Educação sexual é tema importante e precisa ser abordado pelas famílias. Entenda porque e saiba como e quando falar

Férias, na estrada e você escuta: “Mãe, o que é motel?”. A pergunta é feita pelo filho de 6 anos que está no carro, naquele momento aprendendo a ler em que a criança lê todas as placas e sinais que passam pelo seu olhar. A mãe fica muda. Não sabe o que dizer. “Explico o que é motel? Mas ele é tão pequeno… Finjo que não escutei? Invento alguma coisa?!”.

Se o sexo ainda é um tabu para os adultos, é ainda mais desafiador para eles falarem do assunto com as crianças. Para Carolina Freitas, mestre em psicologia e especialista em sexualidade do Sexo sem Dúvida, falar sobre sexualidade não é especificamente falar sobre o ato em si. “A educação para a sexualidade na infância engloba o conhecimento ao corpo humano, o respeito a si e ao outro, higiene, nudez, privacidade e consentimento”, explica.

E o que caberia, então, como resposta pra situação acima? Não existe idade ideal para começar a falar de sexo com os filhos. O que cabe é dar as respostas “certas” a cada faixa etária da criança. E muitas vezes, vale devolver a pergunta a criança como resposta. “O que você acha que é motel, filho?”. Escutar da criança o que ela tem a trazer como elaboração de conhecimento de determinado assunto é a melhor porta de entrada para qualquer assunto. As crianças passam por diversas fases da sexualidade até chegarem ao conceito que os adultos têm. Ela pode até descobrir algum prazer relacionado a palavra ainda cedo, mas o desejo não.

O próprio cuidado com o bebê já é uma forma de educar para a sexualidade. Para Carolina, o respeito e a privacidade que damos ao corpo do bebê, o diálogo, a tarefa de cuidar já são formas de falar sobre sexualidade. Desde o nascimento até os dois anos de idade, a criança começa a explorar seu mundo por meio de seu corpo e suas sensações. A psicóloga explica que é por meio do gosto, do cheiro, do toque, do olhar e do ouvir que a criança vai experimentar o prazer. “Essa relação com seu corpo e com os sentidos formará suas atitudes sexuais mais tarde”, afirma Carolina. E não tem nada de errado nessas descobertas. Nada de ficar “Não pode filho! Isso é feio”.

De onde vem os bebês? Geralmente, essa é a primeira pergunta que as crianças fazem por volta dos três anos de idade. Querem saber como saíram ou como entraram. Para Carolina Freitas, é uma questão que pode dar início a uma conversa sobre sexualidade. “É sempre importante lembrar aos pais, mães e educadores que quando a criança faz essa pergunta ela não está falando de sexo, do ato sexual em si, que ainda é um grande bicho papão para os cuidadores, mas sim sobre suas descobertas e seu desenvolvimento”.

Elas têm curiosidade de saber como o bebê cabe na barriga, como a mãe consegue se alimentar com o bebê ocupando o espaço da barriga e como ele se alimenta também. “É um bom momento para ler um livro infantil, com ilustrações do corpo humano e explicar. Isto é educação para a sexualidade”, completa. E não precisa ter vergonha de dizer por onde sai o bebê. Ou mesmo contar que forma-se uma “semente” quando duas pessoas namoram.

A narrativa precisa ser adaptada conforme a faixa etária da criança. Mas sem infantilizar e sem fantasiar. Não precisa ter vergonha de usar a nomenclatura pênis ou vagina. Borboletinha, florzinha, piriquito e etc deveriam ser abolidos. Mesmo. Porque vamos construindo esteriótipos e barreias em algo que não deveriam ter. Depois as crianças chegam lá na adolescência e têm a maior dificuldade de lidar com a sexualidade, de forma geral, porque sempre foi tabu. Não pode ser tabu. É sobre corpo, sobre auto-conhecimento.

Falar sobre as partes íntimas é fundamental para a criança conhecer seu corpo e respeitar. É também uma forma de prevenir violências sexuais. “É importante falar pênis e vagina para a criança saber o nome científico e o nome dado em casa. Elas devem saber o que são e os nomes das partes íntimas, quem pode auxiliá-las na higiene e nos cuidados íntimos. Assim aprenderá sobre privacidade, consentimento e respeito”.

Não se pode prevenir os abusos quando nem sequer são nomeados. É necessário dar nome às partes do corpo, às formas de viver a sexualidade e às formas de violência desses direitos. Existem diversos materiais infantis que auxiliam os pais, mães e educadores(as) neste processo. Sem falar na educação sexual na escola que é fundamental, já que é o segundo espaço de socialização e convivência tanto das crianças quanto dos adolescentes.

O desenvolvimento psicossexual da criança emerge isso de forma transversal, seja na escola pública ou na privada. O colégio também deve ser um espaço de promoção de saúde, de educação integral. “Falar de sexualidade não é estimular nem erotizar, muito pelo contrário, a criança bem informada estará protegida. Quando se tornar adulto vivenciará de forma mais responsável e prazerosa sua sexualidade”, afirma.

E como parte de seu desenvolvimento, a masturbação aparece como curiosidade natural da criança de seu corpo e suas sensações. E muitas vezes assusta. Tanto os pais quanto professores não sabem como lidar e acabam mais por repreender a criança do que orientá-la. Segundo a psicóloga, é um jogo exploratório de sensações. “Não tem a mesma conotação da masturbação na adolescência e no adulto. Assim, é um bom momento para ensinar às crianças sobre a intimidade, privacidade, respeito ao corpo. Não é preciso problematizar a situação, apenas orientar. A repressão é indesejada, já que faz parte do desenvolvimento psicossexual da criança”.

O pai, mãe, professora ou responsável ao encontrar a criança se masturbando – acariciando os órgãos genitais – pode dizer que, apesar de acreditar que aquele massagear do órgão esteja sendo muito gostoso para ela, aquele lugar que pode ser a sala de casa, a rua, a sala de aula ou qualquer outro, não é o local indicado. É importante explicar que essa “brincadeira” se faz num local mais privativo porque é o corpo dela. Corpo a gente não expõe em público. Corpo é nosso. Pra depois, lá na adolescência, poder lidar melhor com as selfies e as exposições exageradas nas redes sociais.

Corpo é uma porta de entrada, tanto para coisas boas quanto ruins. Precisa de auto-conhecimento pra saber disenir e fazer escolhas. Precisa ter boas – e honestas – respostas dos adultos que estão em volta, para construir conhecimento. Falar de sexo com crianças exige escuta, prontidão e a coragem de quebrar os próprios tabus internos. Porque não se deve ter vergonha de algo que é nosso como constituição humana. Vergonha deveriamos ter da ausência – ou negligência – da educação sexual à criancas e adolescente. Um silêncio que, muitas vezes, custa caro.