A notícia de que o Brasil é o segundo país do mundo com mais infecções e mortes causadas pelo coronavírus infelizmente já não é mais novidade e nem causa o espanto que deveria causar. Nesta terça-feira, 14 de julho, amanhecemos com 1.884.967 casos confirmados da doença e 72.833 mortes, segundo a Universidade John Hopkins, instituição norte-americana que atualiza em tempo real os dados da doença em todo o mundo. E se no ranking geral nosso país só perde para os Estados Unidos no tamanho da tragédia, quando assunto é a morte de gestantes e puérperas pela Covid-19 o pódio é nosso: oito em cada dez grávidas e puérperas que morreram até agora de coronavírus em todo o mundo eram brasileiras.

O dado alarmante foi publicado em um estudo feito por enfermeiras e obstetras brasileiras ligadas a quatro universidades – Unesp, UFSCAR, IMIP e UFSC – e que foi aceito e publicado no último dia 9 de Julho no prestigiado International Journal of Gynecology and Obstetrics. O grupo ‘filtrou’ dados públicos disponibilizados pelo Ministério da Saúde sobre as internações por Síndrome Respiratória Aguda Grave causadas pelo coronavírus. “Até o dia 18 de junho tinham sido notificadas 160 mortes maternas em todo o mundo e o Brasil era responsável por 124 dessas mortes. São 188 territórios afetados pelo coronavírus e o Brasil tem mais mortes maternas que a soma de todos esses países”, afirma a professora e médica obstetra Melania Amorim, uma das profissionais de saúde que integraram essa força-tarefa, montada e executada sem financiamento algum.

Segundo o estudo, a SRAG causada pela Covid-19 foi diagnosticada no Brasil em 978 mulheres grávidas e puérperas entre os dias 26 de fevereiro e 18 de junho.  “Como apenas as mulheres que apresentam sintomas graves são testadas, o número de infecções por Covid-19 nessa população é subnotificado”, afirma o paper. “O presente estudo encontrou 124 mortes de mulheres grávidas ou no pós-parto, um número 3,4 vezes superior ao número total de mortes maternas relacionadas ao Covid-19 relatadas em todo o mundo no momento da redação deste documento”, conclui. Melania conversou com o blog na última sexta-feira, um dia depois a publicação da pesquisa na aclamada revista médica.

Blog: Como vocês obtiveram esses dados?

Melania: A gente pegou a planilha do SIVEP-Gripe (Sistema de Informação da Vigilância Epidemiológica da Gripe, do Ministério da Saúde) e lá constam as internações por SRAG, a Síndrome Respiratória Aguda Grave (segundo definição no site do Ministério da Saúde, pacientes são assim classificados se apresentarem dispneia/desconforto respiratório ou pressão persistente no tórax ou saturação de oxigênio menor que 95% em ar ambiente ou coloração azulada dos lábios ou rosto). O sistema fornece dados de todas as internações por SRAG no Brasil e é possível separar as que foram causadas pela Covid, permitindo que se faça vários recortes: por sexo, idade, cor, quais as comorbidades relacionadas. E aí a gente conseguiu ‘resgatar’ as gestantes e puérperas e vimos que 124 mulheres morreram no Brasil do dia 26 de fevereiro até o dia 18 de junho.

Blog: Esses dados são públicos, ou seja, basta ter a paciência de pesquisar.

Melania: Sim, e foi dificílimo. A gente conseguiu algumas informações interessantes e agora que o trabalho foi publicado no International Journal of Gynocology and Obstetrics elas já são de domínio público. A maioria desses óbitos aconteceu no puerpério, ou seja, até 42 dias depois do nascimento do bebê, e houve uma associação importante com três comorbidades: obesidade, doença cardiovascular e diabetes. Só que o sistema não diferencia hipertensão de pré-eclâmpsia (doença específica da gravidez que causa hipertensão arterial durante a gestação), não diz se a mulher já era ou não cardiopata.  Mas, mesmo assim, muitas mulheres saudáveis morreram. O pior de tudo é que 28% dessas mulheres que morreram não chegaram sequer a dar entrada em uma UTI, 15% não receberam nenhuma modalidade de assistência ventilatória. Entrando ou não na UTI, apenas 64% foram intubadas e ventiladas, ou seja, 36% delas não foram. A falta de acesso a assistência é muito crítica.

