'Comic Con das favelas' traz atrações de cultura nerd e pop para periferia de SP

Caio Nascimento* - O Estado de S.Paulo

De escravidão a Aquaman, 1ª edição da PerifaCon contrapõe CCXP e mostra que juventude mais pobre deseja consumir produtos geeks de maneira mais acessível

Jovem fantasiado de Batman olhando para o horizonte de casas do Capão Redondo.

Jovem fantasiado de Batman olhando para o horizonte de casas do Capão Redondo. Foto: PerifaCon / Divulgação

"Não é porque estamos afastados de regiões ricas que somos diferentes. Consumimos o mesmo tipo de conteúdo vendido nos centros da cidade". Essa é a visão de Luíze Tavares, de 22 anos, e de outros seis jovens que estão organizando a PerifaCon, um evento gratuito de cultura pop, geek e nerd do Capão Redondo, periferia de São Paulo, que será realizado pela primeira vez no domingo, 24.

O objetivo da iniciativa é levar esse mundo a todos, uma vez que pessoas mais pobres nem sempre têm condições de pagar pelos ingressos da Comic Con Experience (CCXP), que variam entre R$ 90 e R$ 430. "A PerifaCon foi feita para um público que não pode arcar com esse valor", conta Luíze. "Dos sete organizadores, todos são da periferia e apenas um foi à Comic Con, porque conseguiu juntar dinheiro. É uma cultura de alto custo", completa.

A afirmação dela se reflete na realidade de outros jovens de zonas pobres de São Paulo. Gustavo Batista, de 17 anos, mora na Vila Brasilândia e se identificou com a ideia, porque lembra que já ficou sem comer na Comic Con por falta de dinheiro. "Não comia nada porque as coisas são muito caras, inclusive as pequenas. Até hoje, só comprei um chaveiro lá por 15 reais", diz. Segundo a CCXP, a média de gastos dos participantes é de R$ 300 dentro do evento.

Gustavo Batista na ComicCon. 

Gustavo Batista na ComicCon.  Foto: Cedida por Gustavo Batista

De escravidão a Aquaman

A PerifaCon terá 45 expositores e 24 palestrantes distribuídos nos quatro andares da Fábrica de Cultura do Capão Redondo. Dentre eles, estão Marcelo D'Salete, com seus quadrinhos sobre escravidão; Loud e Load, com a exposição Rap em Quadrinhos; e a Companhia das Letras, que leva um trono de Game of Thrones para as pessoas tirarem foto.

Além disso, a Chiaroscuro Studios, uma das maiores agenciadoras de quadrinistas do mundo, vai avaliar portfólios de futuros talentos, dar autógrafos e debater com artistas. O ilustrador Joe Prado, que renovou os desenhos de Aquaman, Cyborg e outros títulos da DC Comics, também estará presente.

Vale destacar que o rapper Rashid discutirá a influência do mundo nerd e geek em suas músicas; KL Jay, dos Racionais MC's, vai debater resistência e arte; e haverá salas de jogos, concursos de cosplay e apresentações de K-pop (pop sul-coreano).   Veja abaixo a programação completa.

Programação mostra diversidade dos 'gamers' com jogo indígena 'Huni Kuin: Yuni Baitana' e confronta DC Comics com Marvel.

Programação mostra diversidade dos 'gamers' com jogo indígena 'Huni Kuin: Yuni Baitana' e confronta DC Comics com Marvel. Foto: Divulgação / PerifaCon

'PerifaCon é um encanto para a periferia'

O evento, que se autointitula "Comic Con das favelas", anima o jovem Gustavo Batista. Mesmo sem condições financeiras de consumir produtos geeks do jeito que gostaria, ele desfruta da cultura nerd desde os seus 12 anos, o que o levou a ler mais livros e se inspirar nas boas atitudes dos heróis da Marvel. "O herói pensa de um jeito e eu trago a visão dele para o mundo real. É um tipo de conselheiro emocional", explica.

Ele é fã de Justiceiro, com quem aprendeu a lidar com perdas e conflitos interpessoais; Homem-Aranha, que mostra como lutar pelas pessoas que ama; e Pantera Negra, que diz respeito a força de T'Challa, cientista e rei de Wakanda - país africano fictício da Marvel.

"Ele sempre me deu inspiração para continuar na luta e não desistir dos meus objetivos. Ele é negro assim como eu, então me ensina a nunca deixar ninguém me menosprezar pela cor da minha pele", afirma.

A representatividade de Gustavo encontra espaço na PerifaCon. A pesquisadora de afroancestralidade em quadrinhos, Lya Nazura, vai discutir o tema com o público ao lado dos ilustradores negros Marcelo D'Salete, Marília Marz e Robson Moura, das 11h às 12h. "Isso é legal, porque vejo aqui [na Vila Brasilândia] que muitas crianças não têm a oportunidade de conhecer esse mundo. Trazer isso para a periferia faz com que elas conheçam coisas novas", diz o rapaz. "A PerifaCon é um encanto para a periferia", completa.

D'Salete vai de encontro com a visão de Gustavo. Vencedor do prêmio Eisner e Jabuti, com sua obra em quadrinhos Cumbe - que conta a história de negros escravizados no Brasil -, ele analisa que o PerifaCon tem uma proposta diferente da Comic Con. "É um evento questionador, com uma troca de cultura nerd e geek produzida na periferia", afirma.

Serviço

Data e horário: 24 de março de 2019, das 10h às 19h.

Entrada gratuita

Local: Fábrica de Cultura do Capão Redondo (Rua Algard, em esquina com a rua Trevo Branco, sem número, em São Paulo - SP). Haverá um espaço para as crianças e praça de alimentação durante todo o evento.

*Estagiário sob a supervisão de Charlise Morais