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As novas formas de educar têm sido testadas por muitos pais dessa geração: não bater é uma das primeiras promessas feitas por aqueles que querem criar os filhos de uma forma diferente da que foram criados. Desde 2014, inclusive, qualquer castigo físico e tratamento cruel ou degradante das crianças foi proibido com a promulgação da chamada ‘Lei da Palmada’. Educar os filhos sem gritos foi outro compromisso assumido por muitos de nós, uma tarefa difícil, principalmente em tempos de isolamento e quarentena, com crianças e pais em casa em tempo integral e submetidos a mais pressão do que o normal. Mas, afinal, por que gritamos? A psicanalista, educadora parental e palestrante Elisama Santos se debruçou sobre essa questão e lança o livro que estampa essa pergunta no título, o segundo lançado pela editora Paz &Terra. Ela também é autora de “Educação não violenta”, best-seller que já vendeu cerca de 15 mil cópias, um feito e tanto para os padrões do mercado editorial brasileiro. Segundo a psicanalista, gritar tem uma relação direta com os nossos sentimentos e não com a atitude dos nossos filhos. “As crianças escutam gritos que não são direcionados a elas. São gritos que dou porque eu não sei lidar com a minha raiva, é o grito que na verdade era para o meu chefe, para o meu marido ou para outra pessoa”, garante.

Blog: Todos os capítulos do seu livro falam sobre a necessidade de fazermos as pazes ‘com os sentimentos’, ‘com quem somos’, ‘com o passado’ e ‘com a criança que mora em nós’, por exemplo. Isso sugere que o ato de gritar com os nossos filhos pode ter a ver mais com a gente do que com as pretensas atitudes que nos levariam a gritar com eles. É isso?

Elisama: Sem dúvida é isso. O grito é o alerta de que você precisa escutar algo que está dentro de você. Porque quando estava em uma dia legal, recebeu boas notícias no trabalho, saiu com suas amigas e seu filho teve certa atitude que te desagradou você reagiu apenas com um ‘filho, não faz assim’. Mas no dia que estava mal, estressada, em quarentena em casa e seu filho teve a mesma atitude, você surtou. Não foi a atitude dele que motivou o grito, ela foi só um gatilho que desencadeou algo que já estava vivo dentro de você. Então o grito mostra a necessidade de olhar para o que precisa ser cuidado em você.

Por isso todos os capítulos começam com ‘fazendo as pazes’ com algo. Porque se eu faço as pazes comigo e com a vida eu vou gritar menos com meus filhos. As crianças escutam gritos que não são direcionados a elas, são gritos que eu dou porque eu não sei lidar com a minha raiva, é o grito que na verdade era para o meu chefe, para o meu marido ou para outra pessoa. O grito é sinal de uma dor relacionada com outras coisas e que eu acabo descarregando na relação com o meu filho. É bom a gente entender que o grito não é um sinal de que somos nervosos demais, incompetentes demais na função de pais ou que a relação com a criança ou que o adolescente pede demais de nós. O grito é o sinal de que há algo em mim que eu preciso escutar. Se eu perdi a paciência do jeito que eu perdi, se eu agi da forma que eu agi, tem algo dentro de mim que eu preciso escutar. O que é que é?

A psicanalista e educadora parental Elisama Santos

Blog: E o fato de você gritar e reagir desse jeito significa, necessariamente, que alguém agia assim com você na infância?

Elisama: Não necessariamente. Às vezes agiram assim com você, às vezes não. Mas tudo tem sempre a ver com a infância e ela reverbera muito na nossa vida. Essa semana eu conversei com uma mãe e ela me contava que a família dela sempre tinha sido muito tranquila, ‘não, nunca ninguém gritou comigo’, disse. E aí a conversa continuou e a gente percebeu que os pais nunca gritaram porque ela sempre se calou e foi ‘a filha boazinha’. Ela nunca ouviu um grito na vida, mas era porque ela tinha tanto medo que nem pensava no que queria ou precisava. Ela apenas fazia o que papai e mamãe mandavam. E hoje, com filho, ela não dá conta, acaba gritando com ele. E esse grito vem muito desse lugar dessa criança que diz, ‘peraê, eu sempre me calava para fazer papai e mamãe felizes e você está se dando no direito de falar assim comigo?’. Então às vezes esse grito não tem relação direta com a minha infância no momento, mas tem a ver com os meus sentimentos de agora, de que eu não estou dando conta deles. O meu barulho interno está muito alto e qualquer barulho das crianças incomoda porque estou lotada e não tenho mais espaço para mais ninguém, e criança pede espaço. Eu estou cheia de coisa na cabeça e quando escuto um ‘mãe’ eu logo respondo com um grito, ‘O QUE É???

