Foto: Arquivo pessoal

Foto: Arquivo pessoal

Ana Cristina Duarte, 49 anos, é incansável. Conseguir entrevistá-la foi um exercício de paciência e perseverança. Com a agenda sempre ocupadíssima por mães, partos e bebês, ela conseguiu depois de vários desencontros abrir um espaço para que pudéssemos conversar. Obstetriz formada pela USP-Leste e uma das fundadoras do GAMA, Grupo de apoio à maternidade ativa, Ana gosta mesmo é de ser chamada de outra forma. “Eu me reconheço mais como parteira”, afirma. Já colocou cerca de 400 bebês no mundo da forma mais humanizada possível. Só fez uma episiotomia em toda sua carreira – aquele corte cirúrgico no períneo entre a vagina e ânus tão temido pelas mulheres por ter se tornado prática médica. Ana é figurinha fácil nas redes sociais e é seguida por cerca de sete mil pessoas, (a maioria mulheres) ávidas por informação sobre parto humanizado. Posta muito e não só sobre o nascimento de bebês. Em sua timeline aparecem textos e reflexões sobre assistência à mulher e ao parto, saúde da mulher e até política e eleições presidenciais. Ela também comenta sem medo casos de má prática médica e denuncia hospitais que não respeitam questões básicas, como o direito ao acompanhante. No post de hoje, um alerta dado pelo Ministério da Saúde sobre o porquê a cesárea ser tão mais perigosa para mamãe e bebê. Quem segue o perfil dela vai saber que a cesárea sem indicação médica aumenta em 120 vezes a probabilidade do bebê ter angústia respiratória, triplica o risco de mortalidade materna, além de ser responsável por 16% das mortes de bebês que nasceram antes da hora. Pergunto se não tem medo de se meter em polêmicas nas redes sociais. Ela responde, na lata: “Eu me posiciono mesmo. Como não acredito em reencarnação, eu tenho apenas uma chance de me posicionar. E é agora”. afirma.

Rita: O parto domiciliar é uma opção de parto que as mulheres têm procurado cada vez mais. Ele é seguro?

ACD: Ele é seguro para uma fatia da população, a de mulheres saudáveis que tiveram a gestação sem qualquer intercorrência, sem problema de saúde, com o bebê de tamanho normal,  bem posicionado. Tanto que é oferecido pelo sistema público e gratuitamente na Holanda, Alemanha, Bélgica, Inglaterra e em alguns outros países.

Rita: Por que ainda é visto como absurdo pela classe médica?

ACD: Por desconhecimento. Os médicos sempre aprenderam que lugar de parto é no hospital e é uma heresia muito grande para eles ouvir falar sobre parto em casa, já que é contra tudo o que aprenderam. E eles aprendem que o parto é uma coisa perigosa.

Rita: Como você se interessou por humanização no parto? Li que seu primeiro filho nasceu de uma cesárea que você acredita ter sido desnecessária.

ACD: Foi uma luta trocar de médico depois do meu primeiro parto e conseguir um profissional que topasse fazer um parto normal na minha segunda gravidez. Foi só quando eu consegui parir que tive a certeza de que eu não tinha nenhum problema. Pra mim foi muito bom. Daí comecei a ser ativista do parto normal em um site chamado “Amigas do Parto”. Depois comecei a trabalhar como doula e só depois me formei parteira. (Ana era bióloga.) Eu queria que as mulheres soubessem quais eram os riscos que elas corriam na assistência ao parto comum e o que elas poderiam fazer se quisessem ter um bom parto. Eu queria mostrar qual era o caminho das pedras.

Foto divulgação do filme: "O Renascimento do Parto".

Foto divulgação do filme: “O Renascimento do Parto”.

Rita: Quais são os motivos, na sua opinião, que levam o Brasil a “ostentar” esse número de campeão mundial de cesáreas, 52% em média, enquanto o índice recomendado pela Organização Mundial da Saúde é de apenas 15%?

