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Se existe uma fase da vida dos nossos filhos que é pouco compreendida é a adolescência. Quando eles são pequenos dependem da gente para tudo, nos amam incondicionalmente e seguem estritamente as ‘regras da casa’. Mas quando entram na adolescência, a impressão é que tudo desanda. Aquela criança fofa, obediente e carinhosa se transforma, de repente, em um jovem questionador, mal-humorado, que parece que gosta de todo mundo, menos dos próprios pais.  “Tem gente que chega chorando (ao consultório) falando ‘ele não me ama mais’”, conta a psicopedagoga e educadora parental Claudia Alaminos, que se autointitula uma ‘ativista pela adolescência’. “Se você teve um filho a adolescência vai chegar e o importante é conhecê-la, tentar entender ‘isso não é só na minha casa, isso não é pessoal, não é o meu filho que está contra mim’’.” Ela conversou com o blog sobre o assunto e defendeu que a adolescência precisa ser bem vivida e que para isso seja possível os pais têm de entender essa fase como normal, saudável e bem-vinda.

Blog: Eu achei muito interessante um post que você fez no seu Instagram contando sobre o luto que as crianças  enfrentam ao sair da infância e entrar na adolescência. Não é só difícil para nós, é também para eles?

Claudia: Sim, é muito difícil. Eu diria, Rita, que é mais difícil pra eles do que pra nós. A adolescência é uma fase evolutiva da vida do ser humano, a gente não escapa dela, mas é meio considerada um ‘patinho feio’, porque temos a criança que é toda fofinha, o adulto que é todo independente, bem resolvido, mas o adolescente é visto socialmente como o ‘chato’, o ‘rebelde’, falam dos adolescentes como se eles fossem quase todos delinquentes. Essa uma fase evolutiva difícil pelas modificações que a própria fase traz, mas também é difícil pela pressão social que eles sofrem e também pelo modo que a gente passa a se relacionar com eles, a gente muda o relacionamento na grande maioria das vezes com o filho que deixou de ser criança e entrou na adolescência. Eu sempre falo que a adolescência não é virose, que a gente não ‘tem que esperar passar’, a adolescência é pra ser vivida. É na adolescência que a gente aprende a decidir, aprende do que gosta, descobre quem é, e é isso que a gente vai levar pra vida adulta. Sem uma adolescência bem vivida, a vida adulta fica muito mais complicada.

E, sim, a adolescência traz consigo essa vivência de três lutos – e essa é uma constatação que não é minha, mas sim a de dois psicanalistas, a Arminda Aberastury e o Maurício Knobel, algo que é francamente utilizado desde a década de 80. Esses lutos são, primeiramente, a perda do corpo infantil eles deixam de ser crianças, o corpo muda radicalmente sem nenhum controle e eles não sabem como lidar com esse corpo, muitas vezes têm vergonha do corpo, aliás, uma das primeiras manifestações da vivência desse luto é vergonha, a criança que saia do banho e andava pelada pela casa passa a fechar a porta do banheiro, então a gente vê que essa vergonha é um primeiro indício. Depois eles têm a perda da identidade infantil, aquela história de eu sou criança, criança brinca, criança corre, criança pode um monte de coisa e aí eles se despem dessa infância e não sabem muito bem o que é ser adolescente, então eles têm que viver esse luto e muitas vezes isso vem de uma forma radical. Outro dia eu recebi uma mãe que falava pra mim, ‘a minha filha não quer mais usar vestido rosa, eu comprei um a semana passada e essa semana ela não quer mais. Ela amava rosa’. O que remete à infância é meio assustador, porque eu não pertenço mais a ela. Então é o brinquedo que eles não gostam mais, às vezes eles querem mudar a decoração do quarto, ‘tira todos esses brinquedos, pode dar todos esses brinquedos’.

