Foto: Marta Wave no Pexels

A internet pode levar as crianças de hoje para lugares que nós nem sonhávamos frequentar na nossa infância. Nossos filhos podem assistir às aulas de dentro de casa, fazer pesquisas e assistir os vídeos que quiserem, desenhos animados para os quais nunca tivemos acesso, além de arrumar amigos, encontrar gente, jogar. E dentre essas várias janelas para o mundo, o YouTube é uma plataformas das mais populares. Lembro do meu filho, ainda pequeno, querendo me explicar por que o YouTube “era mais legal que a tevê”. “Eu posso assistir o que eu quiser na hora que eu quiser, não só quando está passando, main.” Só que a gente se preocupa, claro, porque é difícil controlar o que os nossos filhos consomem por lá, já que um vídeo leva a outro e a outro e a outro. Nesse cenário de medos e incerteza, a primeira reação de muitos adultos é tentar proibir o acesso, o que é um erro, segundo Renata Tomaz, pesquisadora UFF e FGV-DAPP, doutora em comunicação e conselheira do Criança e Consumo, do Instituto Alana. “O que a gente entende hoje é que o cyberespaço, a internet, o ambiente virtual é um ambiente de exercícios de direitos hoje, de acesso aos serviços, então ele precisa ser amigável às crianças, a gente precisa criar formas de ele ser amigável às crianças onde ele não é”, explica. Ela é uma das palestrantes do 4º Fórum Internacional “As infâncias na era da convergência digital”, que vai até dia 17/11 e conversou com o blog.

Blog: No seu doutorado você estudou sobre o uso que as crianças fazem das plataformas digitais, como o caso do Youtube. Eu queria que você contasse pra gente o que é que você descobriu sobre esse uso.

Renata: A minha pesquisa de doutorado foi pra entender como as crianças que produzem conteúdo audiovisual na internet, particularmente para o YouTube, desenvolvem suas competências, como que as usam, como se inserem. E dentre os muitos achados da pesquisa está o de que as crianças começam a descobrir nesses ambientes as referências entre os pares. E isso faz com que percebam ou sejam motivadas não a aquilo que elas podem ser o futuro, mas o que elas podem ser hoje, no presente, inspiradas nas próprias crianças que estão produzindo conteúdo.

Isso faz com que elas busquem o reconhecimento hoje e se sintam muito motivadas a produzir esses conteúdos inicialmente como uma narrativa de si mesmas. Mas tão logo elas conseguem se beneficiar financeiramente com esses conteúdos, a natureza dessa produção se altera e deixa de ser uma produção para reconhecimento social, uma expressão cultural e essa (produção) passa a ter uma natureza comercial, uma natureza de produto, e isso muda a natureza da ação das crianças nesses espaços. O YouTube é uma janela para as crianças verem o mundo, mas é também uma janela pro mundo olhar as crianças, ou seja, é uma forma de a gente também compreender o dia a dia delas, seu cotidiano, é uma forma de a gente compreender as infâncias contemporâneas e tentar ter um pouco de escuta.

Blog: Você ouviu as crianças na sua pesquisa?

Renata: Eu busquei escutar um pouco as crianças e muitas vezes a gente como pai,  mãe, educador ou especialista, quando falamos com as crianças estamos sempre buscando formas delas nos ouvirem, buscando maneiras de compreenderem o que a gente tá dizendo, falamos das formas que a gente gostaria que agissem e muitas vezes não ouvimos o que elas pensam do mundo. Então eu percebi que as crianças encontram nesses espaços pessoas que as escutam, que consideram a visão que têm do mundo e isso pra elas é muito importante. E quando buscam produzir conteúdo essa é maneira delas conseguirem se dizer, se narrar, contar o que pensam, quais são as suas angústias, suas necessidades.

É importante que a gente enquanto adulto de uma outra geração pare um pouco e consiga criar modos de fazer essa escuta, para que as crianças não tenham apenas como interlocutores esses atores mercadológicos. Uma vez que elas começam a falar e produzir sentido, uma vez que começam a produzir visão de mundo, as marcas, por exemplo, vão lá, ouvem e se inserem nessas narrativas e começam a conversar com elas, reconhecê-las como interlocutoras. A pesquisa me ajudou a perceber o quanto que é importante a gente fazer uma escuta ativa das crianças pra que elas possam ampliar esse escopo de interlocuções e possam nos incluir e não ficar tão vulneráveis a esses outros interlocutores, digamos assim.

