Um homem, cinco estilistas: crítico testa roupas dos desfiles masculinos

Guy Trebay - O Estado de S.Paulo

As peças conceituais da passarela funcionam na vida real? Colunista de moda masculina do The New York Times une teoria e prática ao experimentar looks das novas coleções de Ralph Lauren, Calvin Klein, Public School, Duckie Brown e Thom Browne 

Guy Trebay na Times Square com terno de seis mil dólares, da Ralph Lauren. "Poucas vezes me senti tão poderoso", escreve

Guy Trebay na Times Square com terno de seis mil dólares, da Ralph Lauren. "Poucas vezes me senti tão poderoso", escreve Foto: Damon Winter/The New York Times

Tudo começou com a Duckie Brown. Em julho passado, ao rever a última coleção da marca de roupa masculina, me peguei tecendo elogios aos estilistas Steven Cox e Daniel Silver por prepararem uma coleção audaciosa antes dos demais. Havia ternos de proporções gigantescas em um desfile que desafiou as velhas noções de gênero, brincou com forma e modelagem e abraçou com sinceridade o drama do movimento e da sensualidade.

Então, larguei minha caneta e fiz a pergunta que meus leitores normalmente me fazem: "Quem usaria essas coisas?". Percebi que a tarefa de avaliar roupas está muito distante da experiência de usá-las. E descobri como tentar preencher a lacuna entre teoria e prática: usando essas coisas. Resolvi testar não apenas os trajes de passarela da Duckie Brown, mas também as criações mais recente de quatro outros estilistas. Eu me perguntava como seria passar algum tempo usando roupas que admirava abstratamente, mas que raramente pensei em vestir.

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Quer dizer, a roupa pode não apenas "revelar" o homem ao mundo, como disse Polônio, o falastrão shakespeariano, como pode realmente fazer o homem. De qualquer maneira, foi essa a ideia que apresentei aos estilistas de cinco marcas que avaliei ao longo dos anos. A felicidade que senti quando aceitaram minha proposta – o empréstimo de um traje completo por um dia – foi rapidamente substituída pelo medo do fracasso, versão fashion.

No metrô, Trebay veste um terno da Ralph Lauren.

No metrô, Trebay veste um terno da Ralph Lauren. Foto: Damon Winter/The New York Times

O blazer de seis mil dólares

Meu primeiro passo foi marcar uma entrevista com Ryan Dichter, o imperturbável nativo do Colorado, tão conectado com a filosofia Ralph Lauren que seu cargo de diretor da loja do estilista em Nova York está mais para embaixador extra-oficial da marca. "Se um cliente não dominou a ideia, não dominou e pronto. Se não funciona para você, não temos nenhum problema de indicá-lo outras marcas, como Brunello Cucinelli ou Tom Ford", afirmou Dichter. Dizendo isto, me ofereceu um paletó cinza chumbo da linha Purple Lable de Ralph Lauren, parte de um terno feito com tecido exclusivo da marca. E me encorajou a vesti-lo.

Seria pouco dizer que uma transferência emocional surgiu quando coloquei o elegante blazer de dois botões, cujos detalhes – lapelas pespontadas, fendas duplas profundas e um bolsinho supérfluo, mas adoravelmente retrô – contribuíram para me enfeitiçar. Naquele momento, lembrei-me de Tom Ford, que comentou uma vez que alguns dos seus modelos preferidos pareciam "endinheirados" quando usavam suas roupas. Poucas vezes me senti tão poderoso como quando peguei o trem para o trabalho naquela manhã ou quando tentei passar pela multidão e atravessar a Times Square vestindo um terno Ralph Lauren de quase seis mil dólares.

De terno Thom Browne, durante um passeio com o cachorro Harrisson no Central Park.

De terno Thom Browne, durante um passeio com o cachorro Harrisson no Central Park. Foto: Damon Winter/The New York Times

Entrando para um culto da moda

Se "cognição indumentária" significa que, de alguma forma, podemos nos sentir mais competentes, seguros e ainda mais inteligentes ao usarmos roupas que denotam status profissional, sem dúvida esse foi um caso em que o terno me engrandeceu em muitos aspectos. O contraste dessa sensação foi gritante quando, na próxima etapa, passei um dia com um look da grife Thom Browne. Para começar, os trajes singulares do estilista exigem certo compromisso com sua visão, como o próprio Browne me sugeriu durante uma manhã na sua loja em TriBeCa, em Nova York.

"Muita gente vai ficar olhando, mas você se acostuma", disse ele, que usava um de seus ternos característicos, com calças um tanto mais curtas. O que eu não havia percebido antes de experimentar o terno de Browne era como, sutilmente, um estilista pode usar a técnica para moldar o consumidor à sua maneira de ver o mundo. Ao expor os tornozelos, um terno de Thom Browne exige certos ajustes posturais de quem o veste: o cós da calça fica localizado no meio do abdômen, por isso Browne, sempre preocupado com a forma física, força o usuário a encolher a barriga ou a ir imediatamente para uma academia.

