Meghan Stabler

Meghan Stabler, mulher transexual, é membro do conselho da CA Technologies dos EUA e porta-voz da empresa para a diversidade. Foi a primeira mulher transgênero a ganhar o Working Mother of the Year, em 2014, um grande prêmio dos Estados Unidos. Meghan é membro do Conselho de Administração da Human Rights Campaign (HRC), a maior organização para direitos do LGBTs nos EUA, e co-presidente do Comitê de Políticas Públicas da entidade. Ela também atua no Conselho de Negócios do HRC, focando na igualdade para LGBTs no ambiente corporativo.

Ela esteve no Brasil em outubro para discutir a diversidade no mercado de trabalho e me fascinou com sua fala. Em seu período na cidade, conversou com mulheres trans e visitou o programa Transcidadania, da Prefeitura de São Paulo. Conversamos quando ela já havia voltado para os Estados Unidos, ainda às vésperas das eleições presidenciais que elegeriam Donald Trump. Meghan apoiava Hillary Clinton e comentou sobre os rumos políticos do país e os direitos das pessoas trans, tanto por lá quanto por aqui. Confira a entrevista:

Você foi a primeira mulher transgênero a ganhar o prêmio “Working Mom of The Year” (Mãe Trabalhadora do Ano). Você acha que ainda estamos na era dos “primeiros”?

Nós ainda temos muito que conquistar. Pessoas trans ainda têm uma longa jornada à frente na sociedade. No Brasil as mulheres trans são estigmatizadas e odiadas, ou pior ainda: assassinadas. Nós sabemos que para sermos vistas pela sociedade ainda temos um longo caminho pela frente. Nos Estados Unidos isso também é verdade, mas estamos um pouquinho mais à frente. Eu tenho conhecimento de transexuais juízes, pilotos de avião, no exército…. Estamos progredindo, mas ainda há um longo caminho pela frente. Não só para transgênero, mas para LGBTs em geral.

O Brasil é outro país que tem um longo caminho pela frente. Eu sei que uma das revistas de moda daí está com uma modelo transexual na capa. Mas uma revista de moda é uma coisa, o ambiente de trabalho é outra. Ter transexuais na sua força de trabalho é um caminho muito muito muito a frente, que o Brasil ainda tem que percorrer.

Como foi sua reação quando você soube que ganhou o prêmio?

Eu não acreditei, achei que era uma piada. Eles me ligaram para avisar que eu ganhei o prêmio e eu não sabia quem estava me ligando e não acreditei. Eles precisaram colocar alguém da minha empresa no telefone para confirmar. Foi muito legal ser reconhecida por isso, especialmente sendo transexual.

Eu sou uma mãe solteira, então sou só eu e minha filha de quase 5 anos, e acho que todos os pais sabem que balancear trabalho e vida pessoal é uma batalha diária. Trabalhar numa companhia como a minha, que tem um compromisso forte com a diversidade e com as mães da equipe, é muito importante. Eu me senti honrada de receber o prêmio e orgulhosa de saber que a CA Technologies tem políticas de trabalho que permitem que mães solteiras (ou quaisquer mães) possam estar plenamente integradas com o ambiente de trabalho.

Você parou de trabalhar enquanto fazia sua transição?

Não.

Como foi para você fazer a transição no mercado de trabalho?

Eu já havia trabalhado na CA Technologies de 1995 a 2000 e de lá fui para outras empresas. Comecei minha transição em 2004, quando trabalhava em outra empresa de software. Então eu não perdi meu emprego, eu não saí e não me escondi. Eu fiz a transição na frente dos meus colegas ao longo de mais ou menos um ano. Depois a CA  recrutou de novo para trabalhar com eles em 2010 como Meghan. Eu trabalhava como executivo sênior na CA nos anos 90 e voltei em 2010 como Meghan, estive na empresa como homem e como mulher.

Você teve medo que seus colegas não te respeitassem?

