Especial 'Amigos': sertanejos se emocionam, dão risada e sugerem novo programa em volta à Globo

André Carlos Zorzi - O Estado de S.Paulo

Cantores falaram sobre homenagem a Leandro, fizeram piadas e 'pediram' novo programa à emissora em coletiva do especial 'Amigos - A História Continua'; veja detalhes

Chitãozinho, Leonardo, Zezé Di Camargo, Xororó e Luciano durante o show em que foi gravado o especial 'Amigos - A História Continua', que vai ao ar na Globo em 18 de dezembro de 2019.

Chitãozinho, Leonardo, Zezé Di Camargo, Xororó e Luciano durante o show em que foi gravado o especial 'Amigos - A História Continua', que vai ao ar na Globo em 18 de dezembro de 2019. Foto: Fábio Rocha / Globo / Divulgação

Amigos, especial da Globo que conta com os sertanejos Chitãozinho e Xororó , Zezé Di Camargo e Luciano e Leonardo, está de volta ao ar após quase 21 anos desde sua última exibição, com exibição prevista para a próxima segunda-feira, 18.

Apesar de o show em que o programa foi gravado, realizado em 7 de setembro no Allianz Parque, em São Paulo (clique aqui para conferir tudo sobre a apresentação) ter contado com 44 músicas em quase três horas de apresentação, o especial terá cerca de 1h15 de duração.

"Minha maior dificuldade é definir o que vai ao ar, porque daria para exibir as três horas de espetáculo tranquilamente. Mas a televisão não tem esse espaço", afirmou o diretor artístico de Amigos - A História Continua, LP Simonetti.

LP Simonetti, Zezé Di Camargo, Chitãozinho, Leonardo, Luciano e Xororó em coletiva de imprensa do especial 'Amigos - A História Continua', na Globo.

LP Simonetti, Zezé Di Camargo, Chitãozinho, Leonardo, Luciano e Xororó em coletiva de imprensa do especial 'Amigos - A História Continua', na Globo. Foto: Fábio Rocha / Globo / Divulgação

Em coletiva de imprensa realizada na emissora nesta quarta-feira, 13, logo após terem gravado uma entrevista para o Conversa com Bial, os cantores se reuniram e falaram sobre a origem e o retorno do projeto Amigos, suas intenções e emoções na turnê mais recente e fizeram diversas piadas entre si. O lançamento de um DVD também foi anunciado pelo grupo.

Participações especiais no Amigos

O especial Amigos - A História Continua contará com a participação do maestro João Carlos Martins, além do violinista Amon Lima, da Família Lima. Os dois, porém, ficam restritos à parte instrumental do show.

"A gente comemorou 20 anos, então achou melhor estarmos unidos pelo menos nessa 1ª turnê. Se isso vier a ser um programa no futuro, nós vamos trazer, logicamente, muita gente da nova geração", explicou Chitãozinho, questionado sobre a ausência de outros sertanejos.

João Carlos Martins toca piano durante a música 'Fio de Cabelo' ao lado de Xororó e Luciano no show 'Amigos - 20 Anos'.

João Carlos Martins toca piano durante a música 'Fio de Cabelo' ao lado de Xororó e Luciano no show 'Amigos - 20 Anos'. Foto: Fábio Rocha / Globo / Divulgação

Em seguida, Xororó continuou: "Como é uma questão de amizade, consideração e respeito à nossa marca, a gente não se sentiu muito à vontade de trazer um convidado."

"A gente tirar uma música para colocar outro artista para cantar um clássico meu, do Chitãozinho e Xororó, Leonardo, acho que as pessoas ficariam: 'faltou aquela...'. É um momento muito nosso, muito íntimo, para matar a saudade", complementou Zezé Di Camargo.

​Amigos 2019 - Homenagem a Leandro

Em determinado momento do show, os cinco se reunem no palco para cantar a música Mano, no momento que que Leandro, irmão de Leonardo morto em 1998 e integrante dos Amigos, aparece no telão. 

