A parteira Ana Cristina Duarte. Foto: Coletivo Buriti por Bia Takata

Em país que ostenta, ano após ano, o título mundial de campeão de cesarianas, organizar um congresso cujo principal assunto é parto normal é um ato de resistência, quase político. Mas esse é o quarto ano que o Siaparto (Simpósio internacional de assistência ao parto) é realizado em São Paulo, com cada vez mais inscritos. O blog conversou com Ana Cristina Duarte, obstetriz formada pela USP, Universidade de São Paulo, uma das idealizadoras do Simpósio. Com mais de 500 partos domiciliares no curriculum e 400 hospitalares, onde fez parte de equipe multidisciplinar, a ‘parteira’, como prefere chamada, não tem grandes ilusões de que o sistema obstétrico brasileiro, que privilegia a cirurgia, mude a ponto de que a filha não enfrente as mesmas dificuldades que ela encarou para encontrar um médico que realmente fizesse um parto normal. “O brasileiro não mexe nas estruturas. A gente está vendo isso na política, na economia e não vai ser diferente na saúde”, afirma. Ana acredita, contudo, que o acesso a informação de qualidade pode mostrar para a mulher que é possível e seguro que seus filhos nasçam da forma mais natural possível, inclusive longe do hospital. “O que eu desejo é que pelo menos as mulheres que querem parir tenham uma escolha, consigam achar esse caminho”.

Blog: Você é uma das principais ativistas pelo parto normal e pela diminuição das cesáreas desnecessárias. Por que se engajou nessa luta?

Ana Cris: Eu entrei nessa luta quando eu tive meus filhos. Meu primeiro parto foi uma cesárea desnecessária, minha filha nasceu de uma cirurgia sem qualquer indicação médica. Eu fui enganada. Eu me deixei levar, na verdade, acreditei no que o médico falou e acabei sendo submetida a uma cesariana que foi muito sofrida para mim. Demorou um tempo até eu entender e e acreditar que tinha sido enganada – é muito difícil a gente aceitar que se deixou levar tão facilmente. Na minha segunda gravidez eu troquei de médico, achei um profissional que topou fazer um parto normal depois de uma cesárea. E esse segundo parto foi muito transformador para mim, foi uma experiência curadora poder parir depois de uma cesariana que eu não queria, que eu nunca quis. A partir disso eu percebi que a maioria das mulheres não sabia que havia uma indústria de cesarianas no Brasil, não tinha a menor ideia do que estava acontecendo. Foi aí que eu e outras mulheres entramos de cabeça no ativismo.

Blog: Quem te acompanha via redes sociais sabe que você já foi processada algumas vezes e também vítima de linchamentos virtuais. Por que acha que é tão atacada? Alguma vez pensou em desistir?

Ana Cris: Todo mundo que encabeça algum movimento de resistência vai ser atacado, faz parte. Quem não lida bem com isso não deveria fazer ativismo. Eu já fui processada pelo Sindicato Médico do Rio Grande do Sul porque disseram que eu “falei mal dos médicos” e, de fato, denunciei e vou continuar denunciando práticas que são inadequadas. Eles perderam o processo. Eu também estou processando médicos que fizeram postagens agressivas usando meu nome e minha imagem e fazendo ataques contra mim – foram médicos obstetras que fizeram isso, já os processei e já ganhei a ação em primeira instância. Isso acontece com todos que lutam contra o status quo – que é muito confortável, mas não está fazendo bem às mulheres e aos bebês.

Blog: Desde que as mulheres começaram a se engajar na luta pelo protagonismo no parto e pelo fim da violência obstétrica eu tenho visto algumas mudanças pontuais, principalmente em alguns hospitais, que começaram a permitir a entrada de doulas e que também aboliram o costume de deixar as crianças no berçário, em vez de com as mães. Quais outras práticas do nascimento precisariam ser revistas, na sua opinião?

