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Hoje recebi um meme que mostrava a chegada de um viajante do tempo que logo perguntava em que ano estávamos. Quando ouvia que tinha desembarcado em 2020, dizia: ‘ah, sim, o primeiro ano da quarentena!’

Embora essa seja uma imagem que retrate de forma cômica a incerteza em que estamos vivendo, sabemos que o isolamento pode estar longe do fim. Uma pesquisa publicada essa semana pela revista científica Science aponta que um distanciamento social intermitente pode ser necessário até 2022, segundo pesquisadores da universidade norte-americana de Harvard. Aposto que o tal meme foi criado depois da publicação desse estudo, já que antes disso nem os mais catastrofistas poderiam imaginar uma conjuntura tão desoladora.

Piadas e incertezas à parte, o cenário atual tem nos feito a repensar à força nossa relação com a vida (e a morte), com a casa, o trabalho, a escola dos nossos filhos e a família. E para os pais não é mais possível terceirizar nada – e  essa é uma constatação, não uma crítica. Se antes você não precisava se preocupar com o almoço porque seu filho almoçava todos os dias na escola (e você perto do trabalho), tinha alguém que limpava sua casa e alfabetizava seus filhos, há algumas semanas você acordou tendo de acrescentar mais essas funções em seu job description. Algumas obrigações não eram totalmente suas e só por isso você conseguia ser aquela pessoa que era antes, aliás.

Só que esse tempo passado não existe mais. O presente parece aquém do ideal e a culpa não é sua (e ia escrever ‘nem de ninguém’ quando me lembrei que há, sim, pessoas que tinham a obrigação institucional de se antecipar ao caos e evitar que ele acontecesse, assunto esse para as colunas de política). E quando a gente entende que no momento é humanamente impossível fazer mais do que se faz, o caminho a seguir é o de aceitar o que se tem.

E ‘o que se tem’ é uma incerteza angustiante em relação ao futuro, uma casa implorando por mais cuidados, um trabalho que pode escapar por entre os dedos (se é que já não escapou) e a sensação urgente de ter preservar a sanidade mental das crianças que sofrem com a ausência dos amigos, do recreio e do parquinho, enquanto tentam entender quase que sozinhos a divisão com três números na chave da lição de matemática. Se antes já se tinha dificuldade em compreender porque nos ensinavam certas coisas, agora esse estranhamento é cada vez mais tangível. Dia desses um amigo contou que o filho pequeno se rebelou contra as aulas online com um sonoro ‘isso não é escola!’ O menino duvidava, ainda, que aquela do outro lado da tela era a professora tão querida que ele conhecera no início do ano letivo. Todos nós mudamos absurdamente, inclusive ela.

Eu mesma olho no espelho e não me reconheço. Será que se fôssemos nós os tais viajantes no tempo que pudessem desembarcar nesse futuro hipotético pós-pandemia a gente iria se reconhecer?

O DeLorean que permitia as viagens no tempo em ‘De volta para o Futuro’, filme de 1985

Eu procuraria descobrir primeiro se sobrevivi ao vírus. Se sim, ufa, gostaria de saber em que tipo de pessoa me transformei depois disso tudo. Será que tirei boas lições desse período, aprendi a consumir menos, gastar menos, viver melhor? Também procuraria pelo meu pai, meus tios, cunhados, amigos, conhecidos. Os que fizeram pouco caso dessa crise estão vivos? E os relacionamentos? Quais se fortaleceram em meio à pandemia e quais terminaram perante à realidade (dura) da divisão de tarefas? E as crianças? Amadureceram à força ou enlouqueceram em meio a falta de relacionamentos reais no período mais importante da sua formação?

O único problema é que se um DeLorean do “De Volta para o Futuro” aparecesse agora eu não saberia como ajustar o painel que controla a data para onde o capacitor de fluxo levaria essa máquina do tempo. Para daqui a um mês, dois meses, seis meses, um ano? Eu gostaria de ser levada para o último dia da quarenta, por favor.

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