E o último luto, que eu acho que é o que mais interessa aqui pra nós, pra nossa conversa, é o luto pela perda dos pais da infância. Esse terceiro luto é muito comum por quê? A criança acha que os pais são infalíveis, são 100% provedores, eles penetram em todas as faces da vida da criança, escolhem desde a comida que vai no prato, a escola que estuda, a roupa que usa, tudo, todos os problemas são resolvidos pelos pais e eles têm uma visão que os adultos são incríveis, são super poderosos, os adultos são heróis. Com a chegada da adolescência, eles começam a perceber que os pais não são tão heróis assim, os pais são tão humanos quanto eles, erram, têm fraquezas, têm vulnerabilidades. E aí isso pode gerar até uma revolta que é manifestada como um grande prazer em apontar os defeitos dos pais, o que é muito usual. ‘Ah, você fala isso, mas você faz aquilo’, ‘olha aí você, você fala pra eu não mentir, mas tá dizendo pra fulana que você não tá em casa e não pode atender o telefone’. Eles cobram e estão sempre com o dedo apontado porque precisam confrontar as próprias crenças com relação aos pais, precisam dar cabo dessas crenças.

E essa situação de ‘perda dos pais’ é positiva por duas questões: a primeira é essa desmistificação do adulto, porque você imagina o que seria para um adolescente pensar ‘bom, quando eu terminar essa fase aqui eu vou ter que ser um adulto perfeito, que tudo sabe’. Então esse processo humaniza a fala adulta, diz algo como ‘bom, eu vou crescer, vou ganhar algumas responsabilidades, vou ganhar autonomia, mas eu vou continuar escorregando’. E isso é ser humano, eu acho que isso mostra a eles a humanidade dos adultos. E depois que isso acaba, depois dessa revolta, há uma reaproximação de pais e filhos. A gente sabe que todo mundo erra, a vida é essa, a gente não é tão perfeitinho assim. E o luto pelos pais da infância é absolutamente necessário pra que um adolescente se constitua como adulto no futuro.

A psicopedagoga e educadora parental Claudia Alaminos

Blog: Que revolução, né? Como é que a gente faz pra passar por essa fase de mãos dadas com eles, se é que é possível?

Claudia: Eu acho que de mãos dadas é querer muito, mas é possível passar de um jeito positivo, lado a lado. Eu acho que a primeira questão é entender a adolescência. Eu tenho até um curso que de vez em quando eu lanço, que é o “A adolescência não é monstro, mas ela vai te pegar”. Porque ela vai chegar. Se você teve um filho a adolescência vai chegar e o importante é conhecê-la, tentar entender ‘isso não é só na minha casa, isso não é pessoal, não é o meu filho que está contra mim’’. Tem gente que chega chorando falando ‘ele não me ama mais’. Não é isso, ele precisa disso pra entender que você é um ser humano tanto quanto ele, ele não achava que você era muito humana não, não achava isso até ontem.

Por isso que eu grito aos quatro ventos no meu perfil lá no Instagram, eu me intitulo uma ‘ativista pela adolescência’ porque eles merecem mais do que eles têm. Se a gente conhece esses três lutos que eles enfrentam, a gente vê que o filho está com vergonha, não se sente confortável no corpo que tem, vamos respeitar sua privacidade? Vamos bater na porta do quarto? Vamos mudar a nossa conduta em relação às necessidades do adolescente? Vamos respeitar essa necessidade pra que ele passe por essa fase de uma maneira mais positiva, sem se sentir invadido ou envergonhado? Com a perda da identidade infantil a mesma coisa, ele quer tirar os brinquedos do quarto, então para quê falar, ‘ah, mas você brincou tanto, ai, que saudade do meu neném’?

