Reconhecer quando a infância se esvai é fundamental para crescer e seguir adiante

Ele devia ter uns 9 anos. Por um instante parou de brincar. Me chamou e perguntou: “mãe, do que eu posso brincar? Estou sem ideia”. No segundo em que eu pensava, seu irmão mais velho, Pedro, saiu do quarto e disse, sarcasticamente: “hahaha você está perdendo a infância! Não sabe mais do que brincar”.

Aquilo foi um soco na minha cara. Fiquei muda. Perplexa. E não porque Felipe estava deixando a infância, mas porque eu nunca pensei que crianças pudessem ter a consciência de que um dia elas deixam de ser crianças. Mas meu filho tinha acabado de me mostrar que sim: crianças deixam de ser crianças e elas sabem disso.

Me doeu profundamente. E não como mãe que vê o filho crescer, mas pelo filho que se vê a crescer. Ter que se despedir de um brinquedo, ou de uma brincadeira dói. Se dar conta que aquele mundo intenso que vivia na sua cabeça já não tem mais tanta graça também dói. Lidar com o vazio de tempo que a brincadeira não mais preenche também dói. Porque não é o tédio pelo tédio. É o tédio em despedida.

Felipe agora tem 11. Logo fará 12. Mas quem o conhece, diz que ele parece ter os mesmos 9 de anos atrás. Porque ele ainda vive profundamente conectado com o seu universo particular. Daqueles que ele mesmo cria, como fazem as crianças.

Em uma de suas gavetas, uma coleção de pequenos cadernos. Cada um, um momento de brincadeira. Num deles, traços e ondas. Noutro, tudo quanto é tipo de apetrechos para um dia no mato. Uma mochila compacta, uma zarabatana e um estilingue. Num terceiro, Pokemons – claro. Num quarto, coisas que ele pensa. Ideias que ele gosta de registrar pra não esquecer no tempo. Em todos, fragmentos de uma infância.

Infância que tenho observado e vivido com nostalgia. Porque agora ela parece estar por um fio. Parte de um menino curioso surge em falas e vontades que antes não se via. Ele já enfrenta as palavras. Num menino que tem rompantes de mal humor e choros inexplicáveis de quem cresce. Num menino que, às vezes, escolhe não brincar de inventar pra fazer coisas que os mais velhos já fazem. Ainda que envelopado por tudo isso, dentro tem um Felipe que volta da escola suado e com a roupa suja. Como quem me dá pistas de que ainda tem criança por ali. Numa infância como uma oração ao tempo. Aquela de que canta Caetano.

Mas Felipe está de mudança. Vai trocar o pátio de terra e pedrinhas pelo espaço concretado e de mesas de ping-pong. Onde tem menos chão de correr e mais espaço para circular. Escolha? Não, não é. Mas como num amor em que a relação não vai bem e alguém tem que dar um passo. Dizer o “acabou”. Fim.

Fim de outro fragmento de infância. Este vivo e intenso. De quem pôde correr sem o contorno do muro pra dizer “aqui não pode mais”; de quem se pendurou em cordas; de quem subiu em árvores pra comer pitanga e acabou descobrindo o próprio corpo. De quem fez e levou amigos aos anos seguintes que se passaram. De quem teve o olhar cuidadoso e amoroso. De quem teve tempo para ser criança.

Criança, do latim creare – criar. Substantivo feminino: ser humano que se começa a criar. Felipe sempre teve o privilégio da infância prolongada. Acompanhar o fio ruir, tão de perto, tem sido dolorido. Vontade de juntar os cacos pelo caminho e segurar um pouco mais. Mas algo me diz que preciso ser forte.

Pra que sejas ainda mais vivo. Pra que outros bocados se juntem a essa parte da história. Pra que Felipe componha sua própria história. Como as que ele escreve em seus pequenos cadernos. Com a generosidade do tempo. E uma possibilidade de infância que ainda caminha pelo início da adolescência.

“És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo tempo tempo tempo
Vou te fazer um pedido…”