O cantor Leandro durante a Festa do Peão de Barretos em 1997.

O cantor Leandro durante a Festa do Peão de Barretos em 1997. Foto: Isabela Vargas / Estadão

"A parte mais emocionante. Vou chorar demais", contou Chitãozinho, sobre a 'participação especial' do colega.

Em relação ao momento mais importante ao longo dos quatro especiais na década de 1990 e da turnê em andamento, os amigos foram unânimes: a despedida de Leandro, que morreu após sofrer com um tipo raro de câncer no pulmão, o tumor de Askin.

"O show de Paris, quando trouxemos o Leonardo de volta para o palco. Ele tinha desistido da carreira devido ao acontecimento com o irmão dele. Aquilo a gente nunca mais esqueceu. Se ele está aqui hoje foi por aquele momento que nós trouxemos ele de Goiás e colocamos no palco", relembrou Chitãozinho, em referência a apresentação no estádio Parc des Princes durante a Copa do Mundo de 1998, que fez parte do projeto Brasil 500, da Globo.

Telão homenageia Leandro enquanto os 'Amigos' consolam Leonardo.

Telão homenageia Leandro enquanto os 'Amigos' consolam Leonardo. Foto: Reprodução de 'Coração Brasileiro' (1998) / Globo

Leonardo também falou sobre o momento: "Fiquei sem chão. Estava na fazenda, o Legey começou a ligar, os meninos, que iam fazer o especial em Paris, disseram que eu 'tinha que ir'. 'Gente, não aguento, não tenho força'".

Luciano emendou: "Ele [Leandro] é o sexto [integrante dos Amigos]. Não vai deixar nunca de ser".

Música e polarização

"A gente tá vivendo num mundo polarizado, hoje. Ou é todo mundo de um lado, ou é todo mundo do outro. Quando a gente entra com esse projeto nosso, mostrando a nossa música, é uma coisa tão democrática entre a gente e o público", afirmou Zezé.

Na sequência, concluiu: "Acho que isso tem muito a ver com o Brasil que a gente vive hoje. Não só musicalmente, mas socialmente a gente vai contribuir muito, com certeza".

Zezé Di Camargo em coletiva do especial 'Amigos - A História Continua' em 2019, na Globo.

Zezé Di Camargo em coletiva do especial 'Amigos - A História Continua' em 2019, na Globo. Foto: Fábio Rocha / Globo / Divulgação

Xororó falou sobre o momento da música no País: "A gente tem 50 anos de carreira e já viu tanta coisa acontecer. [Artista] fazer muito sucesso e ir embora da mesma forma. A gente nunca se preocupou, sempre pensamos que, quando surge uma estrela no céu, o céu fica mais bonito".

"Pra gente, a música não tem fronteira, não tem estilo. Tem música boa e música ruim. Pode ser um funk ou uma roda de viola", concluiu o cantor. Leonardo, então, brincou: "Caneta azul?". 

Chitãozinho no show 'Amigos - 20 Anos' em São Paulo

Chitãozinho no show 'Amigos - 20 Anos' em São Paulo Foto: Fábio Rocha / Globo / Divulgação

Xororó respondeu, bem-humorado, antes que Luciano começasse a cantar a música que viralizou recentemente: "Essas coisas eu nem vejo!"

No embalo do tema, Chitãozinho ainda comentou sobre a ocasião, em 2018, em que fãs cantaram Evidências na saída do show do Foo Fighters em São Paulo (clique aqui para relembrar o momento).

Amigos - piadas e bom humor

Ao longo da coletiva, os cantores demonstraram, como de costume, um comportamento bem-humorado entre si. Logo na entrada, Zezé esbarrou em uma mesinha, derrubando o microfone no chão. "Principiante é nisso que dá, não sabe lidar com o microfone!", brincou Xororó.

Leonardo e Luciano em coletiva do especial 'Amigos - A História Continua' em 2019, na Globo.

