Serginho Groisman relembra 'Programa Livre' gravado no Carandiru

Redação - O Estado de S.Paulo

'Eles [detentos] falavam coisas incríveis', comentou apresentador em entrevista ao 'Roda Viva'

Serginho Groisman à frente do 'Programa Livre' em setembro de 1992 

Serginho Groisman à frente do 'Programa Livre' em setembro de 1992  Foto: Norma Albano / Estadão

Serginho Groisman participou do Roda Viva na noite da última segunda-feira, 31. Entre os temas abordados, relembrou uma ocasião em que apresentou o Programa Livre, do SBT, diretamente do presídio do Carandiru, em 7 de abril de 1992.

O apresentador destacou a necessidade de "dar voz a outras pessoas": "Eu sempre me coloquei nesse papel, não de protagonista, mas, na verdade, quase um interlocutor, fazendo uma 'ponte'."

"Ainda no Programa Livre, fiz um programa ao vivo direto do Carandiru, com 3 mil detentos. Nós dividimos o programa em três partes. Na primeira, eu conversei com eles a respeito da vida que eles levavam, não procurei identificar em cada um o que fez, o que não fez, mas tentar manter um coletivo que pudesse se expressar para a gente poder entender melhor o que é a população carcerária", relembrou.

Na sequência, continuou: "Na segunda parte, eles elegeram a Sula Miranda, e a gente levou para cantar. Na terceira parte, entrevistaram o diretor do Carandiru. Alguns meses depois houve a invasão lá no Carandiru."

Complexo do Carandiru em 2000

Complexo do Carandiru em 2000 Foto: Sergio Castro / Estadão

Serginho Groisman fez referência ao que ficou conhecido como Massacre do Carandiru. Em 2 de outubro de 1992, policiais militares entraram no Pavilhão 9 da Casa de Detenção do Carandiru para conter uma rebelião. A operação terminou com 111 presos mortos e é considerado um dos mais graves massacres penitenciários da história do Brasil (leia mais aqui).

"Mesmo entre os detentos, eles tinham esse comportamento de levantar a mão, respeitar o outro, poder conversar, saber que ali era um ambiente onde eles podiam se expressar. Eles falavam coisas incríveis", completou.

O apresentador já contou com a participação de presidiários e ex-presidiários em diversas ocasiões em seus programas.

Em junho de 1999, diversos ex-presidiários foram convidados para a plateia da entrevista com o médico Drauzio Varela, que à época lançava o livro Estação Carandiru.

Já em 2000, os rappers Dexter e Afro-X, que formavam a dupla 509-E e estavam presos, receberam autorização para participar de um debate com Conte Lopes, então deputado estadual por São Paulo, no programa Altas Horas, apresentado por Serginho Groisman.

Em entrevista à revista Istoé, em 2005, Groisman explicava: "Eu acho que temos que ouvir essas pessoas porque, normalmente, ou falam por elas ou 'metem o pau' nelas. Existe uma ideia muito equivocada que é a seguinte: eles estão bem lá. Têm comida, bebida, não fazem nada."

"Não digo que ali existam santos, mas, quando você mistura um cara que roubou a primeira vez com um líder do tráfico ou gente que não tem nada a perder, a desesperança contamina todo mundo", prosseguia o apresentador, que concluía: "As escolhas de um garoto muito pobre são muito poucas no Brasil. Eles merecem esr ouvidos".

Serginho Groisman como apresentador do 'Programa Livre' em setembro de 1992 

Serginho Groisman como apresentador do 'Programa Livre' em setembro de 1992  Foto: Luludi / Estadão

Em entrevista ao Jornal da Tarde, em 2007, Serginho Groisman ressaltou a importância do programa no Carandiru. Na ocasião, ainda revelou um arrependimento de sua época de Programa Livre, na década de 1990: ter convidado torcidas organizadas para participar da atração.

"Elas juraram se comportar nas gravações, mas, ao se cruzarem, iniciaram um quebra-pau violentíssimo e colocaram em risco 250 adolescentes presentes na plateia. O programa, claro, não foi ao ar."

É possível assistir ao Roda Viva com Serginho Groisman completo clicando no link abaixo: