Ele foi vítima de racismo. Ela, de assédio sexual.

Ele relatou a um outro profissional que foi excluído de uma entrevista de emprego por causa da cor da pele. ‘Poxa, você nunca percebeu que eu não contrato negros?’, teria dito o empregador ao RH, na frente do candidato.

Ela acusou um colega de trabalho de fazer comentários impróprios e de colocar a mão em sua genitália. ‘Você nunca vai dar para mim?’, teria dito o sujeito em uma das várias investidas.

Os dois casos chamaram muito a atenção dos internautas na semana que passou. Os dois falam de um tipo de violência contra minorias. Mas há uma diferença radical entre ambos: enquanto ele decidiu manter o sigilo sobre sua identidade e a identidade do agressor, ela decidiu dar nomes aos bois.

X., como podemos chamá-lo, explicou sua opção pelo sigilo à BBC. “Eu conheço o mapa mental do empresariado brasileiro, e, no Brasil, qualquer tipo de agressividade pode acabar se voltando contra você. Você pode rapidamente ser visto como ‘vitimista’ ou como um ‘cara problema’.”

E não há como discordar dele. Teme pelo futuro de sua carreira em um País em que muitos veem a política de cotas como uma ‘vantagem indevida para vagabundos’. Em que pretos e pardos são a maioria da população (52,9%), mas têm, em média, menos anos de estudo, e ganham cerca de 60% do salário médio dos brancos. Além de serem minoria nos cargos de chefia e maioria entre os desempregados.

O caso de X. só veio à tona porque o presidente da Bayer, Theo van der Loo, decidiu falar sobre o assunto. Após ouvir o relato, contou sobre a discriminação em sua conta no LinkedIn e lamentou que o conhecido não quisesse denunciar. Bom lembrar que racismo é crime no Brasil.

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Mas, desempregado há sete meses apesar da boa formação, X. não quis se arriscar – não de novo. Em outra empresa, havia topado com referências racistas a ele em e-mails e decidiu denunciar a situação. O caso foi abafado e ele acabou sendo demitido.

No blog #AgoraÉQueSãoElas, a figurinista Susllem Tonani acusou com todas as letras o ator José Mayer, da Globo, de perseguição e assédio sexual. Contou detalhes das investidas e de como, após ele chamá-la de “vaca” no meio do set de filmagem, decidiu ir ao RH da empresa. A Globo disse que apurou os fatos e está tomando providências. Zé Mayer, em nota, disse que estavam confundindo as atitudes de seu personagem, mais um garanhão de novela, com as suas próprias. Uma dúvida: mão que estava na b… era do personagem ou do ator?

O ator José Mayer - Luciana Prezia/Estadão

Su, como é conhecida, explicou sua decisão de falar. “Chega. Acusei o santo, o milagre e a igreja. Procurei quem me colocou ali. Fui ao RH. Liguei para a ouvidoria. Fui ao departamento que cuida dos atores. Acessei todas as pessoas, todas as instâncias, contei sobre o assédio moral e sexual que há meses eu vinha sofrendo. Contei que tudo escalou e eu não conseguia encontrar mais motivos, forças para estar ali.”

A figurinista já começou a sofrer consequências de sua atitude. A primeira foi a retirada de seu texto do ar – enquanto a Folha tentava apurar os outros lados da história. A segunda, o julgamento das pessoas sobre sua denúncia.

Outras consequências ainda podem vir. Talvez ela não consiga mais trabalhos na Globo. Ou mesmo em outras emissoras. Talvez outras pessoas a recriminem por expor uma figura tão conhecida por causa de uma ‘bobagem’. Talvez as testemunhas das agressões relatadas não confirmem os fatos, com medo de ter o mesmo destino que ela. Talvez nada aconteça ao galã global.

Por enquanto,  o colunista Fernando Oliveira noticia que Mayer estará fora da próxima novela. Ele estava escalado para ‘O Sétimo Guardião’, de Aguinaldo Silva, mas deve ficar de molho. Talvez até abandonar de vez os papéis de ‘garanhão do haras’. Aos 67 anos, porém, essa ‘aposentadoria’ possivelmente já fosse esperada.

Fato é que a forma como a Globo vai tratar o caso pode ter um impacto nas denúncias de assédio. Se Su for acolhida e ouvida, se sua denúncia foi devidamente apurada pelo RH e se, em caso de culpa, a punição for exemplar, outras pessoas podem se encorajar a falar sobre situações de constrangimento e assédio que enfrentam diariamente no trabalho.

Se, por outro lado, houver a percepção de que só a vítima saiu perdendo na história, como foi o caso de X.,  menos pessoas devem se sentir impelidas a denunciar. E o silêncio é uma das maneiras mais eficazes de perpertuar os abusos.

Torço para que possamos ter mais Susllem e menos X.

Virtual também é real. Se as agressões físicas nem sempre são reportadas, as do mundo virtual quase sempre passam em branco. Só 2% das meninas vítimas de agressão online registram boletim de ocorrência. É o que conta o novo curta da campanha ‘Não me sinto segura na internet’. Vale ver, compartilhar e, se for o caso, denunciar.

Temer e as mulheres. Reconhecido pelas bolas fora quando o assunto é mulher, o governo está prestes a marcar mais um gol contra. Vai se manifestar, via Advocacia-Geral da União, contra a ampliação do direito ao aborto. O tema está no Supremo Tribunal Federal sob relatoria da ministra Rosa Weber. O Executivo vai dizer que o direito do nascituro deve prevalecer sobre o da gestante. É fácil ser contra o aborto pensando exclusivamente no feto. Difícil mesmo é encarar o número de mulheres que morrem todo ano por causa de procedimentos feitos clandestinamente.

Tarde demais? Parecia piada, mas inventaram uma cola – feita de produto atóxico, é verdade – para grudar lacinhos na cabeça das bebês. Para mães que querem deixar claro para o mundo que se trata de uma menina e porque, segundo o slogan, nunca é ‘cedo demais para ser feminina’ (ou ‘too early to be girlie’). Ou, como diz o vídeo, para que os estereótipos nunca desgrudem da cabeça das meninas…

Ordem e progresso. Falando em estereótipos e padrões, uma escola particular de Recife gerou polêmica ao enviar uma carta aos pais (mães, na verdade) pedindo que usassem “roupas menos curtas, menos decotadas e menos extravagantes” para buscar os filhos. A justificativa: “bom senso e discrição são marcas de uma sociedade educada e moderna”. Bem moderna.

O rapper e a bunda. Um breve trecho do clipe de Humble, nova música de Kendrick Lamar, sacudiu a internet. O artista diz que está cansado de Photoshop, que quer ver algo natural, como uma bunda com estrias. Ganhou a simpatia de milhões de mulheres, que se sentiram, finalmente, representadas.

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Lenu e Lila. Além de esperar a tradução para o português do quarto e último livro da série napolitana – o que deve acontecer no próximo semestre -, os fãs de Elena Ferrante também podem aguardar uma série de TV baseada na obra. Quem vai fazer é a HBO, com ajuda da própria autora, que prefere manter-se no anonimato.