Leonardo e Luciano em coletiva do especial 'Amigos - A História Continua' em 2019, na Globo. Foto: Fábio Rocha / Globo / Divulgação

"Nós - eu, Luciano, Chitão e a produção - temos uma aposta: Ou o Leonardo 'estraga' o Xororó, ou o Xororó 'conserta' o Leonardo", contou Zezé em outro momento.

Quando Chitãozinho comentou "a gente está mais maduro", Leonardo interrompe para 'corrigi-lo': "Nóis tâmo é podre! [sic]".

Sobre a preferência de Leonardo por bebidas alcóolicas, Chitãozinho brincou, em referência à idade dos amigos: "Saía do palco e ia tomar cerveja. Agora, vai tomar soro".

Chitãozinho e Leonardo no show 'Amigos - 20 Anos' em São Paulo

Chitãozinho e Leonardo no show 'Amigos - 20 Anos' em São Paulo Foto: Fábio Rocha / Globo / Divulgação

Ao abordarem a possibilidade de fazer um show para o público brasileiro que reside fora do País, Leonardo discordou: "Isso é a maior roubada que tem!". 

O cantor também foi 'do contra' durante a discussão sobre a possibilidade de lançarem algum material dos Amigos em vinil: "Acho que ninguém compra isso não, bicho. Quem tinha aquelas máquinas velhas, jogou fora!"

Possível retorno do Amigos e Amigos

Chitãozinho e Xororó em coletiva do especial 'Amigos - A História Continua' em 2019, na Globo.

Chitãozinho e Xororó em coletiva do especial 'Amigos - A História Continua' em 2019, na Globo. Foto: Fábio Rocha / Globo / Divulgação

Os sertanejos foram questionados sobre a possibilidade de um programa ao estilo do Amigos e Amigos, apresentado pelos cinco na Globo no ano de 1999, em que interagiam com outros nomes da música sertaneja, e se mostraram animados.

Xororó, por exemplo, afirmou que o programa chegou ao fim por conta da dificuldade em conciliar as gravações com a agenda de shows: "Talvez agora a gente tenha mais tempo. Seria muito mais fácil pra gente artisticamente".

"Da nossa parte não tem resistência. Não é [questão] de grana, nem nada, mas de mostrar nosso trabalho para uma geração nova, com artistas consagrados e da nova geração", complementou Zezé Di Camargo.

Luciano conclui, em tom de brincadeira: "Tudo depende do Boninho [diretor da emissora]!".

Próximos shows da turnê Amigos

Xororó e LP Simonetti em coletiva do especial 'Amigos - A História Continua' em 2019, na Globo.

Xororó e LP Simonetti em coletiva do especial 'Amigos - A História Continua' em 2019, na Globo. Foto: Fábio Rocha / Globo / Divulgação

Em 2019, os Amigos ainda passam por Porto Alegre, Rio de Janeiro e Fortaleza. Para o ano que vem, os cantores afirmam que têm intenção de "voltar para a estrada" fazendo entre oito e 10 shows depois de março de 2020.

Cidades como Brasília e Goiânia, além da região Nordeste, estão na lista dos sertanejos. O último show será realizado no Allianz Parque, em 8 de agosto de 2020. "Encerramento dessa turnê. Com certeza a gente vai criar outra [risos]", disse Luciano.

A origem do especial Amigos

Duplas sertanejas reunidas com amigos e familiares em primeiro especial 'Amigos', de 1995.

Duplas sertanejas reunidas com amigos e familiares em primeiro especial 'Amigos', de 1995. Foto: Reprodução de 'Amigos' (1995)

Ao fim da coletiva, Chitãozinho fez questão de relembrar a origem do especial Amigos. Na ocasião, ocorrida antes da estreia do programa, em 1995, Luciano e Leonardo não estavam presentes.

"[O Amigos] começou de uma reunião nossa com o Zezé e o Leandro em um hotel lá em Goiânia. A gente queria fazer um show de final de ano em São Paulo para angariar alimentos para entidades", relembrou.

