Com uma semana de campanha e há poucos dias do Carnaval, mães contam o que pensam sobre a sugestão de retardar a vida sexual dos filhos

Uma enquete feita em um grupo fechado no Facebook, o Ser mãe, pai de adolescente não é fácil!, das 10miil participantes, 5mil responderam a enquete sobre ser ou não a favor da campanha lançada semana passada, pelo Governo Federal, em que sugere a abstinência sexual como método contraceptivo. Resultado: 57% é contra e 43% a favor.

“Sou a favor”, muitas dizem. “A campanha não é pra impedir ou impor a abstinência, mas fazer com que os jovens reflitam sobre poder esperar, já que eles podem sim”, diz Christiane Galli. “Meus filhos escolheram esperar. Minha filha com 17 anos passou em 5 Universidades e escolheu a USP. Meu filho de 16, está focado em estudar, praticar esportes e se divertir com amigos. A vida adolescente não se resume em viver em função de hormônios sexuais”, conta. “Jovens tem uma vida inteira pela frente. Focar nos estudos e no futuro, hoje eles têm oportunidades que nós jamais imaginávamos”, também justifica Gislene Bomfim.

Assim como as duas, outras mães se juntam ao grupo do “a favor” com as mesmas justificativas às suas preocupações. É quase como ter mais um aliado na cabeça dos jovens a dizer que foquem no futuro e não se percam com desejos da adolescência. Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria, SBP, e o Ministério da Saúde, nos últimos 20 anos 13,2milhões de meninas entre 10 e 19 anos ficaram grávidas no Brasil. O Sudeste é a região que mais concentra casos, com 33,5% do total. Na sequência, Nordeste (32,9%), Norte (13,3%), Sul (12%) e Centro-Oeste (8%).

Vale lembrar que o Brasil está em 1o lugar América Latina e 4o do mundo no ranking de mundial casamentos infantis e, segundo o Unicef, 26% das adolescentes brasileiras casaram-se antes dos 18 anos. Além disso, as pessoas jovens, especialmente garotas, estão mais suscetíveis a contrair HIV por falta de informação. Segundo a Unicef, uma adolescente de 15 a 19 anos é infectada a cada três minutos com o HIV. A taxa mundial de gravidez adolescente é estimada em 46 nascimentos para cada 1 mil meninas entre 15 e 19 anos, enquanto no Brasil é de 68,4 nascimentos, superada apenas pela África.

O Brasil está na lista como uma das únicas regiões do mundo com uma tendência ascendente de gravidez entre adolescentes com menos de 15 anos, segundo o UNFPA. A estimativa é de que, a cada ano, 15% de todas as gestações ocorram em adolescentes com menos de 20 anos e 2 milhões de crianças nasçam de mães com idade entre 15 e 19 anos.

“A falta de informação e o acesso restrito a uma educação sexual integral e a serviços de saúde sexual e reprodutiva adequados têm uma relação direta com a gravidez adolescente. Muitas dessas gestações não são uma escolha deliberada, mas a causa, por exemplo, de uma relação de abuso”, diz Esteban Caballero, diretor regional do UNFPA para América Latina e Caribe, no site oficial da ONU. “Reduzir a gravidez adolescente implica assegurar o acesso a métodos anticoncepcionais efetivos”.

“Diálogo é a solução. Informação, educação sexual é de extrema importância”, diz a mãe Ana Paula Thorpe. “Tudo que é proibido fica com sabor diferente. Não sou a favor de proibir.”, fala outra mãe, Barbara Ribeiro Brandão. “Somos pais e mães que trabalham, estudam, cuidam da casa e quem educa somos nós! Mostrar para os filhos o porquê de não fazer sexo, quais as consequências do ato é papel. E tentar viver uma vida de confiança”, reforça.

“A campanha é pra conscientização não proibição”, argumenta Mari Marcelino. “É, na verdade, pra família que não tem o hábito de participar da vida do filho e conversar sobre. Se você já faz isso, já faz parte da campanha orientando seu filho desde sempre.
As outras campanhas eram sobre prevenção de gravidez e doenças, ofertando camisinha e anticoncepcional. Isso é certo? Junto com a conscientização de que se tem tempo pra tudo, sim”.

“Para não engravidar, não faça sexo. Isso é campanha contra gravidez na adolescência?”, se revolta Ozailda Alencar. “Me desculpe, mas, orientar ainda é a melhor forma! Já fomos adolescentes, isso não funciona e nunca vai funcionar”. “Não sei por que tanto drama em cima disso?”, responde Tereza Cristina Oliveira. “Não tem nada de errado, claro que além disso precisa ter orientação, mas não vejo nada de errado com a iniciativa. Nem todos vão aderir, mas alguns irão aderir e por que não?”.

E por que não? “Sexo, relacionamento e namoro fazem parte da vida”, relembra Dra. Valéria Scarance, Promotora de Justiça e Coordenadora do Núcleo de Gênero do Ministério Público de São Paulo. “Na adolescência, jovens estão se descobrindo e iniciando suas experiências sexuais. Negar a existência da sexualidade é negar a própria essência do ser humano. Em um mundo conectado, a informação sem preconceitos é fundamental para que jovens tomem suas decisões com consciência e não se envolvam em situações de perigo. A melhor forma prevenção ainda é a informação, o papo aberto e sem pré-conceitos”.

A ONU defende que as informações sobre a vida sexual, as doenças sexualmente transmissíveis e os métodos contraceptivos sejam repassadas para os adolescentes – tanto os do sexo masculino como do feminino – nas escolas e nos serviços de saúde pública.

A gravidez precoce entre meninas e adolescentes brasileiras tem muitas razões. Violência e exploração sexual são duas delas. Nem todas meninas que engravidam é por falta de informação, falta de preservativo ou falta de conscientização. Somos o 4o do mundo no ranking de mundial casamentos infantis e, segundo o Unicef, 26% das adolescentes brasileiras casaram-se antes dos 18 anos.

Por conta de muitos desses números, o Núcleo de Gênero do Ministério Público de São Paulo, MPSP, criou a cartilha Namoro Legal com dicas simples para se evitar relacionamentos abusivos e perigosos. “Ao invés de se ensinar jovens a abstinência, deve-se ensiná-los a tomar decisões conscientes, que garantam sua saúde, bem-estar e autonomia. A melhor forma de prevenção ainda é a informação”, finaliza Dra Valéria.