Foto: Miriam Zylles, Pixabay

Depois de uma temporada no exterior onde trabalhava como oficial de chancelaria, Patricia Almeida, 54, estava empolgada em voltar ao país porque a filha caçula, que tem Síndrome de Down, poderia finalmente estudar com crianças da mesma idade – na Suíça, onde moravam, não existem escolas inclusivas como no Brasil. Mas junto com essa mudança, veio a preocupação: teria de ensinar a menina a entender o próprio corpo e se defender de eventuais abusos. “Ela não tinha tido a oportunidade de conviver com colegas da sua geração e não estava preparada para algumas situações da vida”, conta.

Patrícia começou a procurar materiais que a ajudassem a explicar à filha, Amanda, que algumas partes do corpo não poderiam ser tocadas por estranhos e que ela deveria sempre contar aos pais se isso acontecesse. Se os cuidadores de crianças sem alterações de desenvolvimento cognitivo e emocional muitas vezes perdem o sono com medo de que seus filhos sofram algum tipo de abuso, o pavor dos que têm filhos com desenvolvimento atípico é ainda maior, explica. Foi aí que descobriu que não havia nenhuma publicação que a ajudasse na tarefa e decidiu, então, montar a própria cartilha para educar a filha a se proteger.

O material foi construído em linguagem simples, com pouco texto e com técnicas do chamado ‘Desenho Universal para a Aprendizagem’. Ao ser convidada pela APAE, Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais, para uma apresentação no Dia Internacional da Síndrome de Down, decidiu falar sobre a cartilha que fizera para a filha – e o material foi muito bem recebido entre os profissionais que estudam formas de prevenção de violência sexual. A psicóloga Neusa Maria, que trabalha há mais de 20 anos com casos de violência contra meninas e mulheres da periferia de Brasília e que é Fundadora do Projeto Renascer contra a violência doméstica, pediu autorização para testar o material nas creches, escolas e nos atendimentos. “Tempos depois ela me contou que algumas crianças começaram a apontar as imagens da cartilha para fazer denúncias de abusos”, conta.

Cartilha ‘Eu me protejo’. Ilustração: Rafael Domingos

Animada com a repercussão, Patrícia entrou em contato com especialistas que atuam nessa área a fim de viabilizar a publicação do material: um grupo de colaboradores voluntários formado por psicólogos, pediatras, educadores, assistente sociais, jornalistas, mães e pais se formou e decidiu se debruçar sobre o que já havia sido feito para deixar o trabalho ainda melhor. Depois de um ano de discussões, o resultado produzido colaborativamente foi testado pelos participantes do grupo em escolas, consultórios e em suas próprias casas, além de virar tema da dissertação de mestrado em Estudos da Deficiência de Patrícia Almeida na City University of New York. “Nós entendemos que a maioria dos pais não sabe como tocar nesse assunto com seus filhos. Provavelmente eles próprios não tiveram essa experiência em suas famílias”, conta. Por isso, o material deixou de ser apenas para crianças com necessidades especiais, mas para todas as crianças de 0 a 8 anos. A cartilha, batizada de “Eu me Protejo”, pode ser baixada livremente pelo site do projeto.

Os mais de 50 voluntários que se dedicaram ao tema tiveram o cuidado de escolher imagens e textos que não constrangessem pais e educadores, “porque se eles não se sentirem a vontade para ler o material com as crianças, de nada teria valido nosso trabalho”, explica Patrícia. “Cada frase, cada ilustração, cada situação foi discutida com muito carinho e responsabilidade”, completa.

O site que hospeda o material enumera (e descontrói) as desculpas que as famílias dão para não conversar sobre esse assunto com os pequenos, entre elas a de que “as crianças raramente são vítimas de abuso sexual”. Passando o mouse sobre esse argumento, descobre-se de que uma em cada quatro meninas e um em cada seis meninos sofrem abuso sexual antes dos dezoito anos de idade. A segunda ‘desculpa’ dada pelos cuidadores para não discutir o tema é de que “nunca deixam os filhos se aproximar de estranhos”. O projeto lembra que 93% dos abusos são cometidos por pessoas conhecidas e próximas à família, o que é aterrador.

Ilustrações: Rafael Domingos

A cartilha explica de forma simples alguns conceitos, como o de “partes íntimas”. “São aquelas que ficam cobertas por fraldas, cuecas, calcinhas, sutiãs, tops, maiôs e sungas” e ainda acrescenta que a boca também faz parte desse grupo. “Mesmo não coberta por roupas, a boca também é uma parte íntima (…) As pessoas não só podem mexer nas minhas partes íntimas se eu não souber me lavar, mas não podem mexer em mim de um jeito que doa ou que eu fique com vergonha”, explica o material, escrito em primeira pessoa como se fosse um bate-papo entre os pequenos.

A ideia é fazer com que nossos filhos entendam que o corpo pertence a eles apenas. “Se eles aprendem desde cedo esse conceito, as chances de que possa se defender do que vier pela frente, seja um abusador na infância, um namorado violento, um chefe assediador ou um marido assassino aumentam”, explica Patrícia. A “Eu me Protejo” pode ser impressa livremente em PDF e o sonho de todos os voluntários é que se espalhe pelo Whats App e chegue ao maior número de pessoas. “Esse é o nosso presente pra vocês darem a seus filhos, alunos ou crianças que queiram proteger. Esperamos que seja aproveitado pelas famílias, nas escolas, grupos de igreja ou qualquer lugar onde haja crianças”, afirma Patrícia.

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