Foto: Perfil da Família Real no Facebook

Cada vez que Kate Middleton sai da maternidade, andando, horas depois de dar à luz mais um bebê real, a cruel realidade obstétrica brasileira fica cada vez mais clara, só não vê quem não quer: aqui as mulheres são enganadas, todos os dias, ao serem levadas a escolher uma cesárea. Elas começam o pré-natal querendo um parto normal, mas ouvem os médicos dizerem, o tempo todo, que isso “é coisa de índia!”, “uma aventura desnecessária”, algo que vai “arrasar com a vida sexual” e daí, claro, aceitam um parto cirúrgico, mais arriscado e doloroso, como a opção “mais segura” para trazerem seus filhos ao mundo.

Mas daí aparece a duquesa, bebê no colo, recebendo alta apenas seis horas após o parto, ainda mais cedo que nos nascimentos dos dois outros filhos, e a falácia fica cada vez mais evidente: se o parto normal é tão ruim, porque Kate parece estar tão bem disposta? Como já está de pé a caminho de casa? “Ah, mas isso é coisa da princesa, ela é da família real, tem acesso ao que tem de bom e do melhor!” Sim! Ela e todas as mulheres britânicas, princesas ou plebeias, conta a parteira Suzan Correa, brasileira que trabalha no NHS, o National Health Service britânico. “A alta de seis horas é super comum na Inglaterra. Isso acontece diariamente com as mulheres que não apresentam riscos e complicações durante o parto”, conta a midwife. “Não é porque ela é da família real britânica ou porque terá babá e enfermeira em casa que teve alta de seis horas. É porque isso é normal por aqui”, completa. O Reino Unido tem altas taxas de parto normal e uma das internações mais curtas do mundo desenvolvido, segundo um estudo feito pelo PLOS medical journal.

Suzan Correa: midwife brasileira que trabalha no NHS, o “SUS britânico”

Coincidência ou não, os médicos são coadjuvantes no sistema obstétrico britânico. Só aparecem em cena em caso de emergência, para fazer as cesarianas realmente necessárias, que salvam vidas. O pré-natal, o parto e o pós-parto das gestações de baixo risco, com visitas à casa da puérpera, são conduzidos por parteiras, as midwives. Como não é o dinheiro que está no comando, já que o sistema é público e universal, é o bem-estar da mulher está em primeiro lugar, explica Suzan. Não à toa a mortalidade materna na Grã-Bretanha é de 8,8 mulheres a cada 100 mil nascidos vivos, enquanto a brasileira é de 60 a cada 100 mil nascidos vivos. E se o assunto e a mortalidade neonatal, o Brasil sofre mais um 7 x 1: aqui sete crianças de cada 100 mil nascidas vivas morrem enquanto na Grã-Bretanha apenas um bebê padece a cada 100 mil partos.

E o que é melhor para a mulher? Segundo a OMS, Organização Mundial da Saúde, o parto normal. As cesarianas devem ser responsáveis por apenas 10% a 15% de todos os nascimentos. Mas, no Brasil, 58% dos partos são cirúrgicos, sendo que na rede particular existem instituições em que de cada 10 partos, 9 são cesáreas, o que nos concede o nada honroso título de campeão mundial das cesarianas.

Aqui estamos à mercê de um sistema que privilegia o lucro e a rapidez, “para que esperar horas se a gente pode resolver isso em apenas alguns minutos?”, escutou Raquel*, 32 anos, levada a uma cesárea por comodidade médica. “Depois passei um tempão longe do meu bebê e meu pós-operatório foi horrível. Eu passei vários dias com dores no corte e sem conseguir amamentar direito, porque não achava uma posição confortável”, conta ao blog.

Kate Middleton, por aqui, teria poucas chances, mesmo sendo duquesa. Ouviria que é “estreita demais”, por isso, “não teria dilatação”. Motivos para desencorajá-la não iriam faltar. Quer exemplos? A Dra. Melania Amorim, obstetra da Universidade Federal de Campina Grande, e a obstetriz Ana Cristina Duarte atualizam frequentemente uma lista de motivos estapafúrdios que já foram dados a milhares de mulheres brasileiras para empurrá-las para uma cesariana. São assustadores e vão do clássico “bacia estreita demais”, algo facilmente usado em mulheres magras como Kate, a outros mais elaborados, como a deficiência visual de uma gestante que queria parto normal mas que, segundo o médico, não podia “porque era cega”. Cegas todos nós estamos, na verdade, se não começarmos a perceber como somos feitas de idiotas. Obrigada, Kate, por jogar, de novo, um pouco de luz nessa escuridão.

*Nome trocado a pedido da entrevistada

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