No check list de uma “boa mãe” consta: parto normal, amamentação no peito, não deixar o bebê chorar ou gritar e disciplina positiva. Se você falhar, será julgada e culpada. Na era do cancelamento, mães precisam é de apoio.

Quem nunca julgou uma mãe pelas aparências, que jogue a primeira pedra. Ter um dedo apontado para o que ela fez de errado ou deixou de fazer parece ser daqueles fardos que mulheres carregam ao aportar na maternidade. Não bastasse a tal da culpa, ainda é preciso lidar com o julgamento alheio. E na era do cancelamento, basta um espirro pra você ser colocada de fora.

Tem uma frase do jornalista e humorista americano, Robert Quillen que diz que “um debate é uma troca de conhecimentos e uma discussão, uma troca de ignorâncias”. E em meio a tantos cancelamentos, lembrei dessa sábia distinção. Antigamente – sim, está parecendo coisa da época da minha vó – conversas eram atos construtivos nas relações humanas. Hoje, passaram a ser atos destrutivos.

Parece que as pessoas sentam em volta de uma mesa cada uma com sua arma empunhada na direção do outro. Pronta pra discordar, ainda que não discorde – ou nem saiba que discorda. As pessoas mal ouvem as outras, elas rebatem. É um ping-pong violento, daqueles que você nem vê a bolinha.

Errar não é mais humano. Isso é coisa de outra vida, outro planeta. Vamos cancelar a palavra também. Apaga. Alguém aí, por favor, pede pro pessoal da reforma ortográfica pra cancelar o termo. Errar pra quê?! Não estamos aqui pra isso. Derruba. Cancela.

Some essa intolerância toda à maternidade. Pensa na pessoa que já nasceu carregada de culpa e que vai carregar também o julgamento alheio. Quem não lembra da cena que causou alvoroço na internet, em 2016, de uma mãe, no aeroporto de Atlanta, com o bebê no chão, em cima de um paninho, enquanto ela estava no celular. Aparentemente abandonado, a situação foi fotografada e viralizou na internet. A mulher não só descobriu sua foto como os inúmeros comentários que a condenavam. Aquela mãe não era boa o suficiente, claro.

A solidão é um sentimento que acompanha muitas mulheres durante a maternidade

A solidão é um sentimento que acompanha muitas mulheres durante a maternidade

Agora imagine você uma cena comum de férias, nos dias atuais: a família resolve viajar para a praia com a criança pequena. Tomar um pouco de ar e aproveitar os dias de férias. Praia razoavelmente vazia, aquele mar mais pra calmo do que qualquer outra coisa e resolvem colocar o menino de 3 ou 4 anos em cima de uma prancha. “Vamos ver se ele consegue pegar a onda”, talvez pensem.

Estavam ali na água, junto do menino, pai, mãe, avós e até uma tia. Ele se deita em cima do morey boogie, o pai segura por trás na espera da melhor onda e lá vai, ele solta o menino à incrível adrenalina de pegar uma marola. E ele desliza, sorrindo, até a beirinha da areia. A família toda comemora. Batem palmas e falam o quanto ele performou bem no desafio.

O que você faria ao observar esta cena?
1.Sorriria junto da família e também comemoraria
2.Olharia com desdém como quem acha tudo aquilo um exagero pra uma criança tão pequena e uma onda que nem pode ser chamada de onda
3.Ficaria pensando que o menino só pode ser mimado com aquele tanto de gente olhando pra ele no mar e fazendo elogios

Cenas tão “pequenas” quanto esta, podem ser o suficiente para disparar o gatilho alheio do julgamento materno. Basta pouco para uma mãe ser avaliada sob sua performance. E em alguns casos, ela nem fica sabendo, mas outros tantos se transformam em fardo, peso e culpa. É difícil além de todo check list maternal ter que lidar com o dedo apontado. Porque nunca será boa o suficiente, sempre poderia ter feito de outro jeito e tem alguém pra achar que pode melhor.

