Quando, na segunda-feira passada, escrevi que a postura da Globo no caso de Susllem Tonani seria muito importante para incentivar – ou inibir – outras mulheres a denunciar o assédio, nunca imaginei o que aconteceria depois.

Já na segunda, começaram a pipocar notícias de que as atrizes da casa fariam um ato de apoio à figurinista. Na terça, a emissora confirmou o afastamento por tempo indeterminado de José Mayer, que divulgou uma carta pedindo desculpas. E, desde então, atrizes, jornalistas e outras figuras públicas aderiram ao slogan “Mexeu com uma, mexeu com todas”, da campanha #ChegaDeAssédio, com apoio formal da própria Globo.

Letícia Sabatella confirmou o que já tinha sugerido: que também foi assediada pelo ator. Outras mulheres falaram de suas experiências traumáticas. A atriz Lady Francisco, 82 anos, contou que foi estuprada por um diretor da Globo no início da carreira. O clima de sororidade foi tanto que Leandra Leal chegou a dizer que vivemos uma Primavera das Mulheres.

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Foi uma vitória. Uma grande vitória de Susslem e de todas as mulheres. Não há dúvidas. Mas, como toda vitória, não veio sem batalha. E é isso que revela a reportagem de capa da revista Veja. O relato mais detalhado e competente do caso até agora.

A revista conta que, antes de publicar o depoimento no blog #AgoraÉQueSãoElas, Susllem havia denunciado a situação à própria Globo. A coordenadora da área de talentos, Monica Albuquerque (uma mulher!), ouviu a explicação de Mayer e deixou por isso mesmo. Mas afastou a figurinista – que recebeu o salário até o fim do contrato e foi desligada. Em nota ao blog, a Globo disse que “tanto a figurinista quanto o ator José Mayer não foram ouvidos por uma pessoa ou outra, mas por uma estrutura de compliance, que está atuando com toda a responsabilidade e cuidado que casos como esse requerem – tanto assim que houve as consequências já conhecidas por todos.” Questionada sobre quando essa estrutura começou a atuar no caso, a emissora disse que é uma informação interna. A mesma resposta foi dada quando questionada sobre a situação de Susllem em relação à empresa.

Inconformada com o tratamento da empresa, ela decidiu revelar o que estava acontecendo. No mesmo dia, a Globo disse que ia apurar. Já o ator afirmou que haviam confundido ele e seu personagem misógino. Mas não era tão simples assim. Aos 67 anos, Mayer já tinha importunado mais gente do que devia. Uma outra funcionária havia pedido demissão após ser assediada, e as atrizes decidiram se unir.

A reportagem menciona ainda uma reunião na casa dos atores Taís Araújo e Lázaro Ramos com a presença de vários pares românticos de Mayer em novelas – como Mel Lisboa (de Presença de Anita, 2001) e Camila Pitanga (de Mulheres Apaixonadas, 2003). Diante da movimentação crescente, a Globo decidiu agir rápido para evitar danos. Afastou o ator e aderiu à campanha contra o assédio. A empresa teria ainda redigido a carta de Mayer e contratado uma assessoria de imprensa para distribuí-la.

#ChegaDeAssédio

Por vias tortas, a Globo acabou fazendo o certo. A carta do ator, contudo, continua uma nota fora. Tentar culpar toda a sua geração não colou. E chamar de “brincadeira machista” colocar a mão na genitália alheia foi muito light para quem poderia até, na letra fria da lei, ser acusado de estupro – sim, qualquer toque não consentido pode ser enquadrado como tal.

Uma jornalista da casa, Giuliana Morrone, resumiu: não é questão de idade, mas de caráter.

Com todos os percalços, o ato de coragem de Susllem deve ter efeitos duradouros na sociedade. Assim como as campanhas #ChegadeFiuFiu – contra as cantadas nas ruas – e #PrimeiroAssédio – que mostrava que nem meninas de 12 anos estão a salvo -, do coletivo Think Olga. E também a #MeuAmigoSecreto, que contava atitudes do dia a dia que são machistas, embora muitos homens não saibam/admitam.

Depois de Zé Mayer, ficará mais difícil colocar a culpa na idade. Ficará mais difícil não saber que elogios insistentes são assédio. Não saber que toques indesejados são assédio. Que, quando uma mulher diz “não”, é “não”. E, sobretudo, ficará mais difícil jogar tudo para debaixo do tapete. Que bom.

Vamos ver agora como a Globo vai se posicionar diante da campanha para expulsar Marcos por causa de seu comportamento agressivo do BBB 17. A hashtag #GloboApoiaViolência cobra coerência.

