Vídeos transformam coreógrafos em estrelas da internet

Alex Hawgood - The New York Times

Entre eles está Ryan Heffington, professor de dança que usa bigode com as pontas curvadas para cima, longos cabelos cacheados e já coordenou os movimentos em um clipe da cantora Sia

Foto: Nathaniel Wood / New York Times

Entre os coreógrafos, Tricia Miranda é uma das maiores incentivadoras e agitadoras da música pop.

Ela ajudou a coreografar a aparição surpresa de Missy Elliott no show do intervalo do Super Bowl de 2015. Criou vários dos movimentos de dança ousados de Beyonce para o vídeo Diva, de 2008. E até apareceu na frente das câmeras em um vídeo promocional de dança para o single Team, de Iggy Azalea.

Mas não foi o suficiente. Em uma era em que a dança está tendo muita evidência por causa das redes sociais, Tricia queria compartilhar seus movimentos, sem filtros, com o resto do mundo.

Por isso, em 2014 contratou um câmera para filmá-la em seu estúdio de dança no bairro de North Hollywood, em Los Angeles, com alunos realizando seu movimentos típicos, misturando a arrogância do hip-hop com o ritmo alucinante da ginástica.

O primeiro vídeo, com uma série de bailarinos de 20 e poucos anos movimentando-se ao som de Anaconda, de Nicki Minaj, foi colocado no YouTube e teve mais de 27 milhões de visualizações. Outro vídeo, com uma música de Rihanna, foi assistido 41 milhões de vezes.

Desde então, o canal de Tricia Miranda no YouTube, que mostra uma série variada de dançarinos (alguns até de seis anos) realizando seus movimentos ao som dos mais novos sucessos de Tinashe, Pitbull e outros, já acumulou mais de um milhão de assinantes.

Toda essa atenção transformou Tricia Miranda em uma personalidade em ascensão, que agora lida com desconhecidos que a abordam em hotéis, mercados, restaurantes e na rua. “Outro dia um garçom chorou quando me conheceu. Ele me pediu educadamente uma foto e ficou emocionado porque disse que fui uma fonte de inspiração.”

Sua fama está prestes a aumentar. Tricia vai estrelar uma nova série na MTV, provisoriamente intitulada “Going Off”, na qual a cada episódio um novo dançarino será coroado em uma aula em seu estúdio.

“Sou instrutora de dança há 15 anos, mas só quando fiquei famosa no YouTube comecei a ter tanta atenção.”

Nunca, desde Paula Abdul, dançarina que se tornou uma personalidade pop e na TV, o papel do coreógrafo foi tão admirado na cultura popular. “A dança não depende de linguagem. Pessoas em todo o mundo podem assistir, aprender e publicar vídeos com seus próprios movimentos”, explica Kevin Allocca, chefe de cultura e tendências do YouTube.

As plataformas de compartilhamento de vídeos como o YouTube, o Vine e o Snapchat não apenas aumentaram o alcance de coreógrafos experientes como Tricia, como transformaram profissionais de todos os tipos, que tradicionalmente trabalham nos bastidores, em estrelas.

Entre os novos coreógrafos-personalidades está Ryan Heffington, de 43 anos, professor de dança de Los Angeles que usa um característico bigode com as pontas curvadas para cima e longos cabelos cacheados e coordenou os movimentos do vídeo Chandelier de Sia (que mostra a jovem artista Maddie Ziegler dançando sozinha em um apartamento).

Já Parris Goebel, de 24 anos, é o neozelandês responsável pelo vídeo Sorry, de Justin Bieber (que mostra um grupo só de mulheres vestidas em neon dos anos 1990). Recentemente, a revista Elle afirmou que Goebel é o coreógrafo de hip-hop mais requisitado do mundo.

Aos 36 anos, Tricia Miranda atua como uma espécie de galinha-mãe para a ninhada de dançarinos que migram para o Basement of NoHo, seu estúdio em North Hollywood, um bairro complicado de San Fernando Valley que se tornou um centro de dança não oficial.

“Esses meninos estão se tornando estrelas do YouTube também”, afirma ela, referindo-se a novos nomes como Jade Chynoweth, dançarina e aspirante a atriz com pinta de modelo que tem 17 anos e 359 mil seguidores no Instagram, ou Kaycee Rice, de 13 anos, moradora de Simi Valley, na Califórnia, que participou do show do intervalo de Missy Elliott. Outro desses novos nomes é Aidan Xiong, um adorável dançarino de break de 10 anos que apareceu no programa de Ellen DeGeneres em 2014.

Em uma recente manhã de sábado, Tricia estava sendo filmada em seu estúdio para um comercial de TV para a Mania Jeans, marca israelense de streetwear. (“Tenho muitos seguidores em Israel”, explicou ela.) Vestida com uma calça de moletom folgada, brincos de argolas de ouro imensos, batom marrom-chocolate e duas tranças a la Willie Nelson, disparou uma série de comandos incompreensíveis para sua trupe de dançarinos da geração Y.

“Seis, sete... e um e quatro”, gritou, seguida por uma sucessão de barulhos pontuados com passos. Depois de uma série de movimentos febris, chamou os alunos, muitos vestindo camisetas curtas com slogans como “Keep it Real” para uma foto em grupo, que publicou no Instagram.

Nascida no Arizona, Tricia começou no balé e no sapateado aos quatro anos. Aos 19, estava dando aulas de hip-hop. Mudou-se para Los Angeles em 2001 para ficar mais perto de onde a ação acontece e se virou como garçonete e professora de dança da Gold’s Gym.

A grande chance aconteceu em 2004, quando seu agente avisou que Beyoncé estava procurando por uma dançarina de apoio para a turnê Ladies First. “Trabalhava como recepcionista de restaurante quando me ligaram para dizer que havia conseguido a vaga. Na hora tirei meu avental, virei para o gerente e disse: ‘Vou sair em uma turnê com a Beyoncé. Tenho que ir embora’.”

Tricia nunca precisou olhar para trás. Seu currículo inclui os créditos de danças de Gwen Stefani e Taylor Swift, que gostaram de seu estilo contundente, e de Prince.

“Eu gosto do fato de sua coreografia ser agressiva. Mesmo o movimento mais simples está cheio de confiança. Queria dançarinos que pudessem ser viscerais e é isso que Tricia proporciona”, explica Azalea.

Sua influência é tamanha que alguns artistas agora querem que suas músicas sejam usadas no canal do YouTube. “Tricia reconhece os sons do momento e os torna sucessos ainda maiores”, afirma Amanda Taylor, executiva chefe do DanceOn, uma rede de entretenimento centrada em dança fundada por Madonna.

Tricia afirmou que ainda está se acostumando à fama. No começo, riu quando recebeu mensagens no Instagram e no Facebook com fotos de fãs imitando seu visual harajuku-chola. “É meio estranho para mim”, disse.

Com isso, ela se levantou e voltou ao ensaio. “Muito bem, vamos voltar ao trabalho, pessoal”, chamou batendo palmas.