Ainda que os livros de autoajuda e de “como fazer” sejam os mais vendidos na seara maternal, não existe fórmula mágica. Porque cada um é um. Sabe aquele trecho da música do Caetano que diz “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”? Pois é. Não só de como é, mas do jeito próprio de fazer as coisas, dos valores e da educação. É preciso respeitar. É preciso olhar para essa outra pessoa com mais empatia. Para que as conversas, os conselhos e os olhares sejam mais construtivos do que destrutivos.

Me fez pensar na proposta do livro Zoom, do húngaro Istvan Banyai. Um livro pra crianças e adultos e que nos provoca a repensar o olhar sobre as coisas. O objetivo não é contar uma história linear, mas sim romper com as expectativas do leitor. É um livro apenas de imagens em que o leitor precisa lê-las e quando você acha que está entendendo o que está acontecendo, opa, o autor te mostra que não era bem aquilo. O que isso quer dizer? Que nem tudo que a gente vê é do que jeito que a gente acha que é.

Capa do livro Zoom que provoca a desconstrução do olhar

Capa do livro Zoom que provoca a desconstrução do olhar

O livro faz um convite a pensar sobre o que estamos vendo. Será que é realmente aquilo? É um exercício para o olhar neutro, livre de julgamento e achismo. Pense, você seria capaz de olhar uma imagem e fazer uma leitura sem expressar qualquer tipo de opinião ou fazer ponderações? Se o exercício é difícil na literatura o que dirá na vida real. Isso porque seres humanos são seres que julgam – o que é bem diferente de fazer uma crítica.

Três páginas do livro em que o leitor pode ampliar a cena e a leitura

Três páginas do livro em que o leitor pode ampliar a cena e a leitura

O professor e filósofo Leandro Karnal tem uma entrevista no Youtube muito boa em que discorre sobre o hábito humano de falar mal dos outros. “Ao falar mal de alguém, a pessoa cria identidade e passa a pertencer a um grupo. Ela passa a se achar melhor do que a outra”. “Neste nosso mundo líquido, usando uma expressão do Bauman, nós nos tornamos todos autores com autoridade. No momento em que eu abro uma conta nas redes sociais, automaticamente eu ganho diploma de jurista especializado para emitir opinião sobre qualquer coisa e se o outro não concorda, ele diz que você está errado e vice versa”.

Segundo Karnal, a detração humana é um tipo de veneno, uma “arma”, mas que diz muito mais sobre quem fala e não de quem se fala. “Quando falo mal de alguém, quando eu julgo essa pessoa, estou expondo minhas dores. É uma maneira de catarse em que eu transfiro para o outro o que está escondido na minha alma”.

E o que isso tem tudo a ver com a pauta desta matéria? Tudo. O seu olhar não define uma mãe ou uma mulher, mas ele pode ser devastador na autoestima e na construção desta pessoa. Mães não precisam ser julgadas, elas precisam de apoio. Às vezes parece mais difícil estender a mão e oferecer ajuda, oferecer um olhar acolhedor e empático. Mas pode ser um excelente exercício para o ano que começa. O mundo já anda tão cheio de opiniões e dedos sobre a vida alheia, pra quê mais? Será que não conseguimos contribuir com os outros de maneira mais construtiva?

Isto não exime as pessoas de emitirem opiniões, mas provoca pra que elas sejam ditas com mais cuidado e mais critério. Esta é a grande diferença entre crítica e julgamento. É o poder de sair do lugar subjetivo para olhar uma cena e analisá-la. Julgar é levantar uma suposição sobre algo ou alguém pela aparência, forma ou atitude. Criticar é o ato de analisar algo ou alguém e isso pressupõe sair da superficialidade e aprofundar. Buscar conhecimento.

Mães precisam de apoio de outras mães, de outras pessoas, de quem está no entorno. Precisam de olhares mais acolhedores para todos os defeitos e acertos. De rede de apoio para sustentar a dura missão que é a maternidade. É preciso reconhecer seus próprios privilégios para poder olhar a singularidade do outro. E é dividindo lugares e compartilhando experiências que aprendemos o real sentido de apoiar – não julgar. Isso dá amparo.