Blog: Interessante que você vê ‘o lado positivo’ do YouTube – geralmente pais, mães e cuidadores se preocupam e acreditam que existam apenas motivos para se preocupar quando os filhos acessam essa plataforma, tanto para produzir quanto para consumir conteúdo. 

Renata: É curioso que sempre que eu falo as pessoas sempre reagem como você, ‘ah, você vê o lado positivo’. Não sei se a palavra seria positivo, mas certamente o que eu vejo é que (o YouTube) é importante para as crianças. Eu acho que ter feito essa pesquisa e também ter um filho me ajudaram a compreender dessa maneira. Eu via o meu filho assistir a determinados conteúdos e eu criticava muito, eu falava para ele ‘ah, isso é muito ruim, não tem qualidade’. E aí um dia ele falou ‘mãe, eu fico muito chateado quando você fala assim comigo das coisas que eu gosto porque eu não critico as coisas que você gosta.’ Eu fiquei muito surpresa de ouvir a resposta dele, que agora está com 12 anos, mas na época devia ter talvez uns 9, uns 10 anos. Aí eu mudei a minha abordagem, passei a perguntar por que ele gostava daquilo. E ele me dizia ‘porque eu rio, mãe, porque é engraçado, porque ele fala de coisas que realmente acontecem com a gente, entende?’. Então eu entendi, pesquisando e observando em casa, empiricamente, que às vezes é mais produtivo saber por que é que aquilo importa pra elas. É importante que a gente consiga criar uma linha de diálogo a partir daquilo, que a gente consiga orientar da melhor maneira.

A pesquisadora Renata Tomaz

Blog: E é legítimo que os pais tenham medo do que os filhos assistem no YouTube?

Renata: Eu, como mãe, sou uma pessoa que está atenta e muitas vezes eu tenho medo sim. E olha que eu pesquiso. Eu acho que o medo tem uma dimensão do desconhecido, eu não sei quem está ali, não sei quem está ali falando com o meu filho, com a minha filha, eu não sei por quem eles estão sendo abordados. E é justamente por que eu sei o que acontece ali, eu sei quem está ali, que isso me traz um certo temor, que isso me traz medo. No ambiente doméstico, no ambiente escolar, que são onde as crianças mais estão, de alguma maneira nós temos um certo domínio sobre o que é dito ali, a gente sabe mais ou menos o que é que vai ser falado, os tipos de valores que estão ali circulando. Mas quando há outros atores conversando com a crianças, outras entidades, outras figuras, outros indivíduos, a gente não sabe que tipo de conteúdo é esse, que tipo de valores, que tipo de visão de mundo é essa, por exemplo, que eles estão recebendo.

Quais são esses perigos? Todo espaço, se a gente for pensar e comparar com o espaço físico, é pensado pra um determinado grupo, é amigável pra aquele grupo. E, pra um outro grupo, para o qual aquele espaço não foi pensando, não é amigável. Então a gente precisa perceber aquilo que é hostil a um determinado grupo estranho àquele espaço. Isso acontece na internet.

Vamos lembrar que a internet surge nos anos 40 como uma estratégia militar. Claro que ao longo das décadas ela vai sendo modificada, vai sendo desenhada,  apropriada por diferentes interesses, por diferentes objetivos, vai sendo transformada, até que a gente chega nesse momento em que as crianças estão lá também, entraram lá também. Mas ela não foi desenhada dessa forma, então ela é hostil, o ambiente da internet é um ambiente hostil.

E eu não digo isso no sentido de que as crianças têm que ser tiradas de lá, porque essa foi uma tentativa nos anos 90 tanto nos Estados Unidos quanto na Europa, houve campanhas na Europa muito fortes pra que as crianças fossem tiradas da internet e isso não resolveu o problema. E o que a gente entende hoje é que o cyberespaço, a internet, o ambiente virtual, o ambiente on-line, não sei como cada um vai chamar, é um ambiente de exercícios de direitos hoje, de acesso aos serviços, então ele precisa ser amigável às crianças, a gente precisa criar formas de ele ser amigável às crianças onde ele não é.

