Foto: Divulgação ‘De Peito Aberto’.

Quando a filha da documentarista Graziela Mantoanelli nasceu, amamentar logo se mostrou um desafio para o qual ela estava pouco preparada. A bebê, prematura de 35 semanas, ficou internada na UTI do hospital e oferecer o leite materno para sua filha era o que mais queria, mas nem sempre esse desejo é respeitado por alguns hospitais, que menosprezam os benefícios do leite materno e insistem na praticidade da fórmula. Graziela contratou uma pediatra particular que apoiava a amamentação, “um privilégio para poucas”, pontua, e conseguiu que sua vontade fosse respeitada. Mas, semanas depois, quando chegou com a bebê em casa, descobriu o que a maioria das mães entende rapidamente: amamentar não é fácil. Entrou em depressão, algo mais comum em puérperas do que a gente imagina. Foi tratada, outro privilégio. E Clara mamou até os três anos de idade, um ano além do recomendado como o ideal pela OMS, a Organização Mundial da Saúde.

Uma das mães acompanhadas pelo documentário ‘De Peito Aberto’. Foto: Divulgação.

Dessa saga nasceu o desejo de fazer um documentário sobre amamentação, algo que chegasse a todas as mães e que virasse material de aulas, discussões, rodas de conversa. Um financiamento coletivo conseguiu custear os oitos meses de filmagem do “De peito aberto” e depois o dinheiro para tratamento, montagem, trilha sonora saiu do bolso de Graziela e do marido, Leonardo Brant, produtor do filme, e de alguns apoiadores pontuais. Cinco anos depois do primeiro grito de “gravando” conseguiram uma distribuidora e a aprovação do Fundo Setorial do Audivisual da Ancine, que ainda não saiu – e existe o risco de que não seja liberado devido às últimas movimentações do atual governo. “Nossa previsão era agosto, na semana mundial do aleitamento materno e não deu. Aí eu fiquei mal, mas uma mulher me escreveu no site do filme contando que mora em uma cidadezinha do interior, sem médico, sem informação e que quer muito amamentar, achou a gente na internet, assistiu parte do material e ganhou forças. Eu estava desistindo aqui e pensei vamos lá, lançar um documentário é mais ou menos como a luta para amamentar, é contra tudo e contra todos”, explica Mantoanelli.

Mãe acompanhada por seis meses pelo documentário. Foto: Divulgação.

O documentário ‘De Peito Aberto’ acompanhou a saga de seis mães de diferentes realidades durante os primeiros 180 dias de vida de seus bebês. As emoções, embates e questões como o papel da mulher na sociedade atual, a relação entre maternidade e trabalho, as políticas públicas para amamentação e os interesses privados por trás do desmame precoce são o pano de fundo do filme. Graziela conta é como se cada mãe contasse um pedaço da sua própria história, que também é a da maioria das mães. “Uma delas teve muita dificuldade, chegou ao fundo do poço da exaustão, falava que não ia dar conta, que ia desistir.  Os grupos de mãe no Facebook ajudaram ela demais, ela conseguiu e acabou até se tornando doadora de leite, chegou a doar um litro por semana”, conta.

Graziela revela que não conseguiu ser uma mera diretora/espectadora e confessa que se envolveu particularmente em uma situação retratada pelo documentário. Uma das mães estava às vésperas de voltar ao trabalho quando foi orientada pelo pediatra a dar complemento, dizendo que o bebê não estava ganhando peso suficiente (um clássico dos consultórios de pediatria). “Foi o meu primeiro dilema ético, eu estava prestes a ver um bebê desmamando. A escolha foi documentar essa intervenção: eu liguei para uma consultora de amamentação que eu confio muito e essa mãe, que já tinha muito leite congelado, conseguiu se reorganizar.  Dar leite artificial tendo leite materno congelado?”, pergunta. O bebê mostrado no documentário também mamou além dos dois anos que a OMS estipula como meta, conta. Graziela, contudo, destaca que não é contra o leite industrializado para bebês. “A fórmula é importante, algumas mães precisam dela, e às vezes a mãe também não quer amamentar. O corpo é da mulher, ela que tem que decidir, mas tem que ser em cima de informações de qualidade.  Às vezes ela está sendo sabotada e não percebe, é muito ardilosa essa indústria das fórmulas para bebê”, aponta.

A saga dessas mães é recortada por depoimentos de diversos especialistas sobre amamentação e maternidade, entre eles a terapeuta argentina especializada em maternidade e autora de diversos best-sellers sobre o assunto, Laura Gutman, o pediatra espanhol Carlos González, também autor de vários livros, o pediatra e presidente do Departamento Científico de Aleitamento Materno da Sociedade de Pediatria de São Paulo, Moisés Chenciski, um dos maiores defensores brasileiros da amamentação, e o psicólogo e terapeuta de familiar Alexandre Coimbra Amaral. Eles pontuam os desafios físicos, sociais, culturais e emocionais que as mulheres têm que enfrentar para viver essa jornada tão intensa da amamentação e ressaltam a falta de políticas públicas, reconhecimento social e o apoio prático e emocional à mulher que amamenta.

Bastidor da gravação com o pediatra espanhol Carlos González.

Graziela está na contagem regressiva para a estreia. “Independentemente do número de salas, a gente precisa levar público nos primeiros quatro dias. O filme nos cinemas fortalece a pauta do aleitamento materno. A gente não pode mais falar sobre para iniciados, temos falar também com pessoas que não têm acesso a informação de qualidade, que ouvem bobagens de profissionais da saúde. Apesar de todas as informações cientificas estarem disponíveis existe algo que é a cultura do aleitamento, se uma mulher nunca viu uma mulher amamentar, ela tem mais dificuldade. Se a gente não construir essas imagens, estamos perdidas. Eu estou muito nessa batalha”, conta. Contra tudo e contra todos.

De Peito Aberto estreia dia 26/09, quinta-feira. As salas em que estará em cartaz e os horários de exibição serão publicados no site do filme, no Facebook e Instagram.

Assista ao trailer aqui.

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