães e pais, o trabalho remoto pode ter servido de catalisador de mudanças que favoreçam o bem-estar das famílias.

Segundo Roberta Sotomaior, co-fundadora e CEO da Health Tech Bloom, Startup de impacto social que apoia a parentalidade no mundo corporativo, gerenciar ou colaborar com mães e pais que trabalham significa ter um olhar atencioso para as particularidades da rotina em família. “Porque a harmonia tão buscada entre vida familiar e profissional depende de gestores que entendam, acolham e propiciem um cotidiano profissional que caiba na rotina de quem tem trabalho também em casa”.

Um dos pontos mais sensíveis da volta ao presencial é a falta que a rede de apoio ainda fará. Normalmente, famílias contam com escolas, familiares e profissionais para se manterem ativas e disponíveis no desempenho da função profissional. Com a Covid-19, esta rede desapareceu. E, ainda que já se planeje a retomada das atividades presenciais, nem tudo voltará na mesma velocidade.

“As mulheres ainda são responsáveis por quase todo o trabalho doméstico e as muitas responsabilidades na criação dos filhos, existe o risco de a força de trabalho feminina ser a mais prejudicada nessa retomada, tendo que abrir mão de suas ocupações profissionais para garantirem o cuidado das famílias”, alerta Roberta. “Isso caso as empresas não repensem seus sistemas de trabalho e adaptem políticas, práticas de RH e até benefícios. A fim de evitar este cenário que levaria a uma desigualdade ainda maior entre os gêneros — fora o impacto negativo na própria família”.

Camila Giacometti, mãe de duas crianças, conseguiu manter o trabalho remoto por mais um tempo. “A gestão da minha empresa conseguiu entender que não era possível voltar neste momento e acordamos a flexibilização do trabalho remoto por tempo estendido”. Segundo Roberta, CEO da Health Tech Bloom, “conversar com o colaborador, entender a sua realidade e estar disposto a ajustar as regras levando em conta caso a caso será fundamental nesta etapa”

Não apenas o diálogo é importante, como outros recursos de apoio. As organizações corporativas podem e devem ser parte da rede apoio das famílias. “Considere oferecer ferramentas para todos os desafios que as famílias enfrentam — e que são muitos. No passado, quando ainda não enfrentávamos a crise da pandemia, já tínhamos organizações atentas à essa questão, implementando iniciativas como salas de amamentação, creches e ampliação da licença maternidade e paternidade. Agora, é possível e necessário ir além para buscar formas inovadoras de suporte sistemático a mães e pais que trabalham”, lembra Roberta.

Se a parentalidade é full-time, o apoio também precisa ser. Essa é a virada que as empresas já precisavam ter feitos e agora estão frente a ela. Perdem as que manterem normas, regras e burocracias frente as relações humanas. Não cabe mais relações capitalistas onde apenas um ganha. Precisam ganhar famílias, crianças, empresas e toda a sociedade.