Blog: E onde estão esses problemas?

Renata: Primeiro nessa abordagem comercial que é feita às crianças – a gente sabe que a publicidade infantil é considerada abusiva no nosso país, não de agora, mas há algum tempo, então as crianças ficam vulneráveis a essas intervenções, essas interpelações mercadológicas.

As crianças também ficam vulneráveis em relação à sua privacidade, elas querem participar ativamente, querem colocar suas imagens, gravar vídeos, até as próprias famílias e muitas vezes essa privacidade não é bem desdenhada, bem endereçada. E quando a gente pensa no uso de dados das crianças, hoje, com a Lei Geral de Proteção de Dados no Brasil, os dados das crianças e adolescentes são considerados sensíveis, eles estão protegidos então por lei, mas a maneira como esses dados são tratados muitas vezes permite que sejam criados perfilamentos, perfis específicos que propiciam uma abordagem muito direcionada para as crianças, sobretudo comercialmente falando. E também há aqueles perigos que a gente tem falado bastante nos últimos anos, que tem chamado muito a nossa atenção, que são ligados a ações de pedofilia através do uso de imagens de crianças que são postas ali de maneira muito natural, e pelas próprias famílias muitas vezes.

Há um fenômeno hoje chamado sharenting, que é a prática dos pais compartilharem as imagens das crianças e muitas vezes as imagens sobre as quais não se têm mais controle quando são publicizadas são utilizadas pra fazer bullying, pra expor as crianças. Então é um espaço que precisamos que se que mude para que seja cada vez mais amigável para as crianças, de modo que as crianças e os adolescentes possam exercer o seu direito de acesso à informação, exercer o direito à liberdade de expressão, exercer o seu direito à comunicação de uma maneira segura.

Blog: Antes da pandemia, muitas mães e pais se preocupavam muito com o tempo excessivo nas telas. Durante o isolamento social esse controle ficou muito difícil, porque o computador, o tablete e o celular foram o único acesso à escola, aos amigos, familiares. A gente sempre teve medo de que as telas pudessem tirar a criança do ‘lá fora’, da brincadeira ao ar livre, do brincar em si.  O que é que você descobriu na sua pesquisa? A internet ‘rouba’ as crianças desses outros espaços ou a internet também é uma forma de brincar?

Renata: É  bem desafiador isso. A primeira parte da minha pesquisa foi feita fora do cenário pandêmico e eu tinha exatamente essa ideia, de encontrar crianças avessas à natureza, ao contato presencial, pessoal, face a face, achava que eram crianças que gostavam de ficar trancadas nos seus quartos. E de fato encontrei crianças assim, que gostam de ficar em casa e que foram criadas assim por inúmeros fatores, como o medo da violência, por exemplo. Mas eu descobri que elas estavam criando formas, a partir dessa produção e consumo de conteúdo na internet, de brincar.

Então de fato eu percebi que o fato de uma criança estar ali diante da tela, estar consumindo aqueles conteúdos não significa que ela não desenvolva outras atividades lúdicas ou que ela não se importe, não goste, ou que ela se torne avessa ao brincar. Só que pra gente até então era difícil legitimar esse tipo de atividade como uma brincadeira real, a gente costumava usar muitas expressões do tipo, ‘olha, brincadeira de verdade é quando eu ia pra rua, vocês não sabem o que é brincar, vocês não sabem o que é se divertir’. A gente tinha muito esse discurso.

E na pandemia, nós adultos, por exemplo, tivemos que fazer reuniões, contratar pessoas, fechar negócios, fazer entrevistas e tudo está valendo, tudo isso é real, tudo isso é de verdade, nada disso quando a pandemia passar vai perder a legitimidade.  Então acho que a pandemia ajudou a gente a mostrar que muito do que se faz com a mediação das telas é de verdade, acontece e que isso vai ajudar a gente a compreender um pouco como os mais jovens, como as crianças e os adolescentes, que já faziam isso antes da gente, que já legitimavam esses processos antes da gente, lidam com isso. Então eu acho que vamos ser um pouco mais tolerantes nesse sentido, um pouco mais empáticos nesse sentido.

