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“Você tem a vida toda pela frente!”, ouvi uma vez de uma tia, como se o fato de eu ainda ser jovem me blindasse ou fosse o antídoto para combater qualquer tristeza que eu eventualmente pudesse sentir. Depressão, então, sempre era colocada ‘na conta’ da adolescência, ‘é assim mesmo, quando casar sara’.

De uns anos para cá, ainda bem, os adultos têm olhado o sofrimento psíquico dos jovens de forma mais atenta, mas mesmo assim as taxas de suicídio em adolescentes no Brasil aumentaram 24% de 2006 a 2015, segundo estudo realizado pela Unifesp, a Universidade Federal de São Paulo. E o ato de atentar contra a própria vida já é a segunda principal causa de morte na faixa etária de 15 a 29 anos, o que é assustador. O que mudou é que hoje em dia, com campanhas como a do ‘Setembro Amarelo’, o assunto deixou de ser tabu na imprensa o que é ótimo, celebra o médico psiquiatra Neury J. Botega, professor-titular da Unicamp e membro fundador da Associação Brasileira de Estudos de Prevenção ao Suicídio. Há mais de 30 anos pesquisando o assunto, escrevendo livros, atendendo pacientes adolescentes e mantendo um perfil no Instagram onde fala abertamente sobre suicídio, Dr.Neury aponta caminhos para que os pais descubram se os filhos precisam de ajuda. “Se diz que santo de casa não faz milagre. Mas no momento correto, com jeito, você pode oferecer ajuda. Às vezes é mais fácil para um adolescente se abrir com um especialista do que com o pai, com a mãe”, explica.

Blog: Uma pesquisa recente feita pela Unifesp e publicada na Revista Brasileira de Psiquiatria apontou que enquanto os índices de suicídio caem em todo o mundo, a taxa entre adolescentes que vivem nas grandes cidades brasileiras aumentou 24% entre 2006 e 2015. Até pouco tempo atrás a gente não tinha ideia que isso acontecia entre adolescentes e crianças.

Dr. Neury: A campanha do ‘Setembro Amarelo’ começou em 2015 e até essa época havia uma grande restrição da temática do suicídio na imprensa. E agora, por causa da campanha e do crescimento das redes sociais, o assunto foi deixando de ser tabu, começou a haver uma maior divulgação de dados que já existiam e não eram tão conhecidos. Já havia muitas pesquisas populacionais feitas, inclusive no Brasil. Eu mesmo nos últimos 30 anos à frente da Unicamp fiz muita pesquisa, publiquei muita coisa. Eu trabalho com a prevenção de suicídio há 30 anos, em uma época em que não era tão comum.

Então uma das surpresas para quem nunca tomou o contato com o assunto é exatamente essa, como esse fenômeno tem uma magnitude maior do que aquela imaginada. E, de fato, quando você pega o número da Organização Mundial da Saúde dos últimos dez anos, sabe-se que 83% dos países conseguiram reduzir taxas de suicídio. Infelizmente o Brasil está entre estes 17% onde os números aumentaram. Então, nos últimos de dez anos, a taxa de suicídio cresceu no mundo por volta de 13%. Um crescimento que está aumentando ano a ano. Agora quando a gente divide a população em faixas etárias a que está tendo maior aumento de suicídios é entre 10 a 19 anos de idade, principalmente entre jovens do sexo masculino.

O médico psiquiatra e professor-titular da Unicamp, Neury J. Botega

Blog: Essa realidade é aterradora.

Dr. Neury: E quando a gente fala de suicídio estamos falando do ápice de uma pirâmide de comportamentos autoagressivos. Entre os adolescentes hoje, inclusive entre adolescentes muito jovens, é comum que eles se cortem de forma superficial e outras automutilações. É como uma maneira até de manifestar dor, inconformismo, sofrimento psíquico de um modo geral. Até na falta de uma linguagem, de uma paciência, de uma resiliência que serve para dar conta das adversidades da vida e dos desafios que a gente enfrenta durante a adolescência e juventude. É um fenômeno que cada vez mais a gente vai ouvir falar e temos que estar preparados para lidar com esses jovens, esses adolescentes.