Vamos pensar que quando o filho entra na adolescência a gente tem um encontro marcado com o adulto que ele vai se tornar, com o homem ou a mulher que eles vão se tornar. É um encontro importante, um compromisso importante que a gente tem. Por que ficar fixado na delícia que foi ter um bebê? A gente tem que bancar isso, bancar que o filho vai apontar defeitos, vai fazer críticas, vai se afastar, vai ter outros interesses, porque os amigos passam a ser muito mais interessantes, e entender que isso não é pessoal, não é porque ele não gosta mais de mim. O amor se manifesta de modo diferente e ele está pronto para começar a viver muito mais na sociedade do que só na família da gente. A adolescência é uma abertura de porta, é um ‘olha, o mundo existe, não é só aqui em casa, não é só com o titio, a vovó’. É o mundo em que há amigos, inimigos, gente que não presta. É um momento de conhecimento e a gente tem que estar pronto pra bancar isso e também para viver com o filho, porque ele não é adulto pra viver tudo isso sozinho, existe uma justa medida aí pra gente auxiliar os nossos adolescentes.

Blog: E como é que a gente auxilia eles? A gente se coloca à disposição e fala, ‘olha, tô aqui?’ Eles não têm que viver tudo sozinho porque não são adultos, mas qual é então esse papel dos pais nesse momento da adolescência? A gente tem que estar lá, mas estar lá como?

 Claudia: O que eu recomendo para os pais que eu atendo é que além de dizer ‘eu estou aqui’, o adolescente precisa ter certeza de que a gente está. E como é que ele tem certeza que a gente está? Quando ele vem trazer uma coisa que aconteceu lá fora, que aconteceu numa festa, na escola, a gente primeiro não deve fazer aquela cara de desespero e pânico, arregalar os olhos, porque quando eles percebem essa expressão no rosto da gente já vão filtrando tudo que têm pra falar. Então a gente tem que encarar a fala do adolescente como algo normal, porque ele está mudando. O segundo passo é fazer perguntas. Por exemplo, ‘ah, meu amigo bebeu na festa’. Que amigo? Por que é que você acha que ele bebeu? Quem estava oferecendo a bebida alcóolica? Então temos que fazer perguntas, porque a tendência, o piloto automático dos pais é dizer, ‘imagina, com essa idade você não pode beber!’ e já começa a dar lição de moral, dar conselho, ensinar algo. Com adolescentes a gente precisa entender que não pode ser professoral o tempo todo, temos que começar a trocar mais e a gente troca fazendo perguntas. Perguntas não xeretas do tipo ‘quem ficou com quem na festa?’ ‘Quem te mandou essa mensagem agora?’ Temos de fazer perguntas interessadas e eu acho que essa é a grande chave para a gente viver com eles. Tem uma alegoria de que na infância os pais são os pilotos do avião do filho, então o filho está lá, a gente leva o avião do filho. Na adolescência a gente tem que sofrer um choque de humildade e passar esse comando para o co-piloto. Quem assume o avião é o adolescente, mas ele não pode pilotar sozinho ainda, então a gente está lá do lado para assumir quando o problema é grande o bastante que precise da nossa atuação. E a gente precisa medir isso, porque se a gente fizer com a medida da infância, sufoca o adolescente.

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Blog: Aí temos a questão clássica, a de impor limites. Eu não posso ser professoral, tenho que ouvir, mas qual que é o momento que eu me coloco ali? Por exemplo, você falou sobre essa questão da bebidas, quem tá bebendo, por que é que tá bebendo. Qual que é o momento em que a gente passa aquele conhecimento que é fruto da nossa preocupação e diz o básico ‘olha isso é perigoso, não pode beber e depois dirigir’. Em que momento que a gente entra com aqueles ensinamentos de limites?

Claudia:  Bom, o ideal é que esses ensinamentos comecem muito antes. Essa questão de uso de substâncias, a questão da sexualidade, várias questões que são nevrálgicas e que podem levar a finais bastante infelizes se forem deturpadas, isso tem que começar muito antes da adolescência. Antes de ele começar a sair sozinho a gente vai falar, a gente vai comentar uma notícia de um acidente que um cara embriagado causou a morte de pessoas, ‘olha, tá vendo, ele bebeu demais e saiu dirigindo’. Isso aí vem de antes. E, sim, os pais têm o direito e talvez, talvez não, os pais têm o dever de impor limites aos adolescentes. Eles estão numa fase impetuosa, existem até explicações neurológicas pra isso, eles têm dificuldade de medir os seus atos antecipadamente, por isso que eles se arrependem depois e choram, se desesperam.

