A última segunda-feira foi dia de bloco LGBT no Carnaval de São Paulo, o Love Fest. Era um espaço seguro e de muita diversão. No intervalo entre as músicas, em um dos trios, uma travesti pegou o microfone e disse, emocionada: “Respeita as travestis. Nós somos seres humanos. De pau e peito sim, mas somos seres humanos” (sic). Devolveu o microfone e bloco que segue.

Mesmo no meio do Carnaval, fiquei tocada com essas palavras. Pensei em como deve ser a realidade de uma pessoa trans* (termo guarda-chuva que abarca várias identidades) no Brasil, a ponto de ter que literalmente gritar que se é um ser humano, já que aparentemente as pessoas têm dificuldades de entender esse princípio básico. E quando se desumaniza alguém abre-se a primeira e perigosa porta para a violência. Se não vemos no outro um igual, legitimamos as agressões que podem lhe atingir. E no caso de ser LGBT no Brasil, violência é a palavra de regra.

No último ano foram mais de 300 assassinatos de pessoas LGBT em crimes de ódio. Ou seja, morte por ser LGBT. Os dados são do Grupo Gay da Bahia, ONG que há anos faz o levantamento com base em casos noticiados pela imprensa ou reportados por amigos e familiares das vítimas. Se olhamos só para pessoas trans*, a situação é ainda mais catastrófica: o Brasil é o país que mais mata transexuais e travestis no mundo. Dos 2190 assassinatos entre janeiro de 2008 e junho de 2016, 845 (ou 38%) foram no Brasil (dados da ONG Transrespect). Por aqui, a expectativa de vida dessa população fica por volta dos 35 anos, tão vulneráveis socialmente e sujeitos à violência que estão.

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Se olhamos com seriedade estes números, fica difícil pensar numa palavra que não seja barbárie, reforçada cotidianamente cada vez que deixamos de discutir o assunto com seriedade. A consequência é ter que gritar em pleno Carnaval que você é um ser humano e merece respeito. No mesmo Carnaval, que, lembrando, “permite” que muitos homens se vistam de mulher como brincadeira.

Infelizmente, a violência e os crimes de ódio não são exclusividade das pessoas trans* ou LGBT. Negros, indígenas, praticantes de religiões de matrizes africanas também vivem isso na pele. E, como eu não poderia deixar de falar aqui, as mulheres. Afinal, o Brasil é o 5° país do mundo que mais nos mata. E nos últimos anos vimos nosso desempenho cair em praticamente todos os rankings de igualdade de gênero – ou seja, estamos ficando mais e mais desiguais. E quem tem o privilégio de não ser agredido simplesmente por existir acha que gritar contra isso é mimimi ou vitimismo.

As lutas das mulheres e d@s LGBT são diferentes, mas iguais. O sistema que nega nossos direitos é o mesmo e, ainda que estejamos em lugares diferentes, lutamos todos pelo reconhecimento de nossa cidadania e pelo direito de sermos tratados como os seres humanos que somos. Falta de vergonha não é ser gay/lésbica/bi/trans, não é sair seminua no Carnaval. Falta de vergonha é ver que em pleno 2017 o ódio está tão acirrado e há tanta dificuldade em nos enxergar como pessoas. Errado não é lutar pelos direitos, errado não é ser LGBT, errado é o preconceito.  


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