Ana Cris: Ainda tem muita coisa para mudar, é uma questão de paradigma. A gente está vendo hospitais com índices de 90% de cesariana tomarem algumas iniciativas para melhorar o atendimento, humanizar e trazer mais possibilidades de um parto normal, mas dentro de um modelo que é baseado na fórmula hospital/médico/anestesista/centro cirúrgico. Esse não é o modelo ideal de atendimento ao parto normal. Então essa não é uma mudança de paradigma ainda. A gente precisa mexer nisso, ter centros de parto normal dentro dos hospitais, com enfermeiras obstetras, onde o médico só é chamado para situações em que se aumenta a complexidade do parto, quando a gestante sai da zona de baixo risco. É lógico que essas iniciativas são importantes, mas a gente precisa mudar mesmo é o modelo de assistência ao parto. Só que, infelizmente, essa é uma parte estrutural e as pessoas não querem mexer na estrutura básica. Esse é o problema.

Blog: Pela primeira vez desde 2010 o número de cesarianas na rede pública e privada não cresceu no país, segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde – pelo contrário, caiu 1,5 ponto percentual em 2015. Esses números ainda estão longe do que a Organização Mundial de Saúde considera como ideais. Por que é tão difícil diminuir o número de partos cirúrgicos no país?

Ana Cris: A gente não consegue diminuir cesarianas no Brasil porque não se quer mudar a estrutura, mexer com os médicos, com os planos de saúde, com a ANS, não se quer ‘ofender ninguém’, não se quer ‘magoar ninguém’. Então os hospitais continuam fazendo aquilo que dá mais lucro, os planos de saúde continuam remunerando mal os médicos, porque dá mais lucro, as mães vão para a cesárea porque se sentem mais seguras, porque é o que médico falou que é o melhor, e assim a gente não vai conseguir diminuir nada mesmo. A tendência é que continue mais ou menos assim enquanto não se mexer em estrutura e tirar o médico dos partos de baixo risco.

Blog: Quem quer a cesárea? A mãe ou o médico?

Ana Cris: Já foram feitos três grandes estudos no Brasil sobre o desejo da cesariana e os três mostraram que as mulheres começam o pré-natal dizendo que preferem o parto normal. E terminam prontas para ‘preferir’ uma cesariana. Alguma coisa que acontece no pré-natal faz a mulher achar que o melhor é uma cesariana.  Geralmente o que ‘acontece’ se chama ‘médico’.

Blog: Como você vê o sistema obstétrico brasileiro para a geração dos nossos filhos? Como estaremos em 10, 15 anos?

Ana Cris: É muito difícil imaginar o que vai acontecer com a geração dos nossos filhos. Nós estamos há muitos anos tentando promover mudanças e a geração de ativistas que veio antes de mim, antes da era da internet, também tinha esperança de mudança para os nossos filhos. A minha filha vai fazer 20 anos e já está, teoricamente, em idade de ter filhos. Ela vai enfrentar as mesmas dificuldades que eu enfrentei, até mais. Eu não vejo esperança para os nossos filhos, nem para os nossos netos, porque as pessoas não estão querendo mexer nas estruturas. Porque esse é o modelo brasileiro, esse é o pensamento brasileiro de não mexer nas estruturas – a gente está vendo isso na política, na economia e não vai ser diferente na saúde. Não vejo isso mudando a curto prazo não. O que eu desejo é que pelo menos as mulheres que querem parir tenham uma escolha, consigam achar esse caminho. O problema é que nem todo mundo consegue pagar por um parto humanizado, por um parto bacana.

 

A parteira Ana Cristina Duarte. Foto: Coletivo Buriti por Bia Takata

Blog: Qual país tem as melhores práticas obstétricas na sua opinião? Por quê?

Ana Cris: A maioria dos países de primeiro mundo está em fase de rever os seus protocolos e suas práticas para tentar melhorar sua assistência. Um modelo que eu gosto muito é o do Canadá, que começou há alguns anos a aumentar a formação de enfermeiras obstetras, as chamadas midwives, treinadas para atendimento das mulheres de baixo risco. Em várias cidades do Canadá a mulher escolhe a equipe de parteiras e decide se vai ter  bebê em casa, na casa de parto ou no hospital, e as mesmas parteiras podem atendê-la em qualquer um dos três lugares. É lógico que se ela se transformar em uma gestante de alto risco os médicos irão atendê-la, mas se ela estiver no baixo risco pode ter o bebê em casa, com as parteiras, ou na casa de parto. Eu gosto muito desse modelo e acho que o Canadá acordou para o fato de não ser possível melhorar os números (de morte materna e neonatal) se não investir nessa mudança de paradigma. É exatamente isso o que a gente precisa. O modelo da Inglaterra é bacana também. O ideal é que a gente pudesse adaptar algumas dessas coisas para o nosso modelo de assistência.