#ThatsHarassment.Para quem quer saber mais sobre assédio, uma sugestão: os seis vídeos criados por David Schwimmer inspirados no trabalho da israelense Sigal Avin. “Queria ver o que era assédio, em vez de ouvir ou ler sobre ele”, diz Avin. “Tudo era muito violento, ou muito irreal, mas não havia nada mostrando a zona cinzenta do assédio sexual”. Os vídeos mostram histórias curtas, baseadas em fatos reais, em ambientes de trabalho e até num consultório médico. Em vários, não há um contato explícito, mas situações muito desconfortáveis. São um bom guia para quem ainda tem dúvidas sobre o que é ou não assédio. A reação da mulher, em todos os casos, é a melhor medida: se ela deu um sorriso amarelo, tentou se afastar, cruzou os braços, baixou a cabeça… a mensagem está dada.

Curioso é que um dos vídeos mostra justamente o caso de um ator com uma figurinista (em inglês).

#ThatsFeminicídio. Enquanto falamos sobre o assédio, mais e menos explícito, Recife nos lembra quão grave é a violência contra as mulheres. Tássia Mirella Sena de Araújo, 28 anos, foi morta na quarta-feira, em seu flat, em Boa Viagem, pelo vizinho Edvan Luiz da Silva. A polícia acredita que a fisioterapeuta lutou com o agressor antes de ser estuprada e degolada. Ele foi preso preventivamente e deve responder por homicídio triplamente qualificado e feminicídio. Pelo menos duas testemunhas revelaram que Edvan assediava outras mulheres do prédio e teria feito imagens de Mirella. “Machismo matou minha filha”, disse Suely Araújo, antes do protesto que pediu justiça pela morte de Mirella.

E se fosse no Brasil? Depois que um casal homossexual foi agredido por andar de mãos dadas na Holanda, outros homens, héteros e homos, decidiram protestar. Foram às ruas de mãos dadas políticos, diplomatas e policiais contra a homofobia. Você consegue imaginar os políticos brasileiros fazendo um gesto como esse? Fica a sugestão.

Direito da gestante. O governo Michel Temer encaminhou à AGU um posicionamento contra a ampliação do direito ao aborto no Brasil.A ministra Grace Mendonça vai se basear na nota técnica que diz que “a vida do nascituro deve prevalecer sobre os direitos das gestantes” em manifestação ao Supremo, que irá julgar a causa. Parece que a posição agrada mais às lideranças religiosas do que à população brasileira. Uma pesquisa do Ibope divulgada pelo Correio Braziliense mostra que 64% dos brasileiros defendem que a interrupção da gravidez deve ser uma escolha exclusiva da própria mulher. Outros 9% acham que a decisão deve ser dos maridos/parceiros; 6% falam do Judiciário; 4% da Igreja; 1% da Presidência da República e 1% do Congresso Nacional. O levantamento ouviu 2 mil brasileiros, homens e mulheres, de 16 a 65 anos, em 143 municípios.

Igualdade salarial. O Google está pagando menos às mulheres do que aos homens, segundo o Departamento de Trabalho dos Estados Unidos. “Encontramos disparidades sistêmicas contra as mulheres em todo o quadro de empregados”, disse a diretora Janette Wipper. A empresa diz que fez uma análise dos salários, não encontrou nenhuma disparidade e questiona a instituição. Não é a primeira vez que o Departamento cutuca as empresas de tecnologia com vara curta. A Palantir, de análise de dados, está respondendo por discriminar asiáticos. A Oracle, por pagar mais a homens brancos do que a todos os outros funcionários. As duas negam as acusações. Mas talvez nem tenham que se preocupar com isso, porque Donald Trump revogou proteções aos trabalhadores estabelecidas por Obama. Detalhe: um executivo da Oracle era da equipe de transição do presidente americano e Peter Thiel, fundador da Palantir, é um de seus conselheiros. As relações entre poder público e empresas estão longe de serem simples e transparentes.

Descendo do salto. Sou fã de um bom salto. Dito isso, não gostaria de ter que usar um como “uniforme de trabalho”. Na província da Colúmbia Britânica, no Canadá, as empresas não podem mais exigir salto alto das funcionárias. Segundo a nova regra, os empregadores devem se preocupar com a segurança do calçado dos funcionários. E só. Os pés, os joanetes, as pernas e as costas das funcionárias canadenses devem ter agradecido.

Para inspirar. Uma reportagem sobre as meninas que arrasam na matemática e vão representar o Brasil na Olimpíada Feminina de Matemática, na Suíça. O objetivo do evento é incentivar meninas e mulheres na áreas de Ciência, Engenharia, Tecnologia e Matemática. São delas o nosso orgulho e a nossa torcida.

Até a semana que vem por aqui, ou, se preferir, me encontre no Facebook ou no Twitter.