Na sequência, prosseguiu: "Nós chamamos o Legey para dirigir o show. Quando ele viu o primeiro ensaio e o tamanho da ideia, falou: 'Posso levar para a Globo?'. Acabou virando o especial."

Confira abaixo uma retrospectiva sobre as primeiras edições do especial Amigos na Globo, realizadas entre 1995 e 1998

Relembre a história do projeto Amigos

A ideia do programa Amigos era mostrar uma amizade fora dos palcos e misturar os sucessos dos repertórios de cada dupla sertaneja. 

Era possível ver - e ouvir - É o Amor sendo cantada por Luciano e Leonardo, Não Aprendi a Dizer Adeus por Leandro e Zezé Di Camargo, Página de Amigos por Chitãozinho e Leonardo ou Você Vai Ver por Luciano e Xororó, entre outras tantas versões.

Zezé Di Camargo e Leonardo durante ensaio para o programa 'Amigos' em 1998.

Zezé Di Camargo e Leonardo durante ensaio para o programa 'Amigos' em 1998. Foto: Monica Zarattini / Estadão

Em 31 de dezembro de 2018, completaram-se 20 anos da última vez em que o especial foi ao ar na Globo. Ao todo, foram quatro edições do programa exibidas pela emissora e assista a algumas interpretações memoráveis da música sertaneja.

Amigos - O Início em 1995

O primeiro especial Amigos foi exibido em 23 de dezembro de 1995, e contou com uma introdução em clima rural, com cenas de gado e plantações em uma fazenda de Chitãozinho, na cidade de Campinas.

Abertura do primeiro programa 'Amigos', em 1995.

Abertura do primeiro programa 'Amigos', em 1995. Foto: Reprodução de 'Amigos' (1995) / Globo

Abertura do primeiro programa 'Amigos', em 1995.

Abertura do primeiro programa 'Amigos', em 1995. Foto: Reprodução de 'Amigos' (1995) / Globo

"Dezembro de 1995: pela primeira vez, seis grandes amigos se encontram e dividem a mesma emoção. Eles fazem da amizade a força do seu canto", dizia uma voz em off.

A abertura ainda mostrava os cantores tendo uma refeição juntos à mesma mesa enquanto falavam sobre a importância da amizade.

"Pra mim, é a gente poder olhar nos olhos do outro e saber que nenhum tá fazendo mal ao outro. O respeito do ser humano, um pelo outro, não ter falsidade, estar comendo na mesma mesa. Pra mim, isso é amizade", dizia Leandro.

Duplas sertanejas reunidas em refeição durante o primeiro 'Amigos', em 1995.

Duplas sertanejas reunidas em refeição durante o primeiro 'Amigos', em 1995. Foto: Reprodução de 'Amigos' (1995) / Globo

Xororó emendava: "Amigo pra mim tem que ser sincero, porque sou uma pessoa muito sincera. Quando gosto de verdade, não importa onde estiver, o amigo tá no coração, pro que der e vier. Não importa o momento, o lugar a hora."

Na sequência, surgia o palco da superprodução, com um grupo de animados dançarinos embalados por uma versão instrumental que juntava diversos dos sucessos das duplas sertanejas envolvidas.

Leandro e Leonardo surgem para a plateia, cantando os primeiros versos do clássico Disparada, música escolhida para abrir o show. Pouco depois, surgem Chitãozinho e Xororó e, por fim, Zezé Di Camargo e Luciano.

Cerca de 100 mil pessoas estiveram presentes no Espaço Verde Chico Mendes, em São Caetano, onde foi gravado o espetáculo. O ingresso podia ser trocado por brinquedos e alimentos não perecíveis para fins beneficentes.

O sucesso da apresentação foi tanto que a Globo chegou a reprisá-la duas vezes no ano seguinte, em março e junho de 1996.