Blog: Esse é o quarto Siaparto. Como e por que esse projeto nasceu?

Ana Cris: Faço parte de um grupo de médicas e parteiras que sempre andam juntas e conversam. Uma vez a gente pensou em dividir as despesas e montar um curso para algumas pessoas aqui, trazer um pessoal dos Estados Unidos que a gente já conhecia, já tinha visto lá (ao participar de cursos). Pensamos ‘a gente faz uma vaquinha e traz essas pessoas para cá’. As pessoas começaram a gostar da ideia, nos juntamos e, de cara, virou um evento de 700 pessoas, o que foi bastante admirável para a gente. A partir disso a gente começou a profissionalizar e aumentar espaço, transformar em um congresso mesmo. O principal objetivo é trazer evidências científicas para os profissionais que trabalham com a assistência ao parto e também para termos acesso a algumas informações novas ou técnicas diferentes. Em 2014 tivemos 700 inscritos, em 2015 tivemos 1000 inscritos, em 2016 foram 1300 e esse ano vamos chegar mais ou menos em 1500 participantes.

Blog: Como é fazer um evento como esse do zero todos os anos? Qual o papel das mulheres que se engajam nesse projeto com você?

Ana Cris: A primeira vez foi bastante assustadora. A partir disso a gente montou um time muito bacana e contratou uma empresa de organização que pertence ao movimento da humanização. Esse é um evento que tem características específicas, porque ele não tem patrocínio – nenhuma indústria farmacêutica ou de equipamentos patrocina congresso de parto natural, obviamente. Então são os próprios congressistas que pagam o evento para que ele aconteça. Qualquer pessoa que trabalha com congresso sabe que isso é quase um milagre. Mas um milagre feito por muita gente, com muitas ativistas envolvidas, muitos médicos, enfermeiras, doulas, gente que se mexe para fazer isso acontecer. Inclusive a primeira congressista desse ano, a Jennifer Walker (doula e membro da Dutch National Doula Association) vinha da Holanda, mas eu não sabia que ela era canadense de nascimento, e os canadenses precisam de visto para entrar no Brasil. Resultado:  Ela chegou no aeroporto sem visto e corria o risco de ser deportada. A gente fez uma movimentação via redes sociais, as mulheres começaram a se movimentar, chama um, chama outro, marca um, marca outro e, no fim, o Embaixador Canadense acabou entrando em contato comigo. No dia seguinte, essa mulher estava fora do aeroporto e já com a gente para fazer o congresso acontecer. Esse é um congresso é feito por todo mundo, por milhares de mãos.

Blog: Esse ano o Siaparto gerou mais alguns ‘filhotes’, o Siadoulas e o Siaparental. Por que ampliar o escopo do evento? Quem é o público alvo desses novos simpósios?

Ana Cris: O Siadoula nasceu da necessidade das próprias doulas em terem um espaço delas, uma sala delas, com questões próprias e trazer pessoas para falar com elas especificamente. Temos quase 300 doulas inscritas. E o Siaparental é um congresso que reúne pais, psicólogos e educadores em torno das questões da primeira infância e envolve um pouco de pedagogia, educação e saúde na primeira infância. Um movimento bacana que envolve muitos pais que já passaram por esse processo de parto natural e se envolveram em um movimento de uma criação de filhos em um modelo mais integral. É um congresso menor, pequeninho, que tem ‘cara’ de ser um lugar de conversar mesmo, um debate entre pais e profissionais.

Mais informações sobre o Siaparto e seus ‘filhotes’, clique aqui. No domingo, dia 10, esta blogueira que vos escreve vai mediar, às 10h50hs, uma roda de conversa sobre feminismo e maternidade.

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