Então quando o grito vem eu não posso pensar ‘nossa, gritei de novo, como sou incompetente!’. Mas sim, ‘nossa, gritei de novo, o que é que estou sentindo?’ A gente precisa se conectar com a curiosidade sobre nós, porque a gente tem muita certeza sobre quem somos e não devia ser assim, a gente devia ter curiosidade e se perguntar ´por que eu gritei? Por que eu agi assim? Por que eu falei da forma que eu falei? O que está por trás desse meu comportamento?’ A substituição da certeza pela curiosidade abre horizontes imensos para a gente.

Blog: A gente está vivendo um período muito turbulento e aposto que quando você escreveu esse livro não tinha nenhuma ideia que em 2020 a maioria de nós estaria em home office, outros sem emprego ou com medo de ficar sem trabalho e sem dinheiro para pagar as contas, com as crianças todas em casa, estudando, sem poder sair, todos ainda sob mais estresse do que o usual. E possível lidar com tudo isso sem descontar nos nossos filhos?

Elisama: Sim, é possível. E quanto mais a gente acolhe esse estresse, quanto mais a gente acolhe o quanto está doendo, nomeia o que está doendo, mais somos capazes de separar o que é meu do que é dessa criança, menos frustrada eu vou ficar com quem eu sou e com as minhas atitudes, mais força eu vou ter para lidar com o meu filho, ser mais acolhedora e mais alinhada com o que eu acredito. O autocuidado é um extensor de pavio. Em momentos extremos como esse que estamos vivendo nessa quarentena é que mais precisamos desse autocuidado e é quando a gente mais se descuida. Você tem que perceber o que pode ser pequeno no dia a dia, mas que é importante para você. No meu caso é tomar banho logo que eu acordo, o pessoal daqui de casa sabe que é importante para eu começar meu dia e que quando eu não faço isso eu fico mais irritada com tudo. É uma bobagem, mas tem um significado enorme para mim. E aí temos que perceber o que é importante e que tem esse significado de lembrar que você existe, que você importa, de cuidar do que é gostoso para você.

Blog: É aquele conceito que a gente ouve dentro do avião de como agir em caso de despressurização: primeiro eu coloco a máscara em mim e depois em quem está ao meu lado.

Elisama: Exatamente isso. Primeiro a máscara vai em você. Se eu não coloco essa máscara, eu não vou conseguir ajudar ninguém.

Blog: E muitas vezes nós, mães, quando pensamos assim nos sentimos egoístas e somos inundadas por uma culpa gigante, ‘estou pensando mais em mim do que nos meus filhos’. Como a gente faz para se livrar desse sentimento?

Elisama: Olha, tem que ser um exercício intencional, da gente reconhecer ‘olha aqui essa culpa aparecendo de novo’, respirar e dizer para a gente mesma ‘eu tenho o direito de me cuidar’. Essa culpa é uma construção social, ela não é a verdade, é só um pensamento e a gente tem a mania de não questionar os nossos pensamentos, a gente acredita neles, de que pensar na gente faz com que sejamos mães ruins. Não. O ato de me cuidar é que me faz uma mãe melhor, que faz com que eu possa cuidar de todos os que estão sob os meus cuidados.

O livro ‘Por que gritamos?’ será lançado em 04/05

Blog: Os pais de hoje em dia têm mais ferramentas para cuidar dos filhos, mais do que os pais da gente tinham no passado. Temos a internet, os blogs, seu livro. E mesmo assim a gente sente muitas vezes que está falhando. Como lidar com essa expectativa de ser melhor e as possibilidades reais que a gente tem de ser melhor?

