Uma renovação do hijab, o véu mulçumano, via Instagram

Hannah Seligson - O Estado de S.Paulo

Mulheres na faixa dos 20 e 30 anos estão fazendo sua própria marca na cultura do hijab, postando fotos e vídeos em vários sites de mídia social

Ascia Farraj, 24, pioneira na renovação do hijab via Instagram

Ascia Farraj, 24, pioneira na renovação do hijab via Instagram Foto: Reprodução Instagram

Alguns anos atrás, Ascia Farraj ficava frustrada ao vasculhar a blogosfera da moda. Como muçulmana que usa o véu islâmico, conhecido como hijab, ela raramente via alguém parecido com ela. Entusiasta da moda proveniente de uma cultura conservadora, ela decidiu que uma resposta seria criar seu próprio blog.

Hoje, Farraj, que está com 24 anos, tem quase 900 mil seguidores em sua conta do Instagram, ascia_akf, que acompanham sua montagem caleidoscópica de trajes cheios de estilo, mas modernos, a partir de marcas como Diesel e BCBG (algumas de suas postagens são patrocinadas por empresas no Kuwait, onde ela está baseada). 

Não faz muito tempo, era considerado radical uma mulher muçulmana colocar uma foto de seu rosto online, disse Farraj numa entrevista telefônica. “Fui uma das primeiras blogueiras de estilo pessoal a mostrar meu rosto.”

Mulheres muçulmanas na faixa dos 20 e 30 anos estão fazendo sua própria marca na cultura do hijab, enquanto a propagam de maneira particular à “geração selfie”: postando fotos e vídeos delas próprias em vários sites de mídia social.

Segundo o Corão e o Suna, ensinamentos e práticas do Profeta Maomé, as mulheres muçulmanas são recomendadas a cobrir seus corpos, e só devem mostrar suas mãos, pés e rosto. Mas algumas jovens declararam que o recato não requer que elas sejam invisíveis ou deselegantes. A mídia social, o Instagram em particular, proporciona a jovens muçulmanas cosmopolitas (altamente educadas, bem versadas nas tendências da cultura global e abertas a influências ocidentais) uma oportunidade de ter um pedaço de espaço fashion online, tipicamente reservado às que expõem mais pele ou usam roupas que modelam mais o corpo.

“Muitas garotas muçulmanas que usavam o hijab se cansaram de ser advertidas de que não poderiam ser elegantes ou que deveriam ser desmazeladas ou deselegantes”, disse Melanie Elturk, 29 anos, fundadora da Haute Hijab, uma empresa baseada em Chicago que vende véus muçulmanos e roupas recatadas. A página do Instagram da Haute Hijab, que tem mais de 29 mil seguidores, está repleta de mulheres sorridentes usando véus alegres e florais parecendo tudo menos desalinhadas.

A Haute Hijab é uma loja de Chicago que vende lenços mais fashionistas e já tem 29 mil seguidores

A Haute Hijab é uma loja de Chicago que vende lenços mais fashionistas e já tem 29 mil seguidores Foto: Reprodução Instagram

Como se verifica pelo número crescente de contas no Instagram focadas no véu muçulmano, o hijab está tendo seu momento. “Há todo um grupo de mulheres jovens que gostam de moda, mas nunca tiveram uma plataforma”, disse Zulfiye Tufa, 24 anos, fundadora da Hijab Stylist, baseada em Melbourne, Austrália. Todo dia, Tufa posta um selfie de hijab aos seus mais de 16 mil seguidores no Instagram.

Há três anos, Saman Munir, 34, fundadora do blog Saman`s Makeup & Hijabs, disse que não pôde encontrar um vídeo sobre como estilizar um hijab. “Agora há muitos ícones de estilo hijab online”, disse Munir, que está baseada em Toronto.

Um desses ícones é Yasemin Kanar, 34 anos, uma blogueira de moda e empresária em Stuart, Flórida, que cresceu em Miami. Alguns de seus vídeos no YouTube sobre hijabs de estilo foram vistos mais de um milhão de vezes; sua conta no Instagram, YazTheSpaz89, tem mais de 77 mil seguidores. “As pessoas hoje estão tentando se destacar com seu estilo de hijab”, disse Kanar, que estudou biologia na Florida International University. “Elas não querem parecer iguais.”