Blog: Quando o senhor fala sobre se automutilar o senhor fala de uma prática desses jovens em se machucar?

Dr. Neury: Sim. São cortes superficiais que muitos fazem nos braços, nas coxas e na barriga, o que em inglês é chamado de ‘cutting’, uma expressão que tem sido usada também em português. É algo que é mais comum na primeira parte da adolescência. Acontece muito quando eu dou uma palestra de professores me perguntarem ‘o que eu faço com adolescentes de 12 anos que já estão se cortando?’, é um fenômeno que está cada vez mais presente.

Blog: Essa é uma forma do adolescente mostrar que está em sofrimento psíquico – mas ele também está causando um sofrimento físico quando se corta.

Dr Neury: Sim, mas é que às vezes o sofrimento físico é capaz de anular o relativizar o sofrimento psíquico. É um deslocamento, vamos dizer, desse foco de atenção e da dor. Muitos adolescentes nos contam que depois de se cortarem eles conseguem, paradoxalmente, se acalmar, uma ideia que para nós à primeira vista é estranha. Mas é uma forma de se acalmar para lidar com o caos interno, por que para a gente poder sofrer e digerir situações difíceis na vida a gente tem que pensar, examinar os sentimentos. E muitas vezes o jovem está tão desesperado que ele não consegue pensar, ele só quer fazer ‘alguma coisa’. Então quando ele parte para um ato que é o de se cortar ele até deixa de pensar e ‘não pensando’, ele não sofre. Ou sofre menos.

Blog:  Existem muitos jovens que estão em profundo sofrimento, mas que não se cortam, por exemplo. Quais são os outros sintomas que devem chamar a atenção dos pais?

Dr. Neury: São mudanças no comportamento habitual. Adolescentes passam por mudanças de humor ou tem algum comportamento impulsivo, isso faz parte dessa fase, o adolescente ainda não tem um bom controle dos impulsos. Mas aquela mudança que se mantém, que são dias trancado no quarto, com um rendimento escolar piorando. Aquele adolescente que era sociável e que se isola, faz postagens falando muito de morte, de falta de sentido da vida. É preocupante quando esse comportamento muda, adquire um novo padrão. É quando aquele jovem não está apenas em um mal-estar passageiro, é quando alguma coisa mais séria está acontecendo no mundo psíquico dele e os pais têm que reparar. É por isso que a gente pode aconselhar aos pais a ter um olhar mais atento, a se aproximar em tempos em que os adolescentes ficam muito tempo isolados e às vezes não dão acesso ao que está acontecendo lá no íntimo dele.

Blog: E muitas vezes os pais podem perceber que o filho está passando por isso, tentam acessá-lo, mas não conseguem. Adolescência, muitas vezes, é uma fase de afastamento entre pais e filhos. O que fazer?

Dr. Neury: Existe uma regrinha que eu bolei que chama”ROC”, com os passos que a gente deve dar. O ‘R’ é de ‘repare no risco’. Às vezes uma pessoa muito querida sua, como um filho, mas também pode ser um parceiro, amigo, colega de trabalho está mal e não passa na cabeça da gente que aquela pessoa esteja pensando em suicídio, porque pensar sobre isso é doloroso. Quando isso passa pela minha cabeça eu começo a sofrer, então muitas vezes eu prefiro não ver, não ‘cai a ficha’. O ‘O’ é de ‘ouça’ com atenção, sem julgar, sem rapidamente consolar, sem falar palavras de otimismo, conclamar a pessoa a obter ‘uma vitória sobre si mesma’, sem essa baboseira de autoajuda. Tem que ouvir a pessoa, circular pelo inferno que ela está vivendo para que ela perceba que a gente está do lado, que não queremos que ela mude rapidamente para que a gente fique realizado. E o ‘C’ é de ‘conduza’ a um profissional de saúde mental. Se diz que santo de casa não faz milagre. Mas no momento correto, com jeito, você pode oferecer ajuda, com um psicólogo, um psiquiatra especialista. Isso pode ser muito útil, porque às vezes é mais fácil para um adolescente se abrir com um especialista do que com o pai, com a mãe.