Relembre É o Amor cantada por Luciano e Leonardo:

Amigos - 1996

Em 1996, o especial Amigos foi exibido em 25 de dezembro, dia de Natal

A abertura da atração trouxe os seis cantores dentro de um helicóptero (cinematográfico), falando sobre o show do ano anterior, sendo interrompidos por alguns flashbacks de 1995.

Desta vez, o show foi gravado em Paulínia, em São Paulo.  Os seis chegaram ao palco cercados por artistas circenses e arremessaram rosas à plateia. a música escolhida para abrir o show foi Viola Enluarada.

Logotipo do programa 'Amigos'.

Logotipo do programa 'Amigos'. Foto: Reprodução de 'Amigos 1996'

A edição do especial Amigos em 1996 contou com a presença de outras suplas sertanejas pela primeira vez: João Paulo e Daniel, Chrystian e Ralf e Gian e Giovani dividiram os microfones ao longo do show. A cantora Simone e o locutor de rodeios Asa Branca também participaram.

A atração chegou a ser reprisada uma vez, na faixa Terça Nobre, no ano seguinte.

Relembre Não Aprendi a Dizer Adeus cantada por Leandro e Zezé Di Camargo e Evidências cantada pelo quarteto Chitãozinho, Xororó, João Paulo e Daniel:

Amigos - 1997

Em 1997, o especial foi gravado no ginásio Mineirinho, em Belo Horizonte, e exibido em 30 de dezembro.

Entre os artistas convidados para cantar ao lado dos Amigos estavam Fábio Jr., Daniela Mercury, Roberta Miranda e Daniel. O sertanejo havia acabado de perder seu amigo e sua dupla, João Paulo, morto em um acidente de carro em 12 de setembro de 1997.

"Já que nós estamos na festa dos amigos, os amigos verdadeiros, gostaria da licença de vocês pra dedicar uma música ao melhor amigo que eu tive", disse Daniel antes de cantar a música Canção da América, de Milton Nascimento. Em determinado momento, o público estendeu um bandeirão com o rosto de João Paulo.

O especial de 1997 marcaria também a última apresentação de Leandro com o grupo exibida na TV.

A morte de Leandro

"Durante o Amigos, uma coisa que marcou muito [foi que], infelizmente, nós perdemos o Leandro. Depois o Leonardo... Foi difícil trazê-lo pro palco novamente", contou Chitãozinho em entrevista contida no DVD Amigos.

Após sentir algumas mudanças em sua saúde e realizar diversos exames entre abril e maio de 1998, o cantor Leandro descobriu que sofria de um tipo raro de câncer no pulmão, o tumor de Askin.

Leandro chegou a viajar para os Estados Unidos para buscar tratamento e demonstrava otimismo e confiança em sua recuperação. 

"Ter Deus no coração é a primeira coisa que o ser humano tem que ter. Em segundo lugar, saber que milhões de pessoas no Brasil tão rezando por mim e essa corrente é muito forte, me fortalece muito", contou o cantor ao Jornal Nacional durante sua viagem.

Leandro em coletiva ao deixar o hospital São Luiz, em São Paulo, em maio de 1998.

Leandro em coletiva ao deixar o hospital São Luiz, em São Paulo, em maio de 1998. Foto: Maurilo Clareto / Estadão

No Jornal Hoje exibido após a morte de Leandro, o jornalista Edney Silvestre falou sobre o caso: "Uma pessoa de dentro do [Hospital] Johns Hopkins, que não pode se identificar, nos contou que a primeira ideia dos médicos americanos era uma operação para a retirada do tumor e de um pulmão. Leandro não quis. Sem um pulmão, não poderia mais cantar."

Na sequência, com o crescimento rápido do tumor, precisou passar por uma quimioterapia. Após uma redução no tamanho do tumor, chegou a cantar Pense em Mim para fãs que o esperavam na saída do hospital. 