Yasemin Kanar é uma blogueira nascida na Flórida, que posta tutoriais sobre hijabs

Yasemin Kanar é uma blogueira nascida na Flórida, que posta tutoriais sobre hijabs Foto: Reprodução Instagram

No passado não muito distante, o hijab tinha uma imagem muito diferente no Ocidente, uma imagem que instigou controvérsias em países como a França e provocou estereótipos de mulheres muçulmanas oprimidas.

O Instagram parece ter neutralizado, ou ao menos deixado de lado, essa discussão ao se concentrar na estética do véu. Embora ainda possa haver um debate político sobre o hijab, outra conversa paralela soa mais como: “Você viu meu selfie de hijab? E como devo enrolar meu véu muçulmano?”

“Realmente sinto que o hijab ficou cool, o que quase me assusta porque as tendências vêm e vão”, disse Elturk numa entrevista telefônica desde Dubai, para onde se mudou recentemente. Elturk, que é advogada, disse que ouviu de mulheres que não são muçulmanas que querem usar o véu depois de ver seu mostruário de imagens de embasbacar na mídia social.

A proliferação de imagens elegantes em sites da mídia social poderia estar tornando as jovens mais confiantes para usar o hijab. Parte da razão disso, disse Kanar, é que a internet ajudou as jovens a encontrarem maneiras mais lisonjeiras de usar o hijab. “Aí elas se sentem melhores para postar imagens online”, disse ela.

O ponto de virada do estilo pode ter sido o lançamento, no ano passado, do videoclipe “Mipsterz”, corruptela de Muslin Hipsters, mixado com “Somewhere in America” de Jay Z que exibe mulheres urbanas com véus muçulmanos praticando skateboard, fazendo malabarismos e plantando bananeira. Suas roupas eram mais evocativas do moderno Williamsburg do que de uma mesquita. O vídeo se tornou instantaneamente viral e foi visto mais de meio milhão de vezes desde dezembro.

“Dez anos atrás, se você dissesse que estava usando um hijab por razões de moda, as pessoas teriam rido na sua cara”, disse Tufa, 24 anos, que pretende introduzir sua própria linha de moda no outono.

“As pessoas tinham pena de nós mulheres muçulmanas e achavam que nós devíamos nos sentir envergonhadas por nos cobrir, mas agora elas veem todas essas fotos online de nós sorrindo e parecendo felizes e na moda e percebem que o véu não é um sinal de opressão”, disseTufa.

Mas moda e fé certamente têm suas tensões. “Recato é o oposto do sentido do Instagram, de modo que pode ser controverso”, disse Elturk, que tenta limitar o número de selfies que posta para manter seu ego sob controle.

Ao colocar imagens suas na mídia social, Kanar, assim como outras blogueiras da moda do hijab, tornou-se um para-raio do debate sobre moda e religião. Ela disse que tem recebido alguns comentários de censura. Um comentador disse a Kanar que ela devia estar em casa com seu marido e não na internet.

“Estas pessoas são, na maioria, de países onde há regras mais rígidas sobre o que se pode usar”, disse ela. Mas há tantas garotas que estou inspirando a usar o hijab, que sinto que estou ajudando.”

Souheila Al-Jadda, 39 anos, editora de The Islamic Monthly, disse que as mulheres muçulmanas estão sob maior escrutínio na mídia social. “Há imãs que postam selfies no Facebook ou Instagram”, disse Al-Jadda, que usa um hijab, mas nunca postou um selfie. “Há dois pesos e duas medidas no julgamento das mulheres. As mulheres devem se orgulhar de si. O que há de errado em postar uma foto online?”

Mais do que uma tensão entre moda e fé, Al-Jadda vê a explosão da moda do hijab na mídia social como uma tensão entre valores americanos e muçulmanos . “Como equilibrar os dois?” ela perguntou, referindo-se à contradição entre recato e superexposição. “Isso é algo que os jovens terão de descobrir.”

Por enquanto, alguns dizem que o Instagram os protegeu do massacre total do julgamento porque a geração mais velha ainda não se infiltrou totalmente na rede centrada em imagens como, por exemplo, no Facebook. “Os mais velhos não sabem o que está rolando no Instagram”, disse Elturk.

Tradução de Celso Paciornik