Foto: Reprodução Instagram

Há mais ou menos dois anos escrevi um texto sobre Felipe Neto que causou um rebuliço na minha vida (e na dele também). Motivada pela reclamação pública de uma amiga mãe de três filhos, deixei o algoritmo do YouTube me levar e assisti a alguns vídeos de seu canal para escrever uma coluna aqui nesse mesmo espaço no Estadão. Vi um rapaz que pintava os cabelos de cores berrantes, fazia piadas com a forma física do seu assistente (entre outros comportamentos impensáveis para os dias de hoje) e que, entre gritos e palavrões, tentava vender livros para sua audiência, formada basicamente por crianças, embora seu canal não fosse dedicado ao público infantil.

A tal coluna, do início de 2018, podia ser apenas uma dentre tantas que escrevi desde que ganhei esse espaço para falar de maternidade, educação e criação de filhos. Só que, para minha surpresa, vira e mexe esse texto volta à cena e viraliza, transformando-se em uma arma contra Felipe Neto, usada principalmente por pessoas ligadas ao Bolsonarismo e ao ‘gabinete do ódio’. Ontem mesmo fui marcada no Twitter e no Instagram por pessoas que ‘ressuscitavam’ meu texto e aproveitavam para destilar seu ódio ao contra o youtuber. Mês passado foi Antônia Fontenelle que usou minha coluna em sua campanha incansável para destruir Felipe Neto e seu irmão, o também youtuber Luccas Neto. A atriz me marcou no Instagram em posts onde ligava os dois à pedofilia – uma acusação grave, leviana e criminosa, sem lastro algum com a realidade. Os posts já foram derrubados pela Justiça e Fontenelle está sendo processada pelas suas publicações.

Eu sempre fui responsável pelo que escrevo (e não pelo que as pessoas entendem), mas confesso que me sinto incomodada quando percebo que algo que escrevi é lido e compartilhado fora de seu recorte temporal e usado como instrumento para destruir a reputação de alguém. Felipe Neto mudou radicalmente de postura, tirou centenas de vídeos do ar, colocou outras centenas com classificação indicativa, voltou atrás em posicionamentos, pediu desculpas por certos comportamentos e chamou várias pessoas que o criticavam publicamente para um diálogo. Sim, Felipe Neto me chamou para uma conversa, aceita há algumas semanas e que virou uma entrevista que pode ser lida aqui. Ele fala por que reviu algumas posições, como é amadurecer em frente às câmeras e por qual razão decidiu começar a se posicionar politicamente.

O youtuber há alguns anos já tinha vindo a público mostrar sua disposição a dar uma guinada em sua carreira, imagem e negócios quando, por exemplo, decidiu banir a funkeira MC Melody de seu canal (a menina, uma criança de de 11 anos, apresentava-se em trajes mínimos e sensuais), quando comprou e distribuiu milhares de livros de temática LGBT que foram alvo da censura do prefeito do Rio de Janeiro durante a Bienal, quando fez vídeos para explicar como as fake news são usadas como instrumento político e de destruição de reputações, explicou  por que decidiu não fazer mais piadas gordofóbicas com o seu assistente e, ontem, quando publicou um vídeo lindo explicando transfobia, suas consequências e as incoerências dos cidadãos ditos ‘de bem’ que puxam boicotes contra empresas que colocaram pessoas trans em pauta. Felipe Neto tem uma audiência de 39 milhões de pessoas no YouTube, ou seja, tem mais seguidores que as cantora Rihanna e Beyoncé, e eu só consigo aplaudir quando uma pessoa percebe a força que tem e resolve agir com responsabilidade e consciência social.

Felipe Neto fez o que muitos se recusam a fazer: reviu posições, pediu desculpas, foi a público dizer que errou, mudou de ideia, afirmou que cresceu, chamou as pessoas que o criticaram para a conversa e pediu uma oportunidade para mostrar o seu novo ponto de vista. E eu fiz o que todo jornalista deveria fazer: aceitei o diálogo, abri os ouvidos e concedi o espaço. Por isso, se você for impactado pelo meu texto antigo, peço que leia este, escrito em agosto de 2020. Felipe Neto mudou e minha percepção sobre ele também. Que bom.

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