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Meu filho tinha recém-entrado no ensino fundamental e fui para uma reunião com a coordenadora, professora e os pais dos seus colegas. Lá pelas tantas, durante a apresentação do conteúdo que ia ser trabalhado naquele ano, descobrimos que todas às sextas-feiras as crianças iam ter um momento para falar dos sentimentos, uma roda de conversa em que medos, angústias e chateações tinham espaço para serem verbalizados e cuidados. Estava achando aquilo incrível até que um pai, mostrando que não via valor algum na proposta, perguntou, contrariado: “Mas e a tabuada? Eles não vão aprender tabuada?”

As escolas já entenderam que trabalhar as habilidades socioemocionais de seus alunos é um imperativo dos novos tempos. E o que são elas? São as capacidades individuais que ajudam nos relacionamentos, a estabelecer objetivos, tomar decisões e enfrentar situações novas e até adversas. Persistência, assertividade, empatia, autoconfiança, curiosidade e tolerância à frustração são algumas dessas habilidades que precisam ser praticadas todos os dias e que têm de entrar no curriculum de todas as escolas. E se engana quem pensa que são apenas as instituições de ensino que podem ensinar essas competências aos jovens de hoje. “Não dá para dizer para a escola ‘olha, torne meu filho ético mas eu não sou, ok?’ Não vai funcionar, a escola não vai construir uma competência que a família não desenvolve também, por isso é importante que qualquer solução contemple também a família”, explica o psicólogo Rossandro Klinjey que também é professor, consultor em Educação e Desenvolvimento Humano, autor de “Help! Me Eduque”, “Eu Escolho Ser Feliz”, “As Cinco Faces do Perdão” e “O Tempo do Auto Encontro”. Ele conversou sobre o assunto com o blog.

Blog: Os pais, desde que o mundo é mundo, sempre estiveram preocupados com a formação acadêmica e escolar dos filhos, querem que estudem inglês, espanhol, informática, robótica. Esse conceito de educação emocional ou alfabetização emocional, como você gosta de classificar, é algo novo. O que é isso? Quais são esses ensinamentos que você acredita que as crianças têm de adquirir e que tem a ver com esses novos tempos?

Rossandro: Essa busca de desenvolvimento intelectual é plenamente compreensível, já que em uma sociedade competitiva como a nossa as pessoas sempre encararam sucesso como ter um bom emprego, uma boa profissão.  E aí se trata de não se culpar ninguém, nem pais, nem família, nem escola, mas apenas de nos responsabilizar porque alguma coisa deu errado – olha só, a gente vive na sociedade mais avançada tecnologicamente, a que mais tem conforto e acúmulo de bens, estamos no maior período de paz da sociedade humana, estamos há décadas sem uma guerra global e no entanto, em vez de estarmos todos plenos e felizes, temos a geração mais suicida da história humana, a mais depressiva, mais transtornada, a mais viciada em diversas coisas, lícitas e ilícitas. Esse dado por si só nos deixa perceber que a gente deixou de olhar para algum lugar. E nessa busca por desenvolver somente o cognitivo deixamos de desenvolver as emoções, que também necessitam do que eu chamo um ‘letramento emocional’. A gente acredita que deva exercitar os músculos, fazer exercícios de matemática e física, mas também devemos exercitar as nossas emoções, desenvolvê-las. A gente negligenciou isso. E a conta chegou.

Blog: Esse é um tema novo, certo?

Rossandro: Desde que o livro ‘Inteligência emocional’ do Daniel Goleman foi lançado se começou a ter uma necessidade imensa de se olhar para outros tipos de inteligência. A família primeiro tem que começar a perceber e a se perguntar: ‘Estou dando ouvidos e observando o desenvolvimento emocional dos meus filhos?’ Isso está no radar dessa família? Ou estou delegando totalmente à escola? A escola tem cumprido o seu papel ou está focada apenas em aprovação no Enem e em um bom curso universitário? Então várias escolas, vários sistemas de ensino, têm começado a colocar a questão socioemocional  na trilha dos alunos –  o que por si só já ajuda bastante, mas isso não desobriga as famílias a cumprir o papel de ser o primeiro lugar em que se educa não somente o intelecto, mas também e sobretudo as emoções. 

Blog: Os pais podem pensar ‘ah, eu não tenho formação nisso’, acreditando que precisam de muitas ferramentas para educar os filhos do ponto de vista emocional. Como os pais podem fazer isso do ponto de vista prático?

Rossandro: A primeira coisa que eu digo para todo mundo é que nós temos pelo menos um modelo na nossa cabeça, que é o modelo em que fomos criados. Se você está aí vivendo sua vida, com todos os dramas que todo ser humano tem, mas é um adulto minimamente funcional, é sinal de que a sua família funcionou. Então recupere na memória o que você aprendeu com a sua educação. 