Sim. Eu acho que todo mundo que faz a transição se preocupa em perder a família, o trabalho, o acesso aos serviços de saúde e o respeito. Ser trans é uma coisa que nasce com você e é uma coisa que você tenta esconder, mas eventualmente você tem que trazer isso à tona. E quando você faz isso você arrisca muita coisa, você arrisca perder o respeito na sociedade. Eu me preocupei com isso e de fato perdi alguns amigos, mas de um modo geral tive uma transição muito bem sucedida. Mas isso não é a regra: há muitas pessoas trans que perdem a família, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos. Ou na Inglaterra, na Austrália, na Espanha…a mesma coisa acontece, a família pode não gostar de quem seu filho ou filha está se tornando e não aceitá-lo.

A minha mensagem para você e seus leitores é que uma pessoa transexual hoje é a mesma pessoa de ontem, antes de você saber que ele/ela era trans. Eles têm as mesmas habilidades, experiências e capacidade de trabalhar, cumprir metas, de aproveitar a vida que eles tinham antes.

Como o trabalho pode afetar a vida de uma pessoa LGBT?

Eu acho que as empresas têm um grande potencial em aceitar pessoas LGBT e mostrar que eles têm trabalho, porque essas pessoas não são apenas criativas, inspiradoras, inteligentes e inovadoras, mas elas trazem uma nova dimensão de pensamento para as empresas. E é isso que a CA Technologies faz: como uma empresa de software, ela abraça a diversidade para que a gente possa inovar e levar o produto para o mercado. E essa inovação vem das pessoas. Acho que qualquer empresa pode se pronunciar, se posicionar e dizer “nós valorizamos a diversidade, porque  ter pessoas e pensamentos diversos no meu ambiente de trabalho permite que levemos inovação para o mercado. Nós temos mentes mais amplas.”

E você acha que as empresas estão mais conscientes disso e dispostas a abraçar a diversidade?

É difícil, acho que isso ainda é uma dificuldade. Os Estados Unidos são um país muito grande. Acho que as empresas que estão na Costa Oeste (California, Oregon) ou Leste (Nova York, Washington DC) aceitam a diversidade muito mais rapidamente, mas uma empresa no meio do país, numa região muito religiosa ou no sul (Alabama, Mississipi, Louisiana ou mesmo no Texas, onde eu trabalho) tem muito mais dificuldade, porque eles têm visões mais conservadoras.

Há estudos sobre a diversidade no ambiente de trabalho que mostram que quando você tem uma força de trabalho mais diversificada a sua equipe é mais produtiva. Eu acredito que as empresas podem fortalecer sua marca quando abraçam a diversidade, e é isso que fazemos na CA Technologies todos os dias: apoiamos nosso funcionários, pedimos que tragam eles mesmos, verdadeiros e honestos, para o trabalho. E, ao fazer isso, sabemos que podemos levar produtos mais rápidos ao mercado e podemos inovar mais do que qualquer outro.

Acho que a diversidade só pode acontecer quando as pessoas LGBT se levantarem e quando seus aliados e lideranças levantarem e dizerem “Nós apoiamos as pessoas e vidas LGBT, eles são trabalhadores também”. Os Estados Unidos estão um pouco mais avançados, mas não tanto quanto eu gostaria.

Você sentiu diferença entre ser homem e mulher no mercado de trabalho?

A diferença pra mim é que eu finalmente fui livre. Eu finalmente fui eu mesma, pude parar de me esconder e de me preocupar em não ser honesta sobre quem eu realmente era. Ao tirar essa preocupação descobri que podia me concentrar mais no trabalho, poderia aproveitar mais a vida, podia fazer mais coisas que eu gostava.

Como homem, eu fui muito bem sucedido. Eu era o vice-presidente sênior da CA Technologies. Eu era muito bem sucedido, mas não era feliz. Agora, como Meghan, eu sou muito feliz. E estou vivendo uma vida que eu gostaria de ter nascido com ela. Não sei se isso faz sentido.

E você percebeu algum sexismo no mercado de trabalho?