Já em seu apartamento, tempos depois, sofreu uma parada cardiorrespiratória. Foi reanimado por médicos no próprio local, mas acabou indo para a UTI do hospital São Luiz, onde sofreu uma infecção generalizada e foi sedado.

O cantor Leandro na varanda de seu apartamento em São Paulo cerca de um mês antes de sua morte.

O cantor Leandro na varanda de seu apartamento em São Paulo cerca de um mês antes de sua morte. Foto: Caio Guateli / Estadão

Leandro morreu à 0h10 do dia 23 de junho de 1998. Como causa da morte, um tumor torácico gigante que comprimiu suas estruturas vitais localizadas no tórax, como coração, pulmões e vasos.

Seu irmão, Leonardo, estava fazendo um show em Caldas do Cipó, na Bahia, quando se deu a morte de seu irmão. O local estava lotado por conta da época de São João, com cerca de 4 mil pessoas na plateia. O sertanejo só soube da morte de Leandro por volta das 3 horas da manhã, após o término da apresentação.

Estima-se que cerca de 25 mil pessoas compareceram ao seu velório, realizado na Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo, onde uma bandeira do Brasil e um chapéu de Cowboy foram colocados sobre seu caixão. O enterro, por sua vez, ocorreu em Goiás.

Multidão comparece para dar último adeus ao cantor Leandro, em São Paulo.

Multidão comparece para dar último adeus ao cantor Leandro, em São Paulo. Foto: Paulo Lima / Estadão

O corpo do cantor chegou às 20h15 no Ginásio Rio Vermelho, em Goiania. Parentes mais próximos pediram para ficar alguns minutos em privacidade, porém, houve pressão por parte dos fãs, que ameaçaram quebrar as portas do ginásio, fazendo com que o velório logo fosse liberado ao público.

Amigos sem Leandro e a indefinição de Leonardo

"Em 15 anos eu e o Leandro conseguimos muitas coisas juntos. Os compromissos feitos em nome da dupla eu vou cumprir, mas, depois, vou decidir o futuro da minha carreira", contou Leonardo no dia da missa de sétimo dia para Leandro.

Chitãozinho, Xororó, Luciano e Zezé Di Camargo se despedem do amigo Leandro.

Chitãozinho, Xororó, Luciano e Zezé Di Camargo se despedem do amigo Leandro. Foto: Milton Michida / Estadão

"Fiquei sozinho, sem a dupla, mas recebendo um apoio muito grande dos meus companheiros, dos amigos, do [diretor do Amigos, Aloysio] Legey. Depois de cinco dias que o Leandro tinha morrido, ele me ligou: 'Você não quer vir pra França? Vai ter um evento que a Rede Globo tá fazendo, seria muito bom se você viesse.'. 'Ah, não sei se vou dar conta, não'", contou Leonardo no DVD Amigos, anos depois.

A ideia do cantor era se reunir com sua família em novembro de 1998 para decidir se abandonaria os palcos. No mesmo dia da missa de sétimo dia, porém, Leonardo embarcou para Paris, na França, onde faria um show decisivo para a sua carreira.

Leonardo no velório do irmão, Leandro.

Leonardo no velório do irmão, Leandro. Foto: Edu Garcia / Estadão

"Conversei com minha mãe, meu pai, meus irmãos, e eles falaram: 'Vai'. Então eu fui. Eu sabia que não ia dar conta de cantar nada. Mas o Legey tem grande parte no meu retorno à música. Foi um momento muito emocionante da minha vida, que nunca vou esquecer. Lá em Paris, o dia que fui cantar a música do Roberto [Carlos]..."

Amigos em Paris

No dia 1º de julho de 1998, como parte do projeto Brasil 500 da Globo, foi realizado o especial Coração Brasileiro, gravado no estádio Parc des Princes, em Paris

À época, ocorria a Copa do Mundo da França, e a torcida brasileira vinha embalada por uma goleada por 4 a 1 sobre a seleção do Chile nas oitavas de final do torneio, dias antes.

