Sexta-feira última, a convite do RH do Grupo Estado, participei de uma palestra no jornal sobre a Maternidade Real. A possibilidade de poder dividir um pouco do que a gente sabe e viveu (vive) é tão grandiosa e valiosa que fiquei com vontade de estendê-la aqui, aos leitores e leitoras. Pra gente criar possibilidades das conversas não se esgotarem num evento, num acontecimento.

Uma troca não da Carolina jornalista, mas do meu caminho como mãe de 3 meninos, sendo 2 já adolescentes. E a gente não chega aqui na adolescência por acaso. Somos todas capazes de caminhar por esta fase que parece tão assustadora, assim como fomos quando eles nasceram e a gente mal sabia identificar um choro. Eu morria de medo de chegar na adolescência. Achava que não ia conseguir me comunicar com eles, saber falar sobre os assuntos que precisam ser falados… porque eu achava que tinha mais “jeito” com crianças pequenas. Mas a gente aprende a ser mãe a cada momento, a cada idade, a cada fase. Inclusive a gente aprender a ter esse tal “jeito”. E por incrível que pareça, a gente é capaz de ir crescendo junto com eles e acompanhar.

Mas precisa de olhar para a mãe do adolescente. Olhar essa figura que foi tão cuidada quando era mãe de primeira viagem e agora parece viver ao limbo. A gente tem muitos grupos e muitas rodas de conversas sobre bebês, mães de bebês, mães de primeira viagem… e parece que quando passa dessa primeira fase mais “assustadora”, já pode “abandonar” essa mãe e seguir. Mas não. Mãe de adolescente também precisa ser acolhida, também precisa de rodas de conversa e precisa de grupos. Porque as angústias são muitas e se reconhecer na história do outro é vital.

É preciso reconstruir as redes de relações da infância. Se reconectar aos grupos de mães, ainda que seja pelo whatsapp. E é preciso, também, se reconectar aos filhos. Entender que eles cresceram é fundamental para essa relação de sucesso. E isso só é possível que você for capaz de ver seu filho ou filha como alguém competente para ser responsável e autônomo. E isso começa na infância. Começa quando nossos filhos são pequenos e a gente olha aquele serzinho se equilibrando nas próprias pernas e confia que ele será capaz de andar sozinho. Ou quando a gente vê aquelas perninhas se esticarem pra subir uma escada e a gente acredita e confia que eles serão capazes sozinhos. Construir relações autônomas e de confiança podem ajudar muito a viver a adolescência. E isso não está em livros ou manual.

Não acredito em livros de autoajuda para mães. Acho que eles nos carregam para um universo de frustração e culpa que é injusto. Como a gente conhece um adolescente? Como a gente descobre como lidar com ele? Olhando para o próprio filho. A psicóloga Sandra Stirbulov tem um exercício muito bacana pra isso. Ele pede que mães e pais fechem os olhos enquanto ela faz perguntas do tipo: qual a cor do cabelo do teu filho? Como ele anda? Como ele ri? Como ele fica bravo? Em que circunstância fica? E assim por diante. Os pequenos sorrisos dos pais fazendo o exercício denunciam o conhecimento claro que eles têm sobre seus filhos. E quando a Sandra pede para que abram os olhos depois de uns 30min de exercício, está ali a melhor resposta e o melhor livro de conhecimento sobre quem são os adolescentes. Somos nós quem sabemos quem eles são e como lidar com eles. Não está nos livros, não está na boca de nenhum especialista. Está nas nossas histórias. Nesse compartilhar enorme que tem aqui, entre nós.

Sabe outro jeito de saber mais sobre a adolescência? Se interessando pelo que vem deles e pelo que é deles. Música, séries, YouTubers, filmes… Achar ruim e reclamar de tudo que vem deles é dos maiores erros que a gente pode fazer. As músicas que eles curtem não são as que a gente curte. Os ídolos deles não são os nossos. Os canais deles de comunicação não são os mesmos. E se a gente continuar insistindo de que “na nossa época não era assim”, estamos perdidos! E dai perdemos eles. E não é que perdemos o controle sobre eles, perdemos o vínculo com eles. Perdemos o diálogo. O que é muito pior.

Não adianta querer mandar no adolescente. Dizer a ele “não porque eu estou mandando” é quase que uma burrada. A gente precisa aprender a mudar os termos. Trocar as palavras para poder trocar os sentidos delas. É ressignificar o ser mãe. Trocar “eu mando” por “senta aqui, vamos conversar”. Trocar o “não pode” por “ok, vamos entender o porquê”. Trocar o “é proibido” por “ok, mas vamos acordar o tempo”. A gente precisa escolher quais brigas comprar, porque não podem ser todas. Desgasta, como qualquer relação.

Meu filho vai ter conta no Instagram? Pode ser que sim, pode ser que não, mas até tal idade eu também preciso ter a senha. E ele vai saber que, de vez em quando, você vai olhar. Porque isso vai ser combinado entre vocês. E pode ter tempo de uso também. De quantas horas você achar ideal por dia ou final de semana. Agora se você não colocou esse limite na infância e liberou o ipad na mesa do restaurante provavelmente terá mais dificuldades de impor esse limite na adolescência.

E lembre-se: combinado é combinado. Vale para o adolescente e para você também. E quando chegar o momento em que ele mudar a senha e não querer mais que você veja o feed dele, respeite. As conversas mais intimas dos adolescentes acontecem pelo direct, do Instagram. Invadir aquele espaço é como ler nossos diários antigos. Não pode.

A construção do mundo particular deles é essencial. A gente orienta, fala, traz boas referências para as conversas, mas nunca espia pelo buraco da fechadura. Adolescente precisa ser olhado sim, mas não pelo buraco da fechadura. Precisa de olho no olho, de carinho. De respeito e confiança. Porque se reconhecer como mãe de adolescente é uma conversa possível.