Sim, sim e mil vezes sim! Especialmente quando ia a encontros em que as pessoas não sabiam quem eu era ou a minha história. Não na minha empresa, mas nos encontros e reuniões que eu vou em outros lugares, quando não sabem minha história, eu vejo a dominação masculina. Homens dominando os encontros, sendo durões. Se uma mulher tenta dizer as mesmas coisas, ela é reprimida, aconselhada a pegar mais leve ou a ser mais discreta. Então há esse viés para a dominância masculina no mercado de trabalho e isso é o que eu estou determinada a mudar.

Eu não acho que as mulheres são iguais aos homens, eu sei disso. Sei que podem inovar e liderar igual aos homens. As mulheres podem liderar empresas e meu objetivo é fazer com que todos vejam que uma mulher é igual no mercado de trabalho.

Pelo o que você viu do Brasil, o que você acha que há de mais parecido e de mais diferente com os EUA a respeito de direitos LGBT?

A respeito de direitos LGBT os EUA ainda têm um longo caminho pela frente, como eu te disse. Em 17 estados você ainda pode ser demitido por ser LGBT.  Eu me preocupo em como a visão dos EUA é percebida por outros países e pessoas, como no Brasil, especialmente em época de eleição. Se Trump ganhar, abrem-se oportunidades para lideranças de direita no Brasil fazerem declarações contra a comunidade LGBT. É como se desse mais credenciais para os evangélicos brasileiros nos odiarem.

Nós não temos tantos assassinatos de mulheres trans como vocês têm no Brasil, onde uma mulher transexual é assassinada a cada 26 horas. Nós tivemos 15 assassinatos nos EUA, o que não é muito, mas ainda acontece. Eu acho que as questões são parecidas, mas a magnitude é diferente. Estamos todos lutando por igualdade. Casamento igualitário, adoção por casais do mesmo sexo e pessoas transexuais no exército são questões aqui dos Estados Unidos. Acho que são problemas parecidos mas com magnitudes muito diferentes, infelizmente muito maiores aí no Brasil.

O que você acha que a popularidade de Trump indica para a defesa dos direitos humanos?

Eu acho que infelizmente o país está muito polarizado. Certamente temos desafios enquanto sociedade, temos muitas pessoas que se sentem em desvantagem ou sub-representadas, predominantemente homens brancos com menor escolaridade que não querem ver uma mulher presidente. Estou preocupada que, quem quer que ganhe a eleição, ainda tenhamos uma sociedade super polarizada. Terá que haver muita conciliação.

O que você deseja para próximos 10 ou 20 anos?

Eu espero que nos próximos 10 anos (e não 20) as pessoas tenham parado de odiar um casal do mesmo sexo dando as mãos; que vejam que transexuais e LGBTs podem servir ao Exército e na linha de frente; que os EUA sejam um exemplo de esperança para pessoas LGBT do mundo todo, que tenhamos atingido a igualdade total. Que as pessoas possam focar nas grandes questões como mudanças climáticas, o uso de recursos hídricos e coisas do tipo, que são provavelmente as coisas mais importantes para esse planeta como um todo.

E do que você tem mais medo?

Eu tenho medo da liderança de direita e religiosa, eu tenho medo do efeito que a polarização trazida por esse eleição vai ter na nossa sociedade. Esse é um país que ama armas e eu me preocupo que tenham pessoas querendo fazer justiça com as próprias mãos e a briga continue mesmo depois da eleição. Também tenho medo que não façamos nada contra o aquecimento global ou sobre o uso de recursos naturais.

E qual você acha que é o maior desafio para pessoas transgênero nos EUA nesse momento?

Nos EUA, a questão dos banheiros. Mas para as pessoas trans do mundo inteiro a questão é o reconhecimento. Reconhecimento que existimos, que somos humanos, pessoas, que merecemos um lugar na sociedade. Que somos quem somos e não podemos mudar. Esse é o desafio para as pessoas trans: ser reconhecidos, ser amados.

Meghan em evento no Brasil

Meghan em evento no Brasil, em outubro.