Cada família vai ter o seu roll de valores e a caixinha dos inegociáveis. ‘Olha, há coisas inegociáveis na nossa família e elas são A, B, C e D’. Quanto mais claro a gente for para o que é inegociável e para os limites que a gente impõe como família, mais fácil fica pra eles, porque aí é um recado, não é uma decisão que ele tem que tomar, ‘é não e porque é não’. Porque o adolescente não tem um pensamento igual ao nosso, de adulto, então, o que é que acontece? A gente acha ‘ah, mas ele vai ponderar’. Tem aquela a frase ‘o meu filho nunca faria isso’. Faria sim, aposto que faria. Porque se ele está no grupo ele já não é mais ele mesmo, ele tá fundido nesse grupo, e a decisão já não é mais dele e pode ser muito desastrosa.

Blog: Agora eu queria falar do luto dos pais, desse ninho que fica vazio. Obviamente a gente quer que os nossos filhos cresçam, sejam saudáveis, entrem na adolescência e que sejam adultos legais e funcionais. Mas fica um vazio. Como é que a gente acolhe esse vazio dos pais?

Claudia: A gente não pode esquecer que os pais são os adultos da relação, essa é uma questão importante no relacionamento e na educação dos filhos. Por que é que os pais vivem esse luto? Porque antes mesmo de você ter esse filho você já idealizou um lugar pra ele, já idealizou um jeito dele. Tanto na gravidez como na adoção você está preparando um ninho pra alguém que vai chegar. Normalmente você idealiza esse bebezinho ou essa criança, e o que é que acontece? Ela já nasce muito provavelmente diferente fisicamente do que a gente imaginou. ‘Ah, mas é lindo’, de qualquer jeito é lindo. Depois a gente vai ‘desidealizando’ esse filho, porque a gente imaginava  um bebê calminho e ele chora noite e dia. Aí a gente imaginava uma criança que comia verdura e o meu não come, a gente achava que ele ia ser o melhor aluno da classe e ele não é. E esse processo vai acontecendo gradativamente durante toda a vida do filho da gente. Só que a gente vai tapando o sol com a peneira, ‘ah, ele é só um bebê, ele vai ficar um menino calminho’. Aí depois, ‘ah, mas ele não come verdura, ah, mas ele é só uma criança, quando ele crescer ele vai comer’. A gente vai sempre pondo no futuro a idealização que a gente fez lá atrás. Só que quando chega a adolescência, somos confrontados com o filho real, o filho real aparece e diz ao que veio e às vezes ele veio bem diferente daquilo que você sonhou. E às vezes o que você sonhou é só que ele seja o mesmo filho carinhoso que ele era lá quando ele tinha 3 ou 4 anos e às vezes esse sonho é impossível de ser realizado porque ele precisa desse distanciamento.

Então, como os adultos da relação, a gente precisa olhar pra necessidade do jovem. ‘Bom, eu queria muito que ele fosse carinhoso e ele não é, ele tá precisando desse distanciamento físico’. Então a gente tem que depositar na nossa conta as necessidades dos nossos filhos e isso é uma atitude de amor, é nesse momento que a gente demonstra pro filho que a gente o ama incondicionalmente. ‘Olha, eu queria muito, eu vou deixar claro, eu amava te agarrar quando você era pequenininho, de dormir com você quando você era pequenininho, mas eu entendo que você cresceu’. Dê o passaporte para o seu filho, ‘você  tem outro estatuto na sociedade, você tem outro estatuto na nossa casa, mas o meu amor por você continua aqui, igualzinho’.

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