Um futuro para as revistas de moda

Jorge Grimberg - O Estado de S.Paulo

Profissionais reconhecidos da área se unem em projeto editorial independente com financiamento do próprio público

Dana Goldstein para Revista Fort 

Dana Goldstein para Revista Fort  Foto: Divulgação

Imagine um futuro em que o leitor possa escolher as revistas que quer impressas. Em que só por meio do patrocínio individual do consumidor elas ganhassem vida ou não. O futuro chegou e essa opção começa a aparecer na proposta da revista Fort, publicação independente focada no universo masculino jovem. "O financiamento coletivo é um sistema novo e bem interessante para a viabilização de projetos independentes", afirma Cassia Tabatini, fotógrafa veterana e uma das idealizadoras do projeto. "Criamos uma página em um site de crowdfunding (catarse.me/fortmagazine) e conseguimos explicar e ilustrar a ideia, além de oferecer contrapartidas para quem investir na edição." 

Cassia Tabatini para Revista Fort 

Cassia Tabatini para Revista Fort  Foto: Divulgação

De volta ao Brasil após uma temporada em Londres, Cassia sentiu uma lacuna no mercado masculino de revistas jovens independentes, tipo de publicação que brota no Reino Unido. Lá, os títulos são publicados de duas a seis vezes por ano, sem o compromisso com a notícia do momento e com o intuito de registrar um período da história contemporânea. "Cada edição é um item colecionável. Todo conteúdo é atemporal", afirma Cassia.

Na moda masculina, tornou-se comum que grandes revistas tenham apenas duas edições por ano, celebrando as principais temporadas de moda. "Esse nicho de mercado tem um potencial comercial incrível, mas no Brasil ainda está engessado no mercado editorial tradicional e carente de informações frescas", diz o stylist Thiago Ferraz, editor de moda da revista Fort. "O homem está muito mais conectado e existem marcas novas despontando que também precisam de publicações que as represente. É uma cadeia que precisa ser formada e fortalecida", completou Ferraz.

Com propostas inovadoras, revistas como a britânica System Magazine e a alemã 032C, se destacam por publicar material original e intrigante, como longas entrevistas com grandes criadores do universo da moda e arte da geração atual, como Nicolas Ghesquière e Raf Simons. Títulos bianuais já reconhecidos, as revistas inglesas Love e Hero também apresentam semestralmente histórias de moda bem elaboradas com trabalho fotográfico e artístico sensacionais. No Brasil, o movimento segue com publicações como a FFW Mag, a +55, de Ana Wainer, e a Revista Nacional, de JR Duran, entre outras que circulam contra a corrente do movimento digital, apostando em boa qualidade de conteúdo editorial e fotográfico. 

Cristiano Madureira para Revista Fort

Cristiano Madureira para Revista Fort Foto: Divulgação

A Fort Magazine se assemelha a elas por ter seu próprio tempo, com conteúdo pensado. Mas inova no modelo de financiamento. Caso não arrecade verba suficiente, a revista não sairá do projeto gráfico. "O futuro do mundo editorial esta em constante adequação ao mercado. Por meio do sistema de crowdfunding, projetos de nicho e colecionáveis se tornam viáveis, movimentando o mercado de impressos e expandindo a cultura de moda", acredita Cassia. 

Resta ver se o público consumidor está realmente interessado em financiar iniciativas do tipo. Se o formato vingar, pode ser um caminho possível para o universo editorial. A contribuição para a Revista Fort vai de 50 a 500 reais. Como contrapartida, caso o projeto atinja a arrecadação mínima, cada investidor ganha recompensas de acordo com o tamanho da contribuição, que vão desde uma edição da revista até pôsteres e camisetas, ou ainda, para os maiores contribuintes, um foto publicada entre os colaboradores da edição.

 

Um caminho no mínimo democrático para uma indústria em constante transformação.