Foto: Pixabay

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Há algumas semanas ficamos sabendo que um vizinho nosso, pai de três filhos, tinha morrido depois de ficar semanas na UTI lutando contra a infecção por coronavírus.  Estava a poucos meses de completar 50 anos, tinha uma vida inteira pela frente, muitas coisas ainda por fazer, entre elas assistir ao crescimento dos filhos, meta da maioria dos pais quando põem os pequenos nos braços pela primeira vez ainda na maternidade.

O pensamento ‘poderia ser comigo’ é universal, imediato, aterrador, e logo se mistura, não sem um pouco de culpa, ao alívio do ‘ainda bem que não foi comigo’. Logo lembrei de um livro do escritor russo Lev Tolstoi, ‘A morte de Ivan Ilitch’. Seus colegas do Direito, logo após lerem sobre a morte do juiz do jornal, não demoraram a pensar sobre “as prováveis promoções e transferências que a morte acarretaria”, mas não somente, conta o narrador onisciente, aquele que sabe as coisas inconfessáveis que passam pela mente dos seus personagens: “A morte de pessoa tão próxima deles despertou, como de costume, em cada um dos elementos do tribunal, a tranquilizadora sensação de que escapara. ‘Ora, bem! Ele morreu e eu estou vivo!’ – pensou ou sentiu cada qual.”

Estamos vivos, mas não sabemos até quando, porque o cerco vem se fechando. Todos os dias o número de casos (e de mortes) pelo coronavírus anunciados pelo Ministério da Saúde aumentam e ganham nomes, rostos, histórias. A avó de uma amiga. O pai de outra. O colega de trabalho do marido se recupera a duras penas. ‘Ufa, escapei’. Não demora nada e sabemos que a doença bateu à porta da família, fazendo com que meu cunhado fosse internado no Rio de Janeiro, um dos novos epicentros da doença no Brasil. Conseguimos conversar com ele pelo telefone, quando ainda estava na enfermaria. Ofegante, tinha dificuldade para dizer que se sentia mal, muito mal. Horas depois a comunicação cessou porque ele foi levado à UTI (na verdade CTI, diz minha sobrinha, sotaque chiado, e me lembro que paulistanos e cariocas têm formas diferentes para nomear coisas iguais). Ora bem, meu cunhado está internado, mas nós ainda estamos saudáveis, descreveria o narrador ao ter acesso à minha mente, que nesse momento apelava a um autoengano. Nenhum de nós está bem, esta é a verdade nua e crua.

Acordar todos os dias tem sido um tormento porque não consigo pensar que ‘sairemos disso melhor do que antes’, ‘tiraremos grandes lições emocionais e humanitárias dessa crise’, nada disso. Estaremos emocionalmente abalados, mais pobres e talvez desempregados, com famílias desestruturadas por terem os pilares que as mantinham em pé implodidos. Na verdade, mal consigo usar a palavra ‘sair’ porque simplesmente não consigo enxergar a tal luz no fim do túnel. Estamos presos na entrada dessa passagem subterrânea, que não sabemos qual comprimento tem, discutindo como fazer essa travessia de forma conjunta e segura, algo impossível quando parte dos nossos companheiros de viagem acredita que tudo não passa de uma alucinação que pode ser desfeita com comprimidos de cloroquina algumas vezes ao dia.

Abro o Facebook e digo ‘estamos perdidos, isso sim’. Minha tia compartilha a notícia falsa sobre o enterro de caixões vazios no Ceará, ‘olha só como tudo é uma grande mentira’. Tento alertá-la da gravidade de espalhar algo sabidamente falacioso, ainda mais se tratando de um vírus altamente contagioso, e ela dispara: ‘eu não acredito nesse vírus’. Depois vejo um post que defende o ‘vibrar em alta frequência’ como o melhor remédio contra a Covid-19.  Se ‘vibrarmos no medo’ estaremos dando as boas-vindas ao vírus e a outras energias ruins, afirmava, categórico. Já são mais de duzentas mil pessoas super negativas no Brasil, mais de catorze mil pessoas que vibraram de forma erradíssima, como eu nesse exato momento, concluo. ‘Ora, ora, estamos todos muito fodidos’, diria o narrador, o único com amplo acesso ao meu desesperado e impublicável monólogo interior.

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