Algumas escolas começam as aulas entre hoje e amanhã. Outras, semana que vem. Começa também o processo de se adaptar ao que vem de novo. Seja dos novos alunos que chegam, seja dos habituados que chegam novo, num espaço já conhecido

Como parte da minha segunda graduação em Pedagogia, cumprimos horas de estágio semestrais desde o início da Faculdade. Ano passado, num desses momentos, vivi a adaptação do ano letivo. Pelas crianças que chegavam depois de dias longos de férias e por mim, que chegava de novo, na mesma escola, mas por uma nova porta. Eu era nova ali, ainda que não fosse. As crianças eram novas ali, ainda que algumas também não fossem.

Chegou junto da gente a palavra “acolher” e lá fui eu atrás dela em dicionários, sinônimos, autores de pedagogia e dentro de mim. Sim, eu precisava encontrar o acolhimento dentro de mim neste processo todo de adaptação escolar.

Adaptar é verbo, o que pressupõe algo que está em movimento, em ação. Verbo transitivo direto tem sentido na frase de “fazer acomodar”. Etimologicamente, tem origem no latim adaptare – tornar capaz de. Tem como antônimo a palavra “desacomodar”. É preciso sair do conforto, sentir-se desconfortável, para poder adaptar-se a algo novo. Entendi onde estava – ou estávamos todos.

Na porta da classe em que eu estagiaria um boas-vindas, a todos: “Um novo ano, um olhar para o espaço externo. Um novo balanço! Cadê o balanço que estava aqui?”. Cadê? As coisas mudam. Mudam de lugar, de perspectiva, de tamanho e de importância. Simplesmente mudam. Feito as coisas passageiras – ainda que isso nada tenha a ver com a velocidade do tempo e sim sobre o tempo que caminha.

cartaz escola

Um processo forte que precisa de coragem. Precisa de acolhimento das coisas que a gente carrega no peito. E dá medo. A gente espia pela fresta. Precisa encher o peito de ar. Às vezes, a gente precisa também de uma mão pra segurar. De algum apoio. Não muleta. Apoio que tem conforto e não confronto. Os confrontos são internos e eles sim passam. Feito tempo passageiro – aqui sim.

E as férias passaram por esta velocidade. Correram da gente. Escaparam pelas infinitas risadas, conversas, programas e brincadeiras que fizemos juntos. Eu e meus filhos. Você que está lendo e os teus filhos, também. Tem escola nova que vai começar, ainda que não seja totalmente nova para todos. Alguns mudam apenas de classe, de ano. Alguns mudam tudo.

Eu não sei ele (sei sim), mas sei que eu estou com medo. Sim, mães sentem medo quando o filho muda de escola. Pensar nos amigos que, de alguma forma, ele deixa para trás ou no recreio que ele deve passar sozinho perambulando pelo pátio, dá um medo danado na gente. Medo. Sim, mães sentem medo e eu estou agarrada nele fingindo não estar. Tentando contar ao Felipe coisas que ainda não consegui contar a mim mesma. Talvez porque precise acolher. Feito acolhimento daquele que falava no começo do texto. Acolher o sentimento. Pousar o olhar nesse sentir tão gigante.

Doer vai. Pra mim e pra ele. Disso não carrego dúvidas. Porque a gente não se esquiva do sentir. Mas “habitar esse espaço é acolher o que os olhos não veem, o que o corpo sente, conhece ou estranha. Habitar o mesmo espaço, sob diferente ponto de vista, com pergunta atualizadas pelo tempo e pela experiência” – dizia a outra parte do cartaz do começo do ano, do começo do texto.

Susanne Langer foi uma educadora e filosofa americana que se tornou conhecida por suas teorias sobre a influência da arte na mente. Ela falava do olhar e de como o olhar era construtor deste processo. “Ver é em si um processo de formulação; nosso entendimento do mundo visível começa pelos olhos”. Visível e sensível. Daquelas que guardamos dentro da gente para significar. Algo se soma ao olhar. E para a gente ampliar é preciso ampliar o repertório, os olhares. Os ângulos, as diversidades, as versões e as histórias. Porque é preciso viver da própria transformação. Do conhecimento que se realiza.

“Eu vo-lo digo: é preciso ter ainda um caos dentro de si para gerar uma bailarina”, Nietzsche. Que as minhas borboletas na barriga e as borboletas do Felipe possam ser bailarinas.