Por outro lado, observando e conversando com outros pesquisadores, com outras pessoas que também estão voltadas pra essa questão durante a pandemia, a gente percebe que esses processos que foram necessários e importantes pra manter o contato com os familiares, poder estudar e se divertir também dessa forma não são amplamente suficientes ou completamente suficientes. Esses processos, de uma forma curiosa, denunciaram a nossa necessidade de estar em contato. De modo que algumas pesquisas, alguns levantamentos vão mostrar o desejo das crianças e dos adolescentes de voltarem pra escola. O quanto eles quiseram voltar pra escola, o quanto eles quiseram estar de novo com os amigos. Claro que aprenderam a fazer muitas coisas a partir de casa, mas o período ajudou a gente a perceber que há coisas que, não vou dizer assim, são completamente insubstituíveis, mas que são muito importantes, estão fora das telas certamente.

Blog:  Eu queria que você desse algumas dicas para os pais pra lidarem de uma forma mais positiva com toda essa relação nova das crianças com essas novas mídias, com as telas, com o Youtube, com Tik Tok, todas essas redes que a gente só conheceu adulto. Como a gente não teve essa vivência na infância, talvez por isso a gente estranhe tanto. 

Renata: Acho que a gente pode começar falando sobre os conteúdos, acho que é importante os pais ajudarem as crianças e os adolescentes entenderem um pouco mais o quanto muitas vezes aqueles conteúdos não são naturais, enfim, ajudar as crianças a entender que muitas vezes o Youtube está mostrando uma roupa, um brinquedo, um estilo de vida, mas aquilo é muitas vezes resultado de uma relação comercial, que aquela pessoa está sendo paga, recebeu algo por aquilo. Então acho que é importante os pais ajudarem as crianças a desnaturalizarem essas questões para que sejam mais críticas com relação a esse conteúdo.

E com isso digo em seguida que não adianta a gente apenas criticar a qualidade muitas vezes do que a gente não gosta muito, mas eles gostam. E de novo, perguntar pra eles o que eles estão procurando, que interesse eles têm naquilo. ‘Puxa, mãe, eu gosto desse canal porque ele mostra lugares incríveis.’ Talvez essa criança esteja mostrando que ela gosta de conhecer lugares novos, experimentar coisas novas e talvez esse seja um convite pra explorar um parque, um museu, talvez seja interessante. Ao invés de desqualificar o que eles estão vendo, procurar entender qual o interesse deles e assim poder oferecer outras formas pra além daqueles conteúdos que possam atrair. E manter essa criança em diálogo com você.

Também é super importante enfatizar, repetir, dizer muitas vezes que as crianças não devem ceder os seus dados, os seus nomes, número de telefone, onde mora, nome da escola, dados que as identifiquem na internet. Não devem escrever isso, não devem divulgar de maneira nenhuma, porque isso expõe a sua família, expõe a sua casa, e as expõe também. É a releitura do ‘não fale com estranhos’, em hipótese alguma converse com estranhos.  E sobre as imagens que elas postam, sobre o modo como elas se apresentam, ajudar as crianças e os adolescentes sobre como elas vão se expor, mas também conversar com elas sobre como elas estão expondo, por exemplo, os amigos. Às vezes a gente fica muito preocupado em proteger os nossos filhos de possíveis ações, mas às vezes a gente fala pouco com eles sobre como não expor outras crianças, outros amigos. Então dizer para os nossos filhos, ‘olha, cuidado com essa imagem que você tá colocando do seu amigo, cuidado com esse comentário que você tá fazendo, cuidado com esse ‘ahahaha’ que você está postando na foto desse seu amigo, da sua amiga, cuidado pra você não estar fomentando discursos de ódio, discursos preconceituosos em relação aos seus colegas de escola ou de outros ambientes’. É muito importante que a gente se preocupe sim com os nossos filhos, mas que a gente perceba também se os nossos filhos não estão sendo disseminadores ou multiplicadores de discursos perigosos na internet.

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