Vista-se normal!

Maria Rita Alonso - O Estado de S.Paulo

O slogan da Gap prega a volta a um vestir-se sem exageros – e claro que há interesses comerciais por trás disso. Mas, para mim, o exibicionismo desvairado que tomou conta da moda já deu

Jena Malone, de "Jogos Vorazes ? Em Chamas", foi uma das atrizes que estavam na nova campanha da Gap: Dress Normal uma das atrizes que estampou

Jena Malone, de "Jogos Vorazes ? Em Chamas", foi uma das atrizes que estavam na nova campanha da Gap: Dress Normal uma das atrizes que estampou Foto: Divulgação

Você é uma pessoa “da moda”, acompanha freneticamente os lançamentos internacionais e não consegue se controlar frente a uma galeria de street style – clica, clica, clica até o último slide. Então já reparou que há duas vertentes, cada vez mais distintas entre si, nas ruas e nas passarelas de Nova York e de Londres. 

Uma é formada por mulheres decoradas com estampas gráficas, bordados ricos, bijoux chamativas, sobreposições que mesclam roupas caríssimas e peças esportivas... Looks complementados por cabelos e maquiagem elaborados e impecáveis.

Essas são as it-girls.

De outro lado, estão as meninas de camiseta, tênis, moletom, uma vibe minimalista, os cabelos meio desgrenhados e zero maquiagem. Geralmente elas são modelos novinhas, antes ou depois de se montarem para os desfiles, ou francesas (na faixa dos trinta, quarenta) que repelem desde sempre o papel de vítima fashion.

Essas são as “normais”.

O que no início do ano era apenas um conceito, uma possibilidade de crescer como moda, agora é fato: o movimento batizado de normcore  (uma junção de "normal" + "core" (do inglês, centro ou cerne). Significa o centro do normal) existe e é a resposta imediata à legião de superproduzidas que dominou a cena da moda, nos últimos anos.

Pode-se alegar que ser  normal não passa de mais uma modinha, certo? Provavelmente sim. Uma moda encabeçada pela turma do “menos é mais”, dos clássicos, dos minimalistas e até dos realmente desencanados. Uma moda que, de verdade, eu não vejo a hora que chegue ao Brasil.

Caroline de Maigret, musa do "easy chic": "Mulheres francesas preferem parecer mais inteligentes do que bonitas."

Caroline de Maigret, musa do "easy chic": "Mulheres francesas preferem parecer mais inteligentes do que bonitas." Foto: Divulgação

Historicamente, os ciclos desse mercado são empurrados pela a ação e a reação. As grandes transgressões, inclusive, ocorrem em repúdio ao estilo dominante. No final dos anos 20, por exemplo, depois de uma década de reinvenções e do surgimento do glamour no guarda-roupa feminino (vestidos curtos, vaporosos, com franjas e brocados), aconteceu uma das grandes revoluções de Chanel: o vestidinho preto. Básico, reto, simples, sexy. A estilista francesa criou um vestido democrático e... normal.

Agora, o conceito da “roupa normal” acaba de ser engolido pela indústria. A Gap, que sempre foi famosa pelos básicos, se apropriou dele e levantou a bandeira com o slogan Dress Normal – o que gerou polêmica nos meios publicitários e acadêmicos norte-americanos por que, afinal, o que é ser normal?

No Brasil, a Hering correu e lançou uma campanha que apresenta seus vários modelos básicos de camiseta, ressuscitando-a, novamente, como o carro-chefe da marca.

É claro que a Gap e a Hering têm mil interesses comerciais envolvidos na volta das peças essenciais. E por isso elas estão impulsionando a onda que vai na contramão do estilo “mais é mais” e da opulência toda que estava reinando sozinha em várias frentes: a urbana, a étnica, a esportiva, a rocker...

Sabe aquele estilo do “tudo ao mesmo tempo”? Aquela coisa do look montado, incrível e diferente a cada dia? Então, esse estilo na prática se baseia no consumo de um milhão de coisas desnecessárias – a preços acessíveis e, na maioria das vezes, com baixa qualidade. Você compra uma camisetinha hoje e amanhã ela já não presta mais para nada.

As questões humanas que estão ligadas à vontade de acumular, ao desejo de perfeição e à vaidade extrema vêm sendo debatidas por filósofos, sociólogos e psicólogos, há décadas. Elas explicam o impulso consumista que alimenta a moda. Nós temos o hábito de comprar sem necessidade.

Em 2011, uma marca de roupas esportivas da Califórnia, a Patagônia, causou alarde depois de publicar um anúncio no The New York Times, no qual dizia “Não Compre essa Jaqueta” . Comandada por um ambientalista respeitado, o americano Yvon Chouinard, a campanha reiterava que seus produtos eram feitos para durar.

Houve chiadeira, claro, e muitos consideraram pura hipocrisia – apesar da empresa, que fatura cera de 500 milhões de dólares por ano, destinar de cerca de 10% do seu lucro a grupos de proteção ambiental.

Mas o fato é que é preciso rever urgentemente nosso comportamento. É preciso se informar antes de comprar. Primeiro porque em um mundo de desperdícios e excessos, a questão social (e o envolvimento de confecções conhecidos em processos com o trabalho escravo) e a ecológica precisam ser preponderantes.

Campanha da marca Patagonia: consciência ambiental ou jogada de marketing?

Campanha da marca Patagonia: consciência ambiental ou jogada de marketing? Foto: Divulgação

Depois porque na busca da individualidade, às vezes, em vez de usar a roupa para mostrar quem a gente é, a gente acaba usando para esconder. Atrás do look irreverente, da liberdade, da atitude rebelde, está muitas vezes uma pessoa acuada pela moda.

Quando o assunto é personalidade e elegância, adoro dar o exemplo de Caroline de Maigret. Ex-modelo francesa, nascida em 1974, totalmente geração X e musa-mor do “chique sem esforço”, Caroline jamais aparece em uma festa como se estivesse fantasiada.

Alta, esguia, aristocrata (filha de um conde e de uma ex-campeã de natação), ela acaba de lançar o livro de estilo “Como Ser uma Parisiense em Qualquer Lugar do Mundo”, que chega ao Brasil, traduzido para o português, em novembro, pelo selo Fontanar, da editora Objetiva.

Seu guarda-roupa é fabuloso, mas sua listinha de peças essenciais é curta: jeans, tênis, camiseta branca larga e stilletos pretos. “Mulheres francesas sempre querem parecer mais inteligentes do que bonitas”, disse em recente entrevista a revista Vogue. “Perder duas horas do dia arrumando o cabelo, enquanto você poderia ler um livro, não é algo bem visto aqui. Por isso, a parisiense nunca vai estar ultra-arrumada.” Eu acho que faz  todo o sentido. É certo que as referências culturais e sociais das parisienses são outras, e para elas é mais fácil a aceitar essa coisa mais contida, mais sóbria.

No Brasil, que é um país tropical, iluminado, quente, exagerado por natureza, ex-escravocrata, com o passado social da casa grande e da senzala, as coisas ficam mais complicadas. De qualquer maneira, o consumo consciente é uma demanda global. E a ostentação desenfreada é, sim, algo a ser discutido aqui também.

Enfim, estou na maior torcida por uma moda mais basal. As coisas estão num ritmo alucinado, de muito impulso e pouca reflexão. Só que não dá para ficar agindo, consumindo, se montando e se exibindo sem pensar. Para mim, sinceramente, isso chega a ser falta de educação diante dos pilares sustentáveis que, em diversos setores, a nossa geração precisa colocar de pé.