Uma nova chance para os adolescentes

David L. Kirp - O Estado de S.Paulo

Mais de cinco milhões de rapazes e garotas entre 18 e 24 anos não estão trabalhando nem cursando a escola. Se ninguém ajudar esses jovens desocupados, o futuro de muitos deles será sombrio

Anualmente 1,3 milhão de adolescentes americanos abandonam a escola secundária

Anualmente 1,3 milhão de adolescentes americanos abandonam a escola secundária Foto: Irving Martínez/ Creative Commons

A opinião em geral dos cientistas sociais é de que não compensa muito investir em adolescentes problemáticos. Como afirmou o economista James J. Heckman, da Universidade de Chicago, em 2011, "investimos exageradamente na tentativa de solucionar os problemas de adolescentes carentes e investimos muito pouco nos primeiros anos das crianças carentes", quando os ganhos potenciais supostamente são maiores.

Mas esta é uma opinião equivocada, como vemos por programas de estudos mais recentes. É o caso por exemplo do YouthBuild, com 360 programas em 46 estados abrangendo 10 mil jovens entre 16 e 24 anos de idade. Quase todos abandonaram a escola secundária e são de famílias pobres; 31% têm registros criminais e 29% já têm filhos.

O modelo do YouthBuild é simples - metade ensino acadêmico e metade trabalho prático. "No curso secundário ninguém nos dá a mínima importância, mas aqui eles realmente se importam com você", disse um jovem no centro do programa YouthBuild em Cambridge, Massachusetts. "Eles lhe dão respaldo".

Para esses jovens que "chegaram a um beco sem saída" em sua vida oferecemos uma comunidade que os ajuda a encontrar um objetivo", disse Dorothy Stoneman, que criou o programa. Uma média de 77% dos que participam do YouthBuild recebem um diploma da escola secundária, ou um diploma de equivalência, ou uma credencial reconhecida pela indústria, e 61% são colocados em empregos e seguem um curso pós-escola secundária. A taxa de reincidência no caso de jovens que estiveram presos, dentro de um ano em que estão matriculados num programa YouthBuild, é inferior a 10%, bem abaixo da média. 

Professores e orientadores estão à disposição 24 horas por dia e não só para questões de trabalhos escolares - eles vão aos tribunais com os alunos e os ajudam a obter uma carta de motorista ou escrever uma carta candidatando-se a uma faculdade. Muitos dos participantes constroem ou reformam casas para pessoas pobres ou sem teto, recebendo um modesto estipêndio.

Melody Barnes, que foi assessora de política interna do presidente Barack Obama, diz que os jovens que se formam pelo YouthBuild são "determinados, inteligentes e com consciência cívica, e se não houvessem programas como este teriam sido deixados para trás".

Os programas de trabalho de férias no verão estão focados em adolescentes que estão prestes a abandonar os estudos. Se deixados sozinhos a probabilidade é de que irão vagar pelas ruas ou acabar na prisão. Os estágios de verão têm por objetivo reverter esta trajetória, dando a esses jovens uma experiência de trabalho sólida e um salário, como ajudando-os a desenvolver competências pessoais que se traduzem em sucesso: confiabilidade, perseverança, saber trabalhar em equipe, saber quando afastar-se de um conflito.

Desde a década de 60 a cidade de Nova York implementa programas de trabalho no verão considerados os mais amplos do país. Quase 50 mil jovens entre 14 e 24 anos de idade passam seis semanas trabalhando não só em centros de assistência financiados pelo governo, acampamentos de verão e hospitais, mas também em empresas de alta tecnologia e companhias que integram a Fortune 500. Depois do furacão Sandy em 2012, muitos ajudaram a limpar as praias da cidade.

Como há mais candidatos do que empregos, a escolha é feita por sorteio; menos da metade dos candidatos é aceita. Meu colega Alexander Gelber e os economistas Adam Isen, do Departamento do Tesouro, e Judd B. Kessler, da Wharton School, na Universidade da Pensilvânia, usaram este experimento natural para monitorar quase 300 mil adolescentes que participaram do sorteio entre 2005 e 2008. 

O programa mantém muitos jovens afastados de situações problemáticas. A probabilidade de rapazes com 19 anos ou mais, que trabalharam durante o verão, acabarem numa prisão de Nova York foi 54% menor do que no caso dos que não tiveram a mesma experiência de trabalho. A possibilidade de morrerem jovens era 20% menor. Como o homicídio representava a metade das mortes nos grupos da sua mesma geração, acredita-se que as competências pessoais que adquiriram lhes permitiram evitar situais possivelmente fatais.

De acordo com um estudo realizado em 2012 pelo Instituto de Educação e Política Social na Universidade de Nova York, o comparecimento às aulas melhorou, especialmente no caso de jovens com sérios problemas acadêmicos. Cerca de cem estudantes que antes frequentavam muito pouco a escola foram aprovados em exames de matemática e inglês, em comparação com os que não foram selecionados pelo programa, o que lhes abriu uma oportunidade para cursarem a faculdade. 

Chicago iniciou um novo programa de trabalhos em férias de verão em 2012. A violência juvenil - especialmente os assassinatos de jovens negros - gerava uma enorme preocupação. A esperança era que, combinando uma experiência de trabalho e um intenso processo de aconselhamento - modelo similar ao do YouthBuild - os adolescentes aprenderiam a parar e pensar antes de transformar um conflito em agressão.

Entre os jovens que participaram do programa o número de prisões por crimes violentos caiu 43% % nos 16 meses seguintes, em comparação com aqueles jovens que não participaram da iniciativa. "Este resultado não foi apenas porque os jovens estavam mais ocupados, disse-me Sara Heller, criminologista em Penn. "Grande parte da queda ocorreu posteriormente. Este momento na vida dos jovens - quando eles mostram sinais de desligamento da escola e podem ter problemas com a justiça, mas não abandonaram os estudos - pode ser o momento favorável para intervenções que não exigem enormes gastos.

Mais de cinco milhões de rapazes e garotas entre 18 e 24 anos não estão trabalhando nem cursando a escola. E anualmente 1,3 milhão de adolescentes abandonam a escola secundária. Se ninguém ajudar esses jovens desocupados, o futuro de muitos deles será sombrio - "presos ou mortos", como disse Dorothy Stoneman. Precisamos investir em programas que podem mudar inteiramente a vida desses garotos.

Tradução de Terezinha Martino