Os Amigos fizeram então sua primeira apresentação sem a presença de Leandro.

"Há pouco mais de uma semana, nós perdemos um pai, um filho, um irmão, um grande amigo. E quando eu digo nós, não estou falando apenas de nós aqui no palco, estou falando de todos nós brasileiros", introduziu Zezé Di Camargo.

Xororó prosseguiu: "O Leandro nos deu durante sua vida um exemplo de determinação, talento, humildade e profissionalismo". "Ele mostrou nesses últimos dias o verdadeiro sentido da coragem, da dignidade e da fé", complementou Chitãozinho.

Leonardo concluiu: "E essa fé, essa força, [é o] que nos mantêm cada vez mais unidos. E por isso estamos aqui hoje, pra fazer aquilo que o Leandro mais gostava de fazer: cantar. Vamos cantar pra ele hoje."

Neste momento, Leonardo adentra o palco, sozinho, cantando o início de Um Sonhador:

Eu não sei pra onde vou 

Pode até não dar em nada

Minha vida segue o sol

No horizonte dessa estrada...

Logo em seguida, Leonardo começa a cantar a música Força Estranha, de Roberto Carlos, com trechos como: "Por isso uma força me leva a cantar" e "Por isso é que eu canto, não posso parar".

O cantor se emociona e não consegue completar um trecho da canção. De pronto, acaba sendo amparado pelos outros quatro sertanejos, que concluem a música juntos, ovacionados pela plateia.

O especial Coração Brasileiro foi exibido na TV em 2 de julho de 1998, dia seguinte à sua gravação e véspera da vitória brasileira por 3 a 2 sobre a Dinamarca. A seleção de Zagalo terminaria a Copa com o vice-campeonato.

O último Amigos - 1998

Por volta das 21h40 do dia 31 de dezembro de 1998, logo após a novela Torre de Babel e precedendo o Show da Virada, ia ao ar a última edição do especial Amigos.

'Amigos' sem Leandro cantam 'Ave Maria' ao lado do Fat Family em 1998.

'Amigos' sem Leandro cantam 'Ave Maria' ao lado do Fat Family em 1998. Foto: Arquivo / Estadão

Imagens dos espetáculos dos anos anteriores eram exibidas enquanto uma voz em off lia um texto sobre o momento.

"31 de edezembro de 1998. Começamos agora a comemorar a chegada do novo ano. É hora de fazer um brinde ao futuro. Junto com nossos amigos, esse brinde é a nossa festa. No olhar de cada um deles, podemos ver um pouco das nossas vidas: os encontros, as dúvidas, as tristezas, a esperança."

'Amigos' durante ensaio para o show do especial de 1998.

'Amigos' durante ensaio para o show do especial de 1998. Foto: Monica Zarattini / Estadão

'Amigos' durante ensaio para o show do especial de 1998.

'Amigos' durante ensaio para o show do especial de 1998. Foto: Monica Zarattini / Estadão

"Quem tem um amigo sabe que, em cada abraço, em cada aperto de mão, está a força para sonhar com um mundo melhor. Fazer amigos é saber dividir. É aceitar cada um do seu jeito e respeitar as suas creças. Amigos, que no ano novo, os homens possam viver em harmonia, para que a paz esteja cada vez mais perto de nós. A todos vocês um feliz 1999."

O espetáculo foi gravado no Espaço Verde Chico Mendes, em São Caetano, mesmo local onde se deu o início da parceria, quatro anos antes.

'Amigos' reunidos em dia de ensaio e entrevista coletiva para o último especial em 1998.

'Amigos' reunidos em dia de ensaio e entrevista coletiva para o último especial em 1998. Foto: Monica Zarattini / Estadão

Cerca de 60 mil pessoas estiveram presentes no local e assistiram ao show, que teve momentos em clima de emoção por conta de Leandro. Em uma das últimas músicas do show, o grupo Fat Family acompanhou os sertanejos cantando Ave Maria.