Blog: Então dá para inferir que muitas mulheres morreram de coronavírus em uma situação de sofrimento.

Melania: Numa situação de extremo sofrimento.

Reunião online do grupo de pesquisadores brasileiros. À direita, Dra Melania Amorim.

Blog: Foi possível descobrir por esses dados se os bebês dessas mulheres que morreram também foram a óbito?

Melania: Não, por esses dados não. A gente está tentando extrair essas informações de bancos de dados e de comitês de mortes maternas para fazer um trabalho mais completo. Estamos precisando de dinheiro, de financiamento, porque o que a gente quer é ir atrás desses prontuários médicos, um a um, para poder obter informações mais completas. Até agora o estudo foi financiado por nós, por dedicação à causa.

Blog: Se comparadas com as mortes maternas de outros países, como está o Brasil?

Melania: Até dia 10 de julho, o que a gente tinha de oficial no mundo eram 160 mortes maternas e o Brasil é responsável por 124 dessas mortes. São 188 territórios afetados pelo coronavírus e o Brasil tem mais mortes maternas que a soma de todos os países. Aqui tivemos 978 casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave com Covid confirmado, mas a gente sabe que há subnotificação, e isso está acontecendo porque não tomaram as providências básicas para conter a evolução da pandemia. Os serviços estão sobrecarregados e parte desses óbitos está acontecendo em maternidades e hospitais secundários, muitas mulheres não chegam a ter acesso a Unidades de Terapia Intensiva. Não há diferença de idade entre as morreram e as que não morreram (a idade média é 30 anos). A gente não conseguiu fazer o recorte racial,  porque tem muita informação incompleta sobre isso e pode ser que esse apagamento da informação ‘cor’ já seja um indicativo de um recorte racial, mas aí a gente precisa insistir que essa informação conste nas planilhas

Blog: Qual foi a mortalidade em outros países?

Melania: Os estudos iniciais feitos na China e nos países asiáticos, nações com uma taxa de natalidade muito baixa, mostraram poucos casos da doença em gestantes. Embora tenha acabado a política de filho único, isso ainda é cultural lá, os casais chineses não querem mais de um filho. Japão, Cingapura, Coreia do Sul também são países com menos gestantes. Na Europa, em países como a Itália e Espanha, com uma taxa de natalidade baixa e crescimento populacional negativo, também há um número relativamente pequeno de grávidas e puérperas com coronavírus.

Blog: Como está a morte materna por coronavírus nos Estados Unidos, país que está no topo no número de casos?

Melania: Eu já estava prevendo que o país mais parecido com a gente talvez fosse os Estados Unidos pelo maior número de mulheres grávidas e por conta da desigualdade no acesso à saúde como aqui. Saiu um estudo do CDC (Centers for Disease Control and Prevention) agora no final de junho, com uma base de dados imensa, que mostrou que a grávida com coronavírus tem maior risco de precisar se internar, de necessitar de UTI, de ventilação mecânica, mas diferentemente do nosso estudo, lá não foi apontado um maior risco de morte dessa população. Nos Estados Unidos houve 16 mortes entre cerca de 8 mil gestantes que contraíram o coronavírus. Então, possivelmente, a gestante deve ter maior risco de complicação, mas só se não tiver acesso a assistência adequada, que é o que está acontecendo por aqui.

O que a pesquisa feita pelo grupo brasileiro mostrou:

No período de 26 de fevereiro a 18 de junho, o SIVEP-Gripe (Sistema de Informação da Vigilância Epidemiológica da Gripe, do Ministério da Saúde) apontou que 978 mulheres, gestantes e puérperas, tiveram a Síndrome Respiratória Aguda Grave causada pelo coronavírus; 680 estavam grávidas, 74 dessas gestantes foram a óbito (9,8% de mortalidade); 174 já tinham dado à luz seus filhos há até 42 dias quando foram infectadas, 50 delas morreram (22,3% de mortalidade). A maioria das vítimas fatais era ‘não branca’ (71 mortes, 13,9%), mas esse número pode ser maior, pois não há informação racial em 30 óbitos de mulheres brasileiras vítimas de coronavírus (12,9%).

Percentualmente, a maioria das mortes ocorreu na região Norte (15,3%) e do Nordeste (16,1%). Na região sul, 35 gestantes e puérperas tiveram coronavírus no período estudado e todas se recuperaram.

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