Trebay veste traje da Public School.

Trebay veste traje da Public School. Foto: Damon Winter/The New York Times

Rumo à Public School

Enquanto as roupas de Browne chamam a atenção com facilidade, as que emprestei de Dao-Yi Chow e Maxwell Osborne, designers da Public School, tiveram um efeito muito diferente. Em oito anos de marca, os dois receberam elogios e prêmios, garantiram um bico como diretores de criação da DKNY e conquistaram um seguimento apaixonado entre os homens que não se sentem confortáveis usando trajes de dândis florentinos nem querem se parecer com um lumbersexual, o lenhador moderninho do Brooklyn.

"É como um uniforme urbano", disse-me uma vez o editor de moda Eugene Tong, embora "incógnito urbano" seja um termo mais preciso. Os elementos típicos de um uniforme da Public School incluem camadas de camisas e túnicas, blusas com bainhas irregulares, sobretudos despretensiosos, bonés de hip-hop. Tudo em uma paleta de tons monocromáticos discretos. Longe de proclamar sua presença ou provocar confronto visual entre os transeuntes, a camisa longa, a gola alta escura e o sobretudo com cinto e ombros levemente inclinados o colocam em um certo anonimato – fator reforçado durante o trajeto que fiz com meu afilhado de 10 anos, pelo bairro nova-iorquino de West Village, rumo à escola dele, de manhã. 

Minha roupa não chamou a atenção de ninguém. Com seu short soltão de estampa camuflada, sua camiseta Run-D.M.C. e o chamativo tênis LeBron XII, Jake foi quem ganhou mais destaque: quando chegamos à sua escola, eu era apenas o acessório de um aluno do quinto ano.

O terno trespassado da Calvin Klein é resoluto, estruturado e justo.

O terno trespassado da Calvin Klein é resoluto, estruturado e justo. Foto: Damon Winter/The New York Times

Sem donut no café da manhã

O italiano Italo Zucchelli é um dos que continuam a produzir para a Nova York dos imigrantes, com ideias que radicalizam o estilo comercial. À frente da divisão masculina da Calvin Klein há 20 anos, ele passou seus anos lá usando tons berrantes, materiais pouco ortodoxos e silhuetas tão graficamente simplificadas que pareciam vindas de histórias em quadrinhos - tudo para revitalizar o minimalismo característico do fundador da marca.

O terno trespassado que Zucchelli selecionou para mim fazia jus a seu padrão: resoluto, estruturado e tão justo que não dava espaço para indulgências como um donut no café da manhã. Todos os estilistas, claro, fazem roupas para o tipo ideal de homem magro; porém, mesmo sendo um varapau natural, fiquei com medo de abrir a costura da roupa. Como com o terno de Browne, o da Calvin Klein fazia certas exigências explícitas. Apesar disso, enquanto caminhava em direção a meu restaurante favorito na hora do almoço, o Smile, na Bond Street, me senti à vontade e me esqueci completamente da ansiedade inicial que senti em relação a sua estampa de oncinha.

Trebay veste roupas assinadas pelo estilista Duckie Brown.

Trebay veste roupas assinadas pelo estilista Duckie Brown. Foto: Damon Winter/The New York Times

Uma palavra aos pessimistas

Foi a recepção blasé que tive ao sair por aí de animal print que acabou me dando coragem suficiente para usar o traje da Duckie Brown em público, em um passeio pelo NoHo, vestindo uma calça leve de lã que me lembrou as calças palazzo que minha mãe tinha nos anos 60. Combinei-a com uma camisa branca da Prada que parecia vagamente adequada para a estação e que também propiciou o uso de outra peça da Duckie Brown, a jaqueta Harrington de chiffon de cetim, que mais parecia um pijama de um filme de George Cukor.

Algo inesperado aconteceu comigo ao usar essas roupas – não, não foi o desejo secreto de tentar cross-dressing. Liberto de meu próprio gosto seguro, acabei me lembrando de algumas razões pelas quais a moda despertou meu interesse. Não dá para perceber nas coisas certinhas que enchem as revistas de moda, passarelas e posts do Instagram, mas o lúdico, a experimentação e a instrução também são funções da moda.

Ao andar por Manhattan usando o que constitui o estilo do agora, desse exato momento, me senti tão enraizado no presente que, por um instante, deixei de lado minha ansiedade habitual sobre o futuro. Em seis meses, as coisas interessantes como as que usei vão estar por aí. Os estilistas vão se encarregar disso. E quanto aos pessimistas que profetizam o fim do atual "momento da moda masculina"? Meu pequeno experimento me convenceu de que eles não sabem do que estão falando.