Elisama: A gente precisa ‘fazer as pazes com o passado’, ou seja, com os nossos pais e fazer as pazes com a parentalidade possível. Existe o ‘ideal’ e ele é maravilhoso, é incrível, mas ele é só o ideal. Ele não sangra, não vive, não tem problemas, o ideal não está vivo. Quem está vivo é você e você só consegue fazer o que é possível. E cada um de nós vai ter um possível diferente que também muda em cada fase da vida. Porque também tem esse detalhe: você pode conseguir falar calmamente com seu filho hoje e isso não garante a sua tranquilidade de amanhã. Então a gente precisa entender que a vida é essa dança. E que por mais expectativas que eu tenha, a minha realidade e minha história de vida vão me levar até determinados pontos. E aí eu volto àquela questão de substituir a certeza pela curiosidade. Em vez da certeza de que ‘uma mãe boa age assim ou assado’ eu tenho que ter a curiosidade de entender o porquê eu agi assim, sem nenhum julgamento, porque a gente se julga demais e tem vários rótulos para colocar em cada tipo de pensamento. Nossos pais fizeram o melhor com as ferramentas e os conhecimentos que eles tinham. E a gente faz o melhor diariamente, todos os dias nós acordamos dispostos a fazer o melhor para os nossos filhos. Não existe um pai ou uma mãe que acorde pensando ‘hoje eu quero acabar com a cabeça dessa criança’. A gente acorda querendo fazer o melhor e reconhecer essa nossa intenção é algo muito poderoso, sabe, Rita? Eu defino a autocompaixão como essa capacidade da gente reconhecer que merece amor, carinho e respeito independentemente das nossas falhas. Nós não somos as nossas falhas, nós não somos os nossos erros, somos muito maiores que isso.

Blog: Antigamente as relações entre pais e filhos não eram horizontais como eram hoje, né? Os pais colocavam as regras sobre a mesa e cabia aos filhos acatarem. Hoje a gente tenta ouvir mais as crianças. Qual o resultado disso?

Elisama: Quem é escutado escuta melhor. Nossos pais falavam, estipulavam as regras, mas vamos ser sinceros: quantas vezes a gente deixava de seguir as regras escondido deles? Quantas vezes eles falavam e a gente não estava sequer ouvindo o que diziam? Inúmeras vezes. Essa ideia de que ‘ah, antigamente o pai falava e a criança fazia!’ é uma ilusão, porque quando eles viravam as costas a gente fazia tudo diferente do que eles mandavam. A gente crescia mentindo para eles e mentindo muito.

Eu sempre digo, ‘escuta o teu filho!’ E escutar é diferente de atender, porque o nosso ‘não’ pode permanecer depois da escuta. Só que quando a gente ouve a gente está dizendo que o que eles pensam importa, o que sentem importa. E fica mais fácil de que eles se comprometam com aquela regra. E assim eu estou educando pessoas que quando adultas não vão engolir sapo por acreditarem que o que pensam é bobagem ou por medo do que os outros vão pensar da opinião deles. Pessoas que são escutadas crescem com a convicção de que as ideias delas são importantes.

Blog: Você propõe uma pergunta no título do livro e a gente tá sempre em busca dessa resposta. Por que gritamos, afinal?

Elisama: Nós gritamos porque nos escutamos muito pouco. A gente grita porque passamos do nosso limite e o grito é o alerta, o pedido de socorro, o ‘ei, você tá indo longe demais’ em algum setor da sua vida. Com seus sentimentos, com o seu trabalho, em diversas formas. O grito é o pedido para que você pare e se escute.

Blog: Ele é o sempre o sintoma de alguma coisa.

Elisama: Sempre. Porque ninguém acorda pensando, ‘hoje eu vou gritar e infernizar o juízo de todo mundo perto de mim’. A gente grita porque tem algo que precisa ser escutado, olhado e cuidado dentro de nós.

O livro “Por que gritamos? Como fazer as pazes consigo e educar filhos emocionalmente saudáveis” está em pré-venda e será lançado no dia 04 de maio.

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