Há uma geração inteira de pais, principalmente no mundo ocidental, que por terem pais que os traumatizaram, terem sido criados em uma família com pouco diálogo, concluíram que tem que educar os filhos de maneira completamente diferente da forma como foram educados. Claro que tem de se corrigir coisas que precisavam ser corrigidas, mas nesse processo também se abriu mão de coisas que deveriam permanecer. E aí saímos de uma geração que era um pouco mais reprimida para uma geração permissiva, saímos de uma geração que a família era um quartel e viramos para uma geração que a família virou um hotel e está faltando lar, que é o equilíbrio entre esses parâmetros. As crianças não nascem prontas, elas nascem ‘por fazer’ e precisam estar sendo instrumentalizadas nesse processo, não só cognitivamente, mas também aprendendo as regras do jogo, da convivência, das relações, da empatia, da compaixão, do respeito, da tolerância, de suportar frustrações, aprender a ouvir não.  Por mais que os pais tentem colocar o filho em uma redoma, a vida vai apresentar muitas dores e o objetivo não é fazer com que o mundo fique calmo para que meu filho saiba navegar, mas é dar competência a esse filho e a essa filha para navegar em quaisquer circunstâncias incontroláveis que o mundo apresente.

Blog: O ‘não’ precisa ser dito, mas pode ser dito de forma amorosa. 

Rossandro: Exato. O ‘não’ na família é o ‘não’ pedagógico. Embora possa provocar na criança o que ela possa reconhecer como uma dor, ‘ai, que chato, você está me tirando do celular, eu tô aqui vendo vídeo no Tiktok, eu tô curtindo um jogo online, estou aqui maratonando minha série, você vem, desliga e mandar estudar?’, ou seja, para a criança isso é sofrimento, mas para o pai, a mãe, o responsável, para quem cumpre esse papel isso é responsabilidade. Então nesse momento você está dizendo assim ‘olha, você não pode ter prazer o tempo inteiro porque existem coisas que são necessárias serem feitas’; isso é papel dos pais. E é claro que a criança vai resmungar, chorar, mas você não tem que ser agressivo, tem que ser assertivo. Não vamos confundir autoridade com autoritarismo e nem partir para a leniência, temos que buscar o meio, é isso que se busca no desenvolvimento da competência emocional das crianças. 

Blog: Muito se fala de se ensinar o filho a ter empatia, a trabalhar em grupo, coisas que os gestores de RH de hoje afirmam que faltam a esse profissional do presente – eu mesma já entrevistei várias vezes esses profissionais de Recursos Humanos que dizem que muitos jovens chegam ao mercado de trabalho com altas habilidades técnicas e poucas habilidades emocionais. Como se ensina isso para o seu filho?  Explicando o que se trata ou dando o exemplo?

Rossandro: Uma das maiores falácias da educação é dizer que o exemplo é a melhor forma de ensinar.  

Blog: E não é?

Rossandro: Não é a melhor. É a única forma de ensinar. Porque quando a gente diz que é a melhor, indica que se tem um ‘plano B’ e não tem. Não se ensina empatia nos livros, do mesmo jeito que não se ensina ética falando de como os pré-socráticos definiram ética. Ética é uma experiência de vida, os filhos não fazem o que eu digo, os filhos fazem o que eu faço, eles vão fazer exatamente o que você faz. ‘Ah, então eu tenho que ser o pai Superman ou mãe Mulher Maravilha? Não. Nós somos os pais possíveis, então você não tem que se culpar, a gente tem que ser a pessoa melhor que a gente pode ser.  O que a gente não pode é eu não ser uma pessoa empática e querer que meu filho seja empático, eu não sou ético, e quero que meu filho seja ético, eu não sou verdadeiro e quero que meu filho seja verdadeiro. Não dá para dizer para a escola ‘olha, torne meu filho ético, mas eu não sou, ok?’ Não vai funcionar, a escola não vai construir uma competência que a família não desenvolve também, por isso é importante que qualquer solução contemple também a família.

Blog: Você acha que os pais dessa geração estão vendo valor nisso? Eu me lembro de uma reunião da escola do meu filho onde a coordenadora explicava que eles tinham rodas de conversa semanais para as crianças falarem como se sentem, o que tinha incomodado durante a semana. Ela estava explicando o quanto isso é valioso e foi interrompida por um pai que dizia que o que ele queria mesmo é que o filho aprendesse a tabuada. 

Rossandro: Esse pai que diz isso ‘eu quero que meu filho estude a tabuada’, ‘quero que ele passe no curso de medicina’ é um clássico, representa um número significativo de pais, mas isso tem diminuído, especialmente após a pandemia, porque ficou evidente que as necessidades emocionais são gritantes. E quando a gente pesquisa sobre desenvolvimento e competências socioemocionais, ao invés de achar que são algo que vai competir com o desenvolvimento das competências cognitivas saiba que é o contrário, vai colaborar. Uma criança que se sente inferior, que está se sentindo feia, não querida pelo grupo, que está sofrendo bullying ou cyberbullying, não tem capacidade para estudar matemática nem tabuada, ela está tomada por essas dores. Não dar espaço para nomear essas dores é fazer de conta que isso não está acontecendo. Que fique claro para os pais que quando as crianças desenvolvem as competências socioemocionais elas são muito mais capazes e se desenvolvem muito mais nas disciplinas clássicas do desenvolvimento cognitivo, aquelas que a família eque exige que os filhos desenvolvam.

Blog: E esse argumento pode ser até útil para convencer os mais refratários, ‘olha, se você quer que se filho aprenda tabuada você tem que cuidar da cabeça dele antes’.

Rossandro: Exato, a gente tem que falar de forma que as pessoas entendam. Uma vez eu cheguei numa corporação e tinha um funcionário que falava três idiomas, 28 anos, filho recém-nascido, entrou em primeiro lugar na empresa, era referência, mas pulou do prédio. O que aconteceu? Todo esse brilho intelectual não deixou ninguém perceber que havia uma dor imensa ali por trás. Em média, todos os anos no mundo, morrem 700 mil pessoas por todas as formas de violência somadas, isso inclui guerras, ataques terroristas e violência urbana. Mais do que isso, um milhão de pessoas se matam e outras 25 milhões de pessoas tentam. Se você coloca isso num gráfico significa dizer que é mais fácil um filho morrer no quarto do que numa rua agora, no Afeganistão, ou comprando crack na periferia, no final de semana. O risco de morrer por conta própria é maior do que ser morto por outra pessoa. E o que aconteceu? É a fragilidade emocional.

A gente viu recentemente, lamentavelmente, o caso de um jovem de 16 anos que após um vídeo no Tiktok se matou porque não aguentou o cyberbullying e isso chamou atenção porque é o filho de uma cantora conhecida. Mas quantos outros não estão aí no radar, mas que estão aí se matando? Então a gente tem que olhar para o caso extremo, porque é claro que não é todo mundo que faz isso. Mas e os que se cortam?  Os que estão depressivos, os que desenvolvem timidez compulsiva, os que não sabem se relacionar, os que se sentem inferiores, os que desenvolvem autoestima baixa. Quantas pessoas se sabotam diariamente? E tudo isso não vai ser matemática, não vai ser física, português, inglês que vai resolver. O que vai resolver é o desenvolvimento de competências emocionais. 

Rossandro Klinjey, psicólogo e autor dos livros Help! Me Eduque”, “Eu Escolho Ser Feliz”, “As Cinco Faces do Perdão” e “O Tempo do Auto Encontro”.

Blog: Esse é um desafio urgente. Você acredita que o desenvolvimento dessas competências pode ser alcançado em uma parceria entre a família e a escola?

Rossandro: Tem que ser os dois, mas não só a família e a escola, mas também os outros grupos secundários. A família é o grupo primário, psicologicamente falando. A escola é o grupo secundário mais importante, mas tem a religião, o clube, a escola de línguas, de tênis, todos esses circuitos devem procurar se interligar. Não há como pensar que a família vai fazer alguma coisa separada da escola e vice-versa, porque se você computar mesmo, ainda mais com o ensino integral, no caso das crianças, elas passam mais tempo na escola do que em casa, porque o maior tempo que a gente passa em casa é dormindo. 

Blog: Os adultos que não tiveram a possibilidade e os meios de adquirirem essa habilidade socioemocional na infância conseguem adquiri-las na vida adulta?

Rossandro: Se eles quiserem, sim. Primeiro tem que reconhecer que não as tem, porque eu não posso conquistar uma coisa que eu acho que eu não preciso ter. Eu tenho que entender que eu preciso desenvolver essas habilidades e mesmo que eu tenha sido um filho que não tive isso na minha família – minha família não me ensinou empatia, a tratar bem as pessoas – isso não impede que eu me desenvolva. Se meu pai não era um homem que era carinhoso, ou ele não tinha respeito pela minha mãe, isso não me condena a ser um homem que vai desrespeitar a minha esposa. Isso me convida a fazer diferente, inclusive que como filho eu vi a dor que minha mãe sentiu e quero que meus filhos não sintam a mesma dor. Mesmo em uma família em que as coisas não funcionaram, eu posso – ou olhar como o lugar do trauma, ou como convite para redefinir a partir da minha trajetória.

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