Fernanda Gentil e o filho, Gabriel

Fernanda Gentil e o filho Gabriel, 2 meses

Oi, Fernanda, tudo bem?  Primeiro queria te dar os parabéns pelo nascimento do seu filho. Esses primeiros meses da vidinha deles não são fáceis mesmo. Também queria te contar que passei exatamente pelo mesmo que você está passando ao tentar amamentar meu filho. Achei que seria lindo, natural e automático e foi o oposto: tudo uma grande frustração.

Minutos depois que meu filho nasceu, já veio pro peito. Eu estava toda emocionada, olhos cheios de lágrimas. Ajeitei ele no bico, acariciei sua cabecinha. Um dos médicos da equipe me tirou daquele mundo encantado onde eu me encontrava: “Seu filho está fazendo seu peito de chu-pe-ta! Não deixe ele fazer seu peito de chupeta!” Eu nunca tinha ouvido falar disso antes. O que estávamos fazendo errado? Qual era o certo? Ninguém veio me dizer, pelo contrário. A todo momento eu ouvia que havia ou fazia algo errado. Meu peito era “plano”. Por isso mandaram, ainda no hospital, que meu marido comprasse um bico de silicone. Tentei amamentar com o tal bico. Será que meu filho está mamando? Será que esse bico está funcionando? Ninguém sabia me dizer. Até aparecer uma enfermeira que sentenciou: eu estava fazendo tudo errado mais uma vez. Qual era o certo? Jamais saberia. Não a tempo de corrigir a rota.

A jornalista Fernanda Gentil desabafa, em seu Instagram, sobre as dificuldades da amamentação: "Chorei, me julguei".

A jornalista Fernanda Gentil desabafa, em seu Instagram, sobre as dificuldades da amamentação: “Chorei, me julguei”.

Saí da maternidade com uma prescrição de leite artificial caso “não conseguisse amamentar”. Meu fracasso era certo. Todos apostavam nele. Meu filho chorou de fome assim que colocamos o pé em casa. Marido saiu correndo para comprar o leite artificial. A receita estava pronta, lembra? Não que eu precisasse dela, comprar leite artificial é a coisa mais fácil do mundo. Tem no mercado. Na farmácia. Na lojinha da esquina. Todos estão a fim de te vender uma latinha. É um negócio milionário que depende da nossa desistência. Confusa entre o cansaço e a frustração, ouvia dos palpiteiros sempre de plantão que o “leite artificial é praticamente igual ao leite materno”, que “bebês que tomam leite artificial dormem melhor”. Também já ouvi que mamar no peito é coisa de quem mora em países da África, de gente que não tem dinheiro para comprar fórmula artificial. Leite em pó é status. Peito de fora é coisa de Terceiro Mundo.

Mas eu queria amamentar. Resisti. Aluguei uma bombinha para tirar o leite já que (eu achava que) meu filho não sabia sugar. Ou era eu que não sabia dar de mamar. Como ele se acostumou rapidamente com a facilidade da mamadeira, queria que pelo menos fosse uma cheia de leite materno. Ordenhava meu leite, colocava na “tetê” e ele mamava.  Achei que pudesse manter esse ritmo por muito tempo. Mas peito não é estoque e sim fábrica. Sem o bebê sugando a produção de leite vai diminuindo, diminuindo até que acaba. Hoje eu sei. Mas na época eu não sabia. E ninguém, ninguém me explicou. Meu leite secou. Pronto. Era o que o mercado esperava que acontecesse. E por dois anos consumi dezenas ou até centenas de latas de leite artificial. Cada lata custa cerca de 30 reais. Faça a conta. Ou melhor, deixa para lá.

Gentil 3

Meu filho está saudável? Está. Mas sobreviver não é o bastante. Ele tinha direito de mamar e eu o direito à informação verdadeira e de qualidade. A mulher, desde que engravida, é colocada na berlinda. Não tem dilatação para parir. Também não é capaz de amamentar. Não teríamos chegado até esse ponto da civilização se não fôssemos capaz das duas coisas, não acha? Mas o mercado quer que a gente acredite nessas e outras lorotas como a do “leite materno é fraco”, e que “não precisa mamar mais no peito depois dos 6 meses” e por aí vai. O bebê pode e deve ser alimentado com leite materno exclusivo até o sexto mês e juntamente com outros alimentos até pelo menos o segundo ano. Qualquer informação que não seja essa está errada. Ponto.

O que eu queria que tivessem me dito quando meu filho nasceu em 2010, eu digo para você: Se quiser voltar a amamentar seu filho no peito isso ainda é possível com a ajuda de uma consultora em amamentação. São mulheres que operam verdadeiros milagres. Corrigem a pega, orientam para aumentar a produção de leite, fazem relactação. Até mães adotivas já conseguiram produzir leite e amamentar com a ajuda delas. Mas não querer mais amamentar é legítimo. E se for esse o caso, também sinta-se abraçada. Você não é a exceção, é a regra. A média de aleitamento materno exclusivo no Brasil é de míseros 54 dias. Eu, você e milhões de mulheres somos levadas a desistir por esses ou outros motivos. Como dar de mamar tendo apenas quatro meses de licença maternidade? Como ordenhar no escritório sendo que não há salas para isso e nem geladeiras para que a gente conserve nosso leite? Como botar o peito para fora em um país que acredita que os seios foram feitos apenas para entreter foliões no carnaval?

Não me senti “menos mãe” por não ter amamentado. Eu me senti menos informada. Eu me senti vítima de uma sociedade que não considera amamentar prioridade. Quanto a indústria teria deixado de faturar se eu e você acreditássemos no potencial ancestral de alimentar nossos filhos, hein? Façamos essa conta. Não deixemos pra lá não.

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