A divulgação de que dois alunos do ensino médio do Colégio Bandeirantes, um dos mais tradicionais e conceituados de São Paulo, suicidaram-se em casa em um intervalo de pouco mais dez dias e a estreia da segunda temporada de 13 reasons why na Netflix, série que fala sobre o suicídio de uma adolescente e sobre as causas e as consequências dessa ação na vida de seus amigos e de sua família, trouxe à tona um dos grandes dilemas da imprensa: devemos falar abertamente sobre suicídio?

Até pouco tempo atrás, a mídia evitava o assunto baseada no “efeito Werther”, termo inspirado no romance “Os sofrimentos do Jovem Werther”, de Goethe, que defende que um suicídio publicizado serve como gatilho para o suicídio de pessoa suscetível e sugestionável. (Após a publicação do livro teria ocorrido uma onde de suicídios na Europa, atribuída à influência do personagem que, sofrendo por um amor impossível, tira a própria vida.) Mas, hoje em dia, muitos estudiosos do assunto, como a Doutora em Psicologia pela USP e membro do Conselho do CVV (Centro de Valorização da Vida), Karen Scavacini, têm uma outra visão sobre a questão. Ela acredita que o suicídio precisa ser exaustivamente debatido pela imprensa, que deve noticiar os casos “sem julgar e sem romantizar”, opina. A psicóloga alerta que os pais não podem minimizar quando os filhos dizem que podem ou desejam se matar, acreditando na máxima de “quem fala, não faz”. “Se o adolescente está falando, a gente precisa dar atenção, precisa começar uma conversa aberta, franca e cuidadosa para entender se esse jovem realmente está pensando em cometer suicídio”, alerta.

Blog:  Esse aumento no número de suicídios é sintoma de alguma coisa? Se sim, do quê?

Dra. Karen:  Esse aumento de suicídios observado nos registros do Ministério da Saúde (65% entre jovens de 10 a 14 anos, de 2000 a 2015) e os suicídios que a gente tem visto nos colégios – é bom que se diga que não são apenas naqueles da rede particular que isso existe – faz com que a gente perceba que essa geração está com mais dificuldade para lidar com as frustrações, porque desde criança não as tem enfrentado. E isso faz com que, na adolescência, qualquer decepção que aconteça se torne algo muito maior, porque não houve espaço para essa criança desenvolver resiliência.

Mas o jovem também tem enfrentado uma pressão muito maior, tanto da sociedade quanto de seus pais, para ser bem-sucedido e para conquistar muitas coisas. Dá para perceber, ainda, que existe uma mudança nos relacionamentos, que estão ficando muito virtuais. Há muitas famílias que praticamente se comunicam somente por Whatsapp e por Facetime e que não têm uma conversa aberta com os filhos, sobre os assuntos que surgem na adolescência. Também percebo que há um crescente aumento no uso de álcool e de drogas pelos jovens, de casos de ansiedade e de depressão, também como um reflexo da dificuldade que enfrentam dentro dessa sociedade. Outra coisa digna de nota é o aumento do cyberbullying, o assédio virtual, algo que está fugindo ao controle, e os jovens não sabem lidar com isso.

Blog: As redes sociais estão piorando essa ansiedade entre os jovens?

Dra. Karen: Já existe algo que a gente chama de “efeito Facebook”, que é quando os jovens acreditam em tudo o que eles veem na rede social, que todo mundo tem uma vida mais legal que a deles, que a tristeza não é algo que faça parte da vida das pessoas. Aí quando ele se vê triste não reconhece esse sentimento como algo normal,  que acontece e que vai passar.

Blog: Os adolescentes que pensam em suicídio costumam dar sinais que os adultos de repente não estão percebendo? É possível que os pais achem que está tudo bem e não esteja tudo bem?

Dra. Karen: Sim. O que acontece é que, às vezes, os sinais não são assim tão fáceis de serem percebidos. Até pela série (13 reasons why) dá para ver pela Hannah. Todos que assistiram à série percebem que ela tem depressão, mas esses sinais não são tão claros assim para quem está de fora. O que a gente tem que observar? O adolescente já é meio entediado por natureza, mas temos que ficar de olho em um tédio que é constante. Se ele tem dificuldade de concentração, descaso com a aparência, se tem tirado notas ruins, se o interesse pela escola diminuiu e se há má conduta na sala de aula. Também deve chamar a atenção algumas dores físicas, como dor de cabeça, de estômago, que não são muito bem explicadas pelo contexto, intolerância com as pessoas, maior agressividade, principalmente em meninos. Com as meninas há um dificuldade em receber elogios, baixa auto-estima, perda de prazer em realizar atividades, algo bem típico da depressão, quando nada mais agrada, nada mais dá prazer.  E também tem de prestar atenção quando o adolescente começa a falar ou a fazer posts nas redes sociais, dizendo ‘que não aguenta mais’, ‘que a vida está muito ruim’, que ele logo vai ‘resolver tudo isso’. E toda vez que se falar em morte, em suicídio, a gente tem que levar a sério, tem que agir. Tem pais de adolescentes que dizem que é uma tentativa do adolescente de “chamar a atenção”, de dizer que quem ‘fala não faz”. De forma alguma. Se o adolescente está falando, a gente precisa dar atenção, precisa fazer alguma coisa e essa “alguma coisa” tem que começar com uma conversa aberta, franca e cuidadosa para entender se esse jovem realmente está pensando em cometer suicídio, se ele pensa em morte, a frequência que ele pensa nisso, para depois disso levar para uma avaliação ou psiquiátrica, ou psicológica, ou para as duas.

A atriz Katherine Langford, que vive a personagem Hannah Baker na série 13 reasons why

Blog: O adolescente que pensa em suicídio necessariamente tem depressão?

Dra. Karen: Sim. A maioria deles. Só que nos jovens essa depressão não é diagnosticada tão facilmente e eles muitas vezes não apresentam os sintomas clássicos da depressão.

Blog: A depressão do jovem é facilmente confundida com ‘sintomas’ da adolescência?

Dra. Karen:  Sim. O que vai dizer pra gente que esse ‘sintoma’ da adolescência vai virar depressão é o quão intenso ele é e quanto tempo dura. A adolescência é um período de crise, você espera que eles tenham altos e baixos dentro desse período.  Uma coisa é ficar mal quando terminou com a namorada, ficar mal quando se está lidando com o término de relacionamento, quando se tirou notas baixas. Isso não é depressão. Outra coisa é o jovem começar a ficar mal sem você entender de onde isso veio, quando ele sente desesperança, quando acha que nada vai melhorar, quando não se sente capaz de fazer nada, onde acha que é muito inadequado. Se passou um mês e esse adolescente continua do mesmo jeito, na mesma intensidade, daí vale a pena investigar, isso é um sinal. Para você perceber todas essas alterações de comportamento você precisa olhar para esse adolescente, ter contato com esse adolescente. E o que a gente vê são jovens muito sozinhos, distantes da família – e eu não estou culpando as famílias, porque o suicídio é algo multifatorial, ter problemas com a família é apenas um dos fatores dessa história toda. Mas para a gente perceber que tem alguma coisa estranha com esse adolescente você precisa prestar atenção nele, senão os sintomas da depressão passam despercebidos.

Blog: Esse assunto não é tabu apenas na imprensa, né? A palavra ‘suicídio’ é meio maldita, evitada inclusive pelas pessoas que enfrentaram um caso na família.  Na hora de falar do que a pessoa morreu, se diz apenas que “tirou a própria vida”, isso quando essa história é contada, inclusive. Por quê?

Dra. Karen: A gente nota que é tabu quando faz tratamento de pessoas enlutadas pelo suicídio, muitas delas se questionam se vão contar para a sociedade ou não que aquela morte foi por suicídio. Mas o julgamento também é algo muito forte, porque quando a sociedade fala sobre essa morte, faz perguntas muito cruéis à família, “mas você não viu nada, não percebeu nada?! Eu li no jornal que quem vai se suicidar passa sinais! Você não percebeu os sinais?” A sociedade acaba procurando um culpado, isso é muito comum, para explicar uma morte que muitas vezes é absurda e não tem necessariamente uma explicação tão simples.

Blog: A imprensa tem que falar sobre suicídio? Qual o jeito certo da imprensa falar sobre o assunto?

Dra. Karen: A gente precisa falar sim e, nas reportagens, existe um jeito certo de tratar esse assunto. Você reporta o caso de suicídio sem julgar, romantizar. É necessário que a matéria indique locais onde procurar ajuda e mostre que existem saídas antes de se recorrer ao suicídio, outras formas de enfrentar as adversidades da vida, conte a história de pessoas que sobreviveram, dê exemplos de superação, sempre apontando caminhos. Esse seria o chamado ‘efeito papageno’. O Papageno é um personagem da (ópera) Flauta Mágica, de Mozart que, quando decide que vai cometer suicídio conversa com três pessoas que o demovem da ideia, apontam a ele outras saídas.  E ele não se mata. E esse método está sendo utilizado para debater os benefícios de se falar sobre suicídio na mídia.

Blog: Serviços como o CVV ajudam de que forma? Os jovens conseguem se abrir com uma pessoa que eles nem conhecem?

Dra. Karen:  As chances são enormes. Muitas vezes é mais fácil se abrir com um estranho do que com alguém conhecido, embora não dê para generalizar. Tanto que quando a primeira temporada da série 13 reasons why foi disponibilizada, o CVV teve um aumento de procura de 400% no número de ligações. O CVV também usa muito o chat e por lá os jovens se abrem com mais facilidade, porque é a linguagem dos jovens. Uma outra coisa que eu costumo dizer é que o suicídio não pode ser um segredo, porque muitos jovens costumam falar sobre esses pensamentos suicidas com amigos.  A gente tem até um mote que é “é melhor um amigo bravo do que um amigo morto”, que usa para dizer a esse jovem que quando ele recebe a comunicação suicida de um amigo ele não pode guardar segredo, ele precisa conversar com alguém sobre isso. E quando vamos às escolas, a gente capacita os jovens a identificarem quem, entre os amigos, precisa de ajuda.

Blog: A pessoa que pensa em suicídio deu algum sinal antes? Ou pode ser algo completamente inesperado e silencioso?

Dra. Karen: Também pode ser completamente inesperado e silencioso. Tem casos que a gente procura indícios e não acha. Mas isso acontece também porque há muitos sinais que só fazem sentido depois da morte. Às vezes uma frase solta não faz sentido na hora, só depois. Mas tem alguns casos de suicídio que, antes de acontecerem, não foram dados sinais. O que é muito difícil para aqueles que ficam. Quando foram dados sinais, há culpa. E quando não foram dados sinais a culpa também aparece.

Precisa de ajuda? Ligue para o CVV no 188 ou acesse, aqui, o chat do Centro da Valorização da Vida.

Leia mais: ‘Precisamos criar meninos emocionalmente saudáveis e que não sejam estupradores’, afirma produtor-executivo da série 13 reasons why

Leia também: Estar sempre com os filhos não é o melhor para os filhos