ACD: Na verdade são vários interesses misturados.Não há um culpado. Tudo começou na década de 70 com o oferecimento de cesarianas para que fosse feita, na sequência, a laqueadura nas mulheres. Essa foi a semente do caos que vivemos hoje. Depois veio a divisão da nossa assistência em saúde pública e saúde privada. Hoje temos o que chamo de “cultura das cesarianas” que permeia todos os setores. Os médicos não fazem mais parto normal nem em suas próprias esposas e nem se formam acreditando no parto normal. Essa cultura permeia a universidade, a sociedade, as mulheres, os conselhos, o sistema político e a imprensa, que também está dominada pela ideia de que a cesariana é a salvação para todos os bebês. A saúde privada é aquela onde a mulher escolhe o médico no pré-natal e ele fica “disponível” para ela. Foi isso que provocou essa metástase. Não existe em nenhum lugar do mundo a cultura de um médico ficar de prontidão para sua paciente.Não existe sistema em que isso funcione. A partir do momento em que você tem um cirurgião parado durante um mês inteiro esperando uma mulher entrar em trabalho de parto – sem poder viajar, sem poder marcar consultas ou ir a congressos – as tentações de resolver essa situação rapidamente começam a surgir. Foi a partir dessa divisão e da possibilidade das mulheres escolherem seus médicos que começou a aumentar vertiginosamente a taxa de cesarianas.

Rita: Nas redes sociais você sempre esclarece sobre os mitos e as verdades científicas sobre o parto. Quais são os argumentos mais fajutos, na sua opinião, usados para que sejam feitas cesáreas?

ACD: O “passou da hora” ou “passou da data” é um desses mitos, ou seja, diz-se que a partir de uma certa idade gestacional tem que se operar a mulher. Outro bastante usado é dizer que a mulher está com pouco líquido amniótico ou que o bebê tem o cordão umbilical enrolado no pescoço. Nenhum deles é motivo para cesárea. Não existe em nenhum livro de medicina que cordão enrolado seja indicativo de cesariana. O médico não tem como provar isso. Se o líquido estiver baixo ele pode induzir o parto normal assim como se o bebê “passar da data”. Se ele fizer uma cesariana por essas razões e escrever isso no prontuário ele pode perder o CRM.

Rita: O que você acha do uso desses argumentos para se fazer uma cesárea?

ACD: Eu acho anti-ético. O Conselho Regional de Medicina também reconhece isso como anti-ético.

Rita: Nos exemplos citados acima os médicos escrevem o quê no prontuário da paciente que é submetida a uma cesariana?

ACD: Eles escrevem qualquer outra coisa e não o motivo alegado à família. Sofrimento fetal, por exemplo, Se eles colocarem “cesárea marcada por cordão umbilical enrolado no pescoço” no prontuário, podem perder o CRM.

Rita: E quando uma cesariana realmente tem que ser feita?

ACD: Por desproporção céfalo-pélvica, ou seja, se depois da dilatação total da mulher o bebê não descer pelo canal de parto, uma condição que só se descobre no final do trabalho de parto. Também por sofrimento fetal, que é quando o trabalho de parto é cansativo demais para o bebê e tem que se fazer uma cesariana porque não dá para esperar mais. Mas o sofrimento fetal tem que ser comprovado pelo padrão dos batimentos cardíacos do bebê. Um papel com esse valor é impresso e tem de ser colocado junto com o prontuário da mulher. 

Rita: Muitas mulheres que procuram a cesárea como primeira opção a escolhem por medo ou desconhecimento?

ACD: Por alguns motivos. Elas têm medo de o bebê sofrer, medo da dor e também por desconhecimento.

Rita: Muitas mães afirmam que têm o direito de escolher a cesárea como opção de parto e se dizem julgadas ao optar pela cirurgia. O que você acha disso?

ACD: Primeiro você me apresenta uma mulher que quer a cesárea e que esteja verdadeiramente informada e que tenha as opções de parto humanizado apresentadas, inclusive com analgesia. Se você me apresentar essa pessoa que quer uma cesariana mesmo tendo a opção de um parto humanizado, decente, bacana, com marido e com a doula presentes e sem ficar com as pernas abertas, deitada, com um monte de gente observando, a gente conversa sobre isso. Até agora, todas as mulheres que eu vi optando por uma cesariana ou elas não tinham a opção de um parto bacana ou elas estavam muito mal informadas. Disseram para elas que elas iam ficar “largas”, que teriam que cortar a vagina para o neném sair,  que ela só ia tomar anestesia no final do parto ou que dói absurdamente. Elas estão mal informadas e a culpa não é delas e sim dessa sociedade com a cultura de cesarianas que nós temos hoje. 

Rita: Eu tenho observado uma grande mudança e visto muitas amigas, primas e conhecidas buscando informação e conseguindo o parto normal. O que está acontecendo?

ACD: Hoje temos mais médicos disponíveis para o parto normal e para o parto humanizado no setor privado. Somado a isso temos mais mulheres a fim de um parto assim. No setor público temos observado várias iniciativas do Ministério da Saúde de humanização dos hospitais e das maternidades públicas.

Rita: A rede privada faz muito mais cesarianas que a rede pública (83% de cesáreas nos hospitais particulares contra 52% nos públicos). Mesmo assim muitas mulheres que vão aos hospitais públicos e têm seus filhos de parto normal não se sentem respeitadas? Por quê?

ACD: Porque é um parto ainda com muita intervenção e com muito desrespeito. Não que os profissionais enxerguem desta forma, eles acham que estão fazendo o melhor, oferecendo um atendimento de qualidade. Mas a verdade é que é um parto muito medicalizado e a mulher é bastante “judiada”. Deixar uma mulher de perna aberta, dentro de uma sala, com quatro estudantes olhando, ou ser examinada por três pessoas diferentes que colocam dois dedos na vagina dela, pra mim é desrespeito. A anestesia é dada só no finalzinho, quando o bebê está quase nascendo. Ela sai de lá pensando: “Eu nunca mais quero ter um parto normal na vida!” Se sente violentada.

Rita: A palavra parteira carrega uma conotação antiga, da profissional que fez o parto da nossa avó, da nossa bisavó. Mas a parteira se modernizou e evoluiu. O que levou a essa volta da parteira, na sua opinião?

ACD: A volta da parteira é um fenômeno apenas no Brasil, porque nos países de primeiro mundo ela nunca deixou de existir, sempre foi a figura mais importante da assistência ao parto. No Brasil, passou-se a cultivar a ideia de quem faz o parto é o médico. E agora está começando a ser discutido que talvez não seja.

Rita:  O que achou do plano do Ministério da Saúde anunciado semana passada para diminuir o número de cesáreas? Fazer, por exemplo, com que as mulheres tenham acesso ao número de cirurgias que o obstetra escolhido para o parto tem no curriculum vai trazer tranquilidade ou mais medo?

ACD: Parece um curativo, um chiclete para conter um vazamento. Eu acho que não vai adiantar nada. Isso vai ser paliativo, daqui a três, quatro meses, assim que o plano entrar em vigor, o próprio sistema privado já terá se adaptado e já terá dado um jeito de burlar isso.

Rita: Na sua opinião o que deveria ser feito, então?

ACD: O Ministério da Saúde deveria ter um controle maior sobre a taxa de cesarianas no setor privado. Estabelecer limites de cesarianas ano a ano, com queda gradual. Mas deveria haver punições. E a queda não  precisaria ser a limites absurdos. Se de um ano para outro a faixa de cesarianas tiver de baixar de 80% para 70%  e no ano seguinte para 65% e assim por diante, seria bom. Outra coisa a ser feita é proibir a marcação de cesarianas. Cesariana marcada deveria ser permitido só com uma indicação muito precisa.

Rita: Qual o papel das redes sociais nesse processo crescente da mulher de busca de informação sobre o parto?

ACD: As redes sociais mudaram a cara da luta pelo parto humanizado. Democratizou o acesso das pessoas. Hoje em dia você tem mulheres muito simples procurando seus direitos. É só digitar “parto normal” no Facebook e você vai achar duzentas comunidades falando sobre o assunto. E assim as mulheres descobrem quais são os direitos dela. Uma mulher bem informada é mais difícil de enrolar. O que precisa agora é o profissional de saúde se adaptar a essa nova realidade.

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