Foto: Pixabay

A gravidez da jornalista Denise Godinho, 32, não foi planejada, mas foi muito comemorada por ela e pelo companheiro, Raphael. Os avós logo entraram no clima: o pai de Denise foi quem construiu o bercinho para o neto e todos estavam de malas prontas para se revezar nos cuidados dos primeiros tempos com o bebê.  Mas desde que a pandemia de coronavírus foi decretada pela OMS e o isolamento para evitar a transmissão da doença começou em São Paulo, tudo mudou. Denise parou de receber visitas e logo se conformou com a ideia de que o nascimento de Pedro ia ser um evento ‘intimista’, só com ela e o pai do bebê. Mas não imaginava que até o marido pudesse ser vetado no momento do parto. Pelas redes sociais ficou sabendo que a Amparo Maternal, maternidade escolhida para dar à luz seu filho, ia impor essa proibição. “Eu vi que estavam reduzindo a participação do acompanhante, que entraria só na hora da fase expulsiva e aí me imaginei sozinha durante todo o trabalho de parto e me desesperei”, conta. “Eu entendo proibir visitas, fotógrafo, doula. É um período de crise e a gente tem que entender essas medidas para preservar os pacientes e funcionários do hospital. Mas limitar a participação do acompanhante é uma violência. Porque não faz muita diferença ele em uma sala de espera com outras pessoas enquanto estou em trabalho de parto. Seria muito mais sensato deixá-lo comigo o tempo todo. É um direito meu ter um acompanhante durante a fase de pré-parto, parto e pós-parto, e é direito dele poder ver o filho nascer”, afirma.

A jornalista Denise Godinho e o marido, Raphael

O direito da gestante e da puérpera em ter uma acompanhante é respaldado pela Lei Federal nº 11.108, de 07 de abril de 2005. A manicure Lanna Dias, 24, conhecia essa determinação e não aceitou a possibilidade de o marido não estar ao seu lado durante o nascimento da filha do casal, Flora. “A justificativa que me deram era que o Ministério da Saúde determinou que agora era assim.  Mas eu entrei no site e não havia nada disso”, conta. (A nota técnica Nº 7/2020 do Ministério da Saúde sobre o atendimento às gestantes não faz nenhuma menção à restrição de acompanhantes.) Quando entrou em trabalho de parto, decidiu não ir à Amparo Maternal, mas sim ao Hospital do Ipiranga, que também atende pelo SUS, que garantiu o direito do marido a assistir o nascimento da filha e o dela em ter um acompanhante. “Não tem como você passar pelo parto sem o apoio de alguém. Meu marido olhava nos meus olhos e dizia o quanto eu era forte, via a dosagem de todos os medicamentos. Não tem como você estar 100% lúcida quando está parindo, por isso ter uma pessoa ao lado é essencial”, explica.

Publicação da Amparo Maternal no Instagram

No Instagram da Amparo Maternal é grande o descontentamento de mães que viram o anúncio das novas medidas pelas redes sociais.

“Isso é um absurdo! Passamos meses confiando na maternidade, depositando nossas esperanças e nos sentindo acolhidos (eu e meu parceiro). Confiantes no respeito durante o parto que nos seria proporcionado. Meu marido participou e participa de cada segundo da gestação, e hoje tive que ver ele angustiado, desesperado, junto a mim, que também me vi sem chão com essa decisão. Convivemos juntos todos os dias. Se ele tiver Corona eu também tenho. Essa medida é inadmissível. Contra a lei. É direito dele, meu e do nosso filho ter o pai dando suporte durante todo o trabalho de parto e no puerpério. Revejam essa medida absurda. Nós gestantes e nossos bebês não somos grupo de risco e tenho certeza que outras medidas podem ser tomadas para preservar o ambiente hospitalar, sem ferir ESSE DIREITO da parturiente de ter suporte emocional daquele que ama. Decepcionante ver uma medida dessas ser tomada pelo @amparomaternal, uma vez que fere todos os valores da instituição e só desestabiliza emocionalmente todas as mães que estão já para ganhar bebês e decidiram confiar em vcs”, publicou uma mãe.

“Estudaram o quê? Estudaram nada. Abandonar a mulher é o melhor a se fazer para o binômio mãe-bebê?Acompanhante que só entra pra ver bebê nascer não ajuda em nada, não AMPARA a mulher. Não a abraça e incentiva a se movimentar para promover um bom e evolutivo trabalho de parto. Não a ajuda a se alimentar quando vem a dieta e ela mal pode pensar em comida naquele momento. Isso é um desserviço e eu tenho vergonha dessa escolha que vocês tomaram. Do abandono, do sofrimento que vocês estão promovendo — bem nesse momento, em que já estamos todos sofrendo o bastante , para que também nos sejam tirados nossos direitos básicos garantidos por lei. #repúdio #lamentável”, escreveu uma doula. 

Por meio de nota, a Amparo Maternal afirma que “suspendeu a visitação em todas as dependências da maternidade e, como acompanhantes às gestantes e parturientes, são permitidas apenas pessoas sem qualquer sintoma como tosse, coriza ou febre. Enquanto instalamos a mãe, o acompanhante deverá aguardar em um espaço separado, e quando ela estiver pronta, ele poderá entrar para acompanhar o nascimento da criança. Após o parto, pedimos que o acompanhante não permaneça no puerpério e aguarde o momento da alta para buscar a mãe e o bebê. Levando em conta a atual estrutura do Hospital, que atende 100% via Sistema Único de Saúde (SUS) e realiza em média 560 partos por mês, essa foi a melhor forma encontrada, junto ao corpo clínico, para minimizar os riscos de contaminação durante todo o processo”. 

Nesta segunda, 13/04, a Amparo Maternal nos enviou nova nota, que publicamos na íntegra abaixo.

“NOTA À IMPRENSA

Com relação à matéria publicada em 9/4/2020 no portal Emais, do Estadão, o Hospital Amparo Maternal reforça que todas as medidas adotadas durante a pandemia do novo coronavírus foram exaustivamente estudadas junto ao nosso qualificado corpo de médicas e enfermeiras obstetras, especialistas em parto natural e humanizado, e tem o único objetivo de proteger o binômio mãe e bebê, que sempre foram nossa prioridade, durante um momento excepcional de crise na área da saúde em todo o planeta.

Reiteramos que os acompanhantes não estão proibidos, e os pais continuam liberados para assistirem ao parto. Após o nascimento, por contarmos com alojamentos conjuntos, em que mães e bebês dividem quarto e banheiro, optamos por seguir a recomendação de distanciamento social proposta pela Organização Mundial da Saúde e orientar o pai a se ausentar desse momento, estando presente na hora da alta médica. A medida tem tido boa aceitação e compreensão dos nossos pacientes, e todas as reclamações registradas nas redes sociais e na Ouvidoria da Instituição foram devidamente respondidas por meio do Serviço de Atendimento ao Cliente.

O Amparo Maternal ressalta que atende prioritariamente gestantes em situação de vulnerabilidade social, não é referência para atendimento da Covid-19 e não contempla estrutura para atendimento de gestações de alto risco. Por isso, tem se cercado de cuidados extras para preservar a saúde das mães, bebês e todos os envolvidos em um momento tão delicado.”

Leia mais: ‘O médico que está ao lado das evidências científicas combate a violência obstétrica’, garante obstetra humanizado

Leia também: Mães que optam pelo parto em casa dizem que são humilhadas quando procuram o hospital