Blog: E os motivos para chegar a esse estado, de se considerar o suicídio como alternativa, passam pela depressão?

Dr. Neury: A grande maioria das pessoas que sofre de depressão não chega ao suicídio, mas quando são estudados os casos de suicídio a gente vê que um dos problemas frequentes enfrentados por essa pessoa, somado à outros problemas, é a depressão. O suicídio não se explica por uma causa única, é errado tentar explicar o suicídio de uma forma simples, porque ele é um fenômeno complexo. Mas é fato que a depressão é um dos fatores mais frequentemente encontrados entre as pessoas que se mataram.

Blog: No ano passado, três adolescentes de escolas particulares de São Paulo se suicidaram, o que causou comoção e uma série de reflexões sobre o assunto, entre elas sobre o excesso de expectativas que se deposita sobre esses jovens. O senhor que atende adolescentes que buscam ajuda psiquiátrica, o que ouve deles em relação a isso?

Dr. Neury: O jovem sofre essa pressão por desempenho, para ‘se dar bem’. Antigamente andávamos mais em bando e tínhamos amigos reais, participando do dia a dia. Hoje o jovem está mais ligado em redes sociais, mais isolado, e as expectativas sobre ele aumentaram muito. Famílias de um filho só, toda atenção em cima dele, então às vezes é difícil mesmo para um adolescente dar conta das pressões que ele incorpora e que vêm da sociedade e da própria família. E sempre que um suicídio ocorre em uma escola ele pode, e aí vamos colocar entre aspas, ‘contagiar’ os amigos que estavam mais vulneráveis e que passam a pensar que o suicídio é uma saída para aquelas dificuldades que ele vê como extremas, insuperáveis, insuportáveis. Isso é algo que não é desconhecido na literatura científica, um suicídio em alguns ambientes e instituições levar a novos casos.

Blog: Inclusive esse ‘efeito contágio’ era o motivo pelo qual o suicídio era um assunto que não era tratado pela imprensa até alguns anos atrás.

Dr. Neury: Sim, mas hoje isso vem sendo tratado de uma forma diferente. Se a reportagem for sensível, sem romantizar o suicídio ou a pessoa que se matou, se informar sobre fatores ligados ao suicídio, se informar um quadro de sintomas que caracteriza a depressão, citar telefones como o do CVV (Centro de Valorização da Vida) o efeito é contrário. Hoje a gente vê que o papel da imprensa é fundamental. As pessoas estão muito mais conscientes que o comportamento suicida é algo sério: diariamente 38 pessoas no Brasil põem fim à própria vida, e isso é um número muito alto. Por isso que a gente tem que conversar muito sobre o assunto, não podemos incrementar esse tabu.

Blog: E por que são mais meninos adolescentes que se matam do que meninas? A literatura já tem algo a dizer sobre esse assunto?

Dr. Neury: Os meninos são mais impulsivos e tendem usar métodos mais letais, mais violentos. E o número de suicídio é maior entre os homens, no sexo masculino. Mas o número de suicídios também aumenta entre as meninas, só que aumenta mais entre os meninos e deve ser por uma questão cultural. Uma maior agressividade, ao acesso de meios mais letais, que é maior no sexo masculino.

Blog: Se o senhor pudesse dar um conselho aos pais, qual seria?

Dr. Neury: Mudanças de humor e de comportamento na adolescência que vêm de modo súbito e passageiro a gente pode dizer, ‘ok, é da idade’. Mas quando a gente vê que o jovem muda, parece diferente por duas ou três semanas, fala em se matar, um jovem que já vem mostrando dificuldade para lidar com o ‘não’ e com as adversidades, ele precisa de ajuda, nós não podemos ficar paralisados. É importante conduzi-lo até um profissional de saúde mental.

Saiba mais sobre o ‘Setembro amarelo’ na página feita pelo CVV, o Centro de Valorização da Vida. O CVV oferece apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo de forma voluntária todas as pessoas que querem conversar por telefone, o 188, email, chat e voip.

Leia mais: ‘Toda vez que um adolescente falar em suicídio a